As causas de quase tudo repousam num largo de Mueda

Lusa /

Mueda, Moçambique, 15 jun (Lusa) -- A palmatória em pau continua lá, a sede da administração colonial de Mueda que a usava para castigar populações negras também, bem como a memória pesada de um massacre que conduziu milhares de jovens ao levantamento armado no norte de Moçambique.

Da sede da administração colonial se fez um museu reproduzindo os aspetos da humilhação associada ao colonialismo, logo começando na sinistra "sala da palmatória", no largo fronteiro tremula uma bandeira de Moçambique, mais o seu escudo com uma arma AKM, simbolizando a guerra empreendida para expulsar a dominação portuguesa, e um monumento presta homenagem aos que caíram naquela tarde de 16 de junho de 1960.

Na terça-feira, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, inicia em Mueda as comemorações dos 40 anos da independência, que se comemoram a 25 de junho, evocando o massacre de há 55 anos.

"O sacrifício que fiz para me engajar na luta de libertação nacional começou com o massacre de Mueda", afirma à Lusa David Mariano, 64 anos, que há mais de cinco décadas presenciou com o pai a concentração de várias comunidades "para receber a independência do dono [governador colonial]" e em vez disso teve tiros e a morte que lhe levou um primo. "Foi esse sentimento que levou lá [guerra], prossegue este antigo combatente moçambicano e ex-professor nas zonas libertadas da Frelimo.

Os contornos do massacre de Mueda permanecem incertos, tal como o número de vítimas atingidas pelo fogo das tropas portuguesa, de 14 a 600, segundo versões oficiais dos dois lados, após conversações entre emissários moçambicanos provenientes da Tanzânia e a administração portuguesa, sobre a exploração praticada nos salários e comercialização de produtos agrícolas e das liberdades que eram negadas à população local.

A expetativa sobre as negociações de dois destes emissários, Mathias Shibiliti e Faustino Vanomba, levou milhares de pessoas do planalto de Macondes àquele largo de Mueda, com a expetativa de que a independência de Moçambique, ou pelo menos daquela região, começaria naquela tarde. Mas o que viram foi o governador de Porto Amélia (atual Pemba), Garcia Soares, dar ordem de prisão aos dois nacionalistas.

"A prisão de Shibiliti e Vanomba causou uma revolta dos populares e em todos os cantos ouvia-se uma pergunta a que ninguém poderia responder: `Afinal viemos para ouvir o que Shibiliti veio dizer ao governador ou para assistir a pessoas a serem algemadas?`", descreve a reconstituição dos acontecimentos no Museu de Mueda, a que se seguiu um coro de gritos, junto do carro, já de motor ligado para levar os dois presos, "daqui eles não vão sair".

"Havia um cidadão moçambicano, que era catequista, e tinha escondido uma faca numa mochila de pele de gazela e queria esfaquear o governador que vinha de Porto Amélia. A primeira pessoa a levar o tiro foi ele", relata William André, guia do museu, que mantém a versão de que as tropas abriram fogo por instrução do próprio governador.

João Vyatenda Guga estava lá, tinha 12 anos, mais o seu pai, ambos na ilusão de que naquela tarde iam receber a independência: "Quando começaram os tiros, fugimos de bicicleta, começámos a cair, a cair, mas ainda assim salvámo-nos, eles iam-nos matar", recorda à Lusa a testemunha de um massacre que o conduziu, em pouco tempo, para a clandestinidade e depois para a luta armada, onde chegou a comandante de companhia.

Tal como Lipada Akatipula Namalungo, também ele um adolescente à data dos acontecimentos: "Quando o povo foi concentrado no centro de Mueda, de manhã, não sabia que ia haver uma guerra sangrenta, pensava que ia haver a entrega das liberdades, da paz, de uma independência em Moçambique", lembra o futuro combatente da Frelimo, destacando "o rancor" que nasceu no povo, sinal de que, "afinal de contas, não havia nada que pudesse acontecer mais".

Se as circunstâncias em que ocorreu o massacre continuam pouco claras, é menos incerta a conclusão de que esta chacina marcou "o mais amargo ódio contra os portugueses e era evidente, de uma vez por todas, que a resistência pacífica era fútil", segundo um testemunho do general Alberto Chipande, primeiro ministro da Defesa de Moçambique e que também se encontrava em Mueda à data daqueles acontecimentos.

"Os nossos colegas que morreram aqui queriam a independência, não era só para os macondes aqui, era para todo o país e a resposta foi a morte. E então tivemos de nos levantar", resume à Lusa Simão Gomes, outro antigo combatente e professor, cujo nacionalismo se consolidou a partir desse massacre que a administração colonial tinha acabado de oferecer a milhares de jovens já revoltados por uma dominação humilhante.

O largo onde tudo aconteceu é hoje uma ilha de silêncio entre o considerável caos e azáfama que se apoderou das ruas em terra de Mueda, as transações frenéticas dos sujos mercados informais e a movimentação constante de autocarros e camiões que ligam os pontos mais remotos de Cabo Delgado.

O museu e o monumento lembram o ponto de partida de quase tudo na luta de libertação de Moçambique e não apenas a humilhante palmatória e o massacre, reproduzido no interior da antiga administração colonial na forma de peças de madeira, personificando tropas, populares tombados e cipaios. Mas também o objetivo final, simbolizado na estátua de um negro com algemas quebradas.

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