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Artemis II. O segundo pequeno passo
A Lua nunca deixou de estar lá. Silenciosa, distante, imperturbável. O que mudou foi a forma como a olhamos. Cinquenta anos depois do último voo tripulado rumo ao nosso satélite natural, a Humanidade prepara‑se para voltar, não em passo firme de conquista, mas num andamento cauteloso, medido, quase contido.
A presença do foguetão SLS/Orion na plataforma 39B, no Centro Espacial Kennedy, é a prova mais visível de que o objetivo lunar continua ativo. O lançamento da missão Artemis II ainda não tem data definida, mas a caminhada de regresso à Lua já começou. E, por vezes, mais do que o destino, é o movimento que revela a verdadeira dimensão de uma missão.
Imagem: NASA/Sam Lott
O último voo tripulado à Lua foi lançado a 7 de dezembro de 1972, na missão Apollo 17. Durante dez dias, os astronautas Eugene Cernan, Harrison Schmitt, Ronald Evans e Thomas Mattingly cumpriram a derradeira missão lunar do programa Apollo. Cernan foi o último ser humano a pisar a superfície da Lua, na região de Taurus‑Littrow.
Tal como então, a missão terá a duração aproximada de dez dias e contará com quatro astronautas: Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen. Ao contrário das Apollo finais, a Artemis II não prevê alunagem. O objetivo será apenas o orbitar a Lua, seguindo a lógica da missão Apollo 8, em dezembro de 1968: ir, observar, testar, regressar.
Para os tripulantes, esta será uma verdadeira boleia espacial até à Lua. Estarão perto o suficiente para sentir a sua presença, mas longe demais para lhe tocar. E isso é tudo menos acidental.
A missão terá a duração aproximada de dez dias e contará com quatro astronautas: Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen | Imagem: James Blair - NASA - JSC
Testar, testar, testar
A Artemis II é, acima de tudo, um ensaio geral. O seu propósito passa pela validação de sistemas críticos de suporte à vida, transporte e navegação, preparando missões futuras que deverão, essas sim, voltar a colocar um ou mais humanos na superfície lunar, mais de meio século depois da última missão Apollo. Estamos assim tecnicamente mais perto da Lua do que alguma vez estivemos desde a década de 70.
Ainda assim, permanece a pergunta: porque é que voltar à Lua precisa novamente de ser explicado ao público?
Este regresso lunar assenta na ideia de uma presença sustentada, não numa visita pontual. A Lua surge agora como laboratório científico, plataforma tecnológica e ponto estratégico para a exploração do espaço profundo.
Recursos como o gelo de água e o Hélio‑3, potencial combustível para fusão nuclear limpa, transformaram o satélite num ativo económico. A sua superfície pode ser, no futuro, uma verdadeira 'estação de serviço' para missões rumo a Marte e mais além.
Mas não é apenas ciência ou economia. A Lua voltou ao centro do tabuleiro geopolítico. A China, em particular, tem dado passos firmes nesta nova corrida espacial, com planos para instalar uma base permanente - sobretudo na região do polo sul, rica em recursos. Essa ambição coloca pressão direta sobre os Estados Unidos e reabre uma competição estratégica que muitos julgavam encerrada com o fim da 'Guerra Fria'.
O SLS/Orion da NASA é um dos foguetões da nova geração, contudo o futuro deste lançador pode apenas servir para esta epopeia, já com a SpaceX no caminho para Lua |Imagem: NASA/Ben Smegelsky
Prudência não é medo
Voltar à Lua nunca foi tarefa simples. O que foi feito há cinquenta anos teve muito de aventura e até de loucura científica. Homens voavam em máquinas rudimentares, com sistemas de computação mínimos e riscos permanentes. Eram, sem dúvida, heróis, mas também voluntários de uma era em que o desconhecido era aceitável.
Atualmente, a abordagem é outra. A experiência acumulada trouxe prudência, e esta associou-se ao tempo que for necessário. A Lua serve agora como ensaio, não como destino final. Não se trata apenas de voltar, mas de ir e ir mais longe.
E esse cuidado convive com outra pressão: a política, a economia e o prestígio internacional. O medo do fracasso não é apenas humano: é institucional.
"T -minus"
A contagem decrescente para a Artemis II começou no momento em que terminou a missão Artemis I, em novembro de 2022. Tudo o que foi aprendido nesse voo não tripulado alimentou correções e melhorias agora testadas até ao limite.
Com humanos a bordo, errar não é opção. Daí a sucessão de testes, ensaios e validações.
Apesar de a NASA considerar uma janela de lançamento entre 6 e 11 de fevereiro, nenhuma data será anunciada antes da conclusão do ensaio geral, incluindo o teste do Sound Suppression System - o sistema de água que protege o foguetão e a plataforma no momento da ignição.
Foto: NASA/Kim Shiflett
Caso a missão não seja lançada até 11 de fevereiro, a próxima oportunidade surgirá apenas em março. Como admitem responsáveis da NASA, “tudo está em aberto”.
Enquanto a NASA avança com cautela, o setor privado acelera e a Lua parece já não ter 'dono'. A SpaceX, de Elon Musk, desenvolve a Starship como futuro veículo de transporte lunar e marciano. A relação com a agência espacial norte‑americana é de parceria, mas sob tensão.
A SpaceX será responsável pelo módulo de aterragem lunar no âmbito do contrato Starship HLS, enquanto a NASA procura garantir que não dependerá de um único operador. O objetivo é criar um mercado lunar competitivo, com vários “táxis espaciais”.
Esta coexistência entre visão pública e ambição privada desenha um novo cenário: a Lua como espaço sem os inquilinos de sempre, mas com muitos interesses - científicos, económicos, tecnológicos e estratégicos.
Olhar de perto e quase tocar
Para esta tripulação Artemis, a viagem será - para já - uma verdadeira boleia espacial até à Lua. Um olhar próximo, quase íntimo, do astro que nos acompanha há milénios.
Imagem: NASA
Uma nova viagem, uma nova aventura, um novo olhar para cima, conscientes de que o próximo passo, seja ele pequeno ou grande, vai fazer diferença num futuro virado cada vez para fora das fronteiras do planeta Terra.