Arte Murujuga. Extensão de central de gás na Austrália ameaça património milenar

O novo ministro australiano do Meio Ambiente, Murray Watt, aprovou esta semana um projeto que propõe a extensão da central de gás natural liquefeito no noroeste do país. Assim, a fábrica de gás em Karratha funcionará até 2070. A decisão já soma inúmeras críticas de organizações ambientalistas, pois a poluição que libertará irá degradar os traços milenares inscritos no parque de arte rupestre Murujuga.

Carla Quirino - RTP /
Arte aborígene na Península de Burrup, em Murujuga. As comunidades humanas vivem no continente australiano há cerca de 50 mil anos Página da rede X: Archaeology and Art

Localizada na costa ocidental da Austrália, o parque de Murujuga compreende mais de um milhão de petróglifos, alguns datados de 50 mil anos.

Tem as representações mais antigas do rosto humano no mundo até então conhecidas e regista tradições dos aborígenes australianos desde o primeiro assentamento humano no continente. É considerada “surpreendentemente bela e de enorme importância cultural e espiritual para os proprietários tradicionais”.


Arte Rupestre em Murujuga |  Save our Songlines

Apesar da importância do local, foi construído um grande recinto industrial de produção de gás natural liquefeito junto ao parque de arte rupestre. A central terminaria a produção em 2030, mas o atual ministro australiano do Meio Ambiente, Murray Watt, aprovou a continuidade da unidade energética até 2070."É a maior bomba de carbono no hemisfério sul"

Diversos grupos de defesa do meio ambiente e ativistas climáticos condenaram de imediato a decisão. 

Segundo os ativistas, a laboração da central por mais quatro décadas abrirá o caminho para dezenas de poços de gás na costa da Austrália Ocidental, que gerará para lá de mil milhões de toneladas de emissões de carbono, contradizendo as promessas do Governo de agir contra as alterações climáticas.

Desta forma, a empresa de petróleo e gás Woodside, inaugurada na década de 1980, estará autorizada a operar a Central de Gás Karratha até 2070.
 

Arte Rupestre em Murujuga e a central de gás Woodside | Save our Songlines

Murray Watt provou a “proposta” para a extensão, porém com “condições estritas” relacionadas à qualidade do ar. A Woodside tem dez dias para responder antes do ministros produzir a decisão final, disse o gabinete, em comunicado.

À oposição da extensão da central também chegou do ministro para as Alterações Climáticas de Tuvalu, Maina Talia, que pede a Camberra que rejeite a proposta.

Os líderes do Pacífico deixaram claro: "não há futuro para as nossas nações se a expansão dos combustíveis fósseis continuar”, afirmou Talia. “Isso vai para além da política, trata-se de clareza moral, perante os territórios mais penalizados”, acrescentou.

Citado na CNN, Benjamin Smith, presidente do Comité Científico Internacional para a Arte Rupestre, acentua que a decisão sobre a extensão é “talvez a decisão ambiental mais importante da nossa vida”.

“O que será aprovado aqui é a maior bomba de carbono no hemisfério sul e a extensão de uma planta que está a danificar ativamente o local de arte rupestre mais importante do hemisfério sul, se não o mundo”, sublinhou Smith, professor de arqueologia da Universidade da Austrália Ocidental.

Arte Rupestre Murujuga | Murujuga.org.au
Perder 50 mil anos de registos humanos
Este complexo de arte rupestre ao ar livre está a apagar-se devido à poluição industrial da central de gás próxima.

As gravuras que constituem a marca das comunidades pré-históricas estão inscritas na fina superfície externa vermelha, acastanhada e preta da rocha, chamada verniz de rocha, expondo a camada de rocha azul-cinza-marinho que está por baixo.

Este verniz rochoso é produzido através de um processo que envolveu as ações de micróbios especializados chamados cianobactérias. Estes seres vivos concentram manganês e ferro do ambiente para formar uma bolsa externa para se proteger do ambiente do deserto.

Assim, o verniz de rocha forma-se a uma taxa incrivelmente lenta: 1 a 10 mícrons em mil anos (um cabelo humano é de cerca de 100 mícrons).

Esses micro-organismos só podem prosperar quando a acidez da superfície das rochas está quase neutra (pH 6,5-7). As suas bolsas de manganês são cruciais para a integridade do verniz de rocha, liga-o e mantém-no na rocha subjacente.

Se se perder o manganês, perde-se o verniz de rocha e inevitavelmente a arte milenar explica o investigador Jolam Neumann, da Universidade de Bonn, na Alemanha, que estuda o impacto da poluição industrial no complexo de rochas de Murujuga.

Neumann comparou um pedaço de rocha recolhido em 1994 (anterior à central) pelo cientista arqueológico Robert Bednarik com fragmentos recentes.

O cientista descobriu que havia degradação significativa do birnessite ou óxido de manganês - e caulinita que é um mineral argiloso da superfície. 

Precisamente essa superfície escura vermelha acastanhada da rocha tornou-se porosa e começou a partir-se.

A análise de Neumann, citada na publicação The Conversation, vem sustentar que as emissões industriais são a causa da elevada porosidade e alerta que está em curso “a rápida desintegração da superfície da rocha”.


Uma das milhares de representações de Arte Rupestre Murujuga | Murujuga.org.au A perfuração no recife Scott
“O projeto da plataforma do Noroeste em si é para o processamento de gás, e o gás tem que vir de algum lugar”, argumenta Joe Rafalowicz, líder de clima e energia do Greenpeace Austrália. 

“O Greenpeace e muitos outros grupos ambientais estão de olho para as reais intenções de Woodside, que é a perfuração de gás na Scott Reef”, afirma.
 
Scott Reef é um ecossistema remoto de milhões de anos que abriga uma variedade diversificada de vida marinha, incluindo cobras marinhas de escamas avermelhadas ameaçadas de extinção e baleias azuis migratórias.

Caso o projeto se concretizar, o gás proveniente da perfuração do recife será enviado para a fábrica de Karratha para processamento através de um gasoduto de 900 quilómetros, alerta a organização climática.

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