Arquidiocese de São Francisco vai pagar 345,7 ME a vítimas de abusos sexuais
A arquidiocese de São Francisco nos Estados Unidos anunciou esta segunda-feira um acordo para pagar 395 milhões de dólares (345,7 milhões de euros) a cerca de 530 vítimas de abusos sexuais cometidos por membros da igreja.
Estes abusos a menores, que muitas vezes remontam há várias décadas, há muito que tinham prescrito, até que a Califórnia aprovou uma lei dando às vítimas uma janela de três anos para se manifestarem e avançarem com processos, entre o início de 2020 e o final de 2022, por factos antigos.
O acordo "abre caminho a uma compensação justa para os sobreviventes, que carregaram o peso desses abusos toda a vida", considerou o arcebispo de São Francisco, Dom Salvatore Cordileone, num comunicado.
"Assumimos total responsabilidade pelo que aconteceu, e peço as minhas sinceras desculpas a todas as pessoas que foram prejudicadas", acrescentou, referindo-se à "obrigação moral" da Igreja Católica de dar uma resposta para os seus crimes.
Este acordo financeiro ainda precisa de ser aprovado por votação pelas vítimas, antes de ser validado por um juiz.
"Hoje, a vergonha vai mudar de lado", reagiu uma das vítimas, Margie O`Driscoll, agredida sexualmente há quase 50 anos num estabelecimento escolar católico.
"Como todos os sobreviventes, carreguei essa dor e essa vergonha como um fardo durante muito, muito tempo", insistiu Margie durante uma conferência de imprensa, lembrando todos os anos em que as vítimas foram "desprezadas pelo arcebispo".
"O sofrimento mais profundo é o daqueles que morreram enquanto este caso se arrastava, sem que o seu nome fosse alguma vez mencionado no tribunal nem recebessem desculpas do arcebispo", recordou.
Jeff Anderson, um dos advogados que representa um grande número de vítimas, saudou o acordo como um "avanço importante", sublinhando que, para além das compensações financeiras, o documento obriga o arcebispado a instaurar 14 medidas para "proteger as crianças e dar meios de agir às vítimas".
A instituição terá de contratar, nomeadamente um consultor independente a quem dará acesso a todos os seus arquivos, encarregado de produzir um relatório sobre as violências cometidas. Também deverá ser publicada uma lista parcial dos autores de abusos, e deve ser criada uma linha telefónica para denunciar futuras violências sexuais.
A Igreja Católica enfrenta escândalos de abusos sexuais cometidos pelos seus elementos em todo o mundo.
A forma como lidam com isso varia muito de país para país: em Espanha, por exemplo, onde o Papa Leão XIV esteve no início de junho, a Igreja ainda é muito criticada pela sua falta de transparência sobre a questão.