As guerras deste século serão travadas pelos recursos alimentares - Bob Geldof

Lisboa, 06 Mai (Lusa) - As guerras do futuro serão travadas pelo controle dos recursos alimentares, já que o Mundo tem demasiada população e a comida não chega para todos, declarou hoje em Lisboa o músico e activista irlandês Bob Geldof.

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"O século XXI, tal como os passados, não estará livre de guerras", disse Geldof no decorrer de um almoço-conferência com o tema "Desenvolvimento Sustentável - Fazer a Diferença", organizado em Lisboa pelo Banco Espírito Santo e o jornal Expresso.

"As guerras do futuro serão travadas pelos recursos [alimentares]" já que "o Mundo tem pouco, somos demasiados e não nos conseguimos alimentar", disse o organizador dos festivais Live Aid e Live 8, fazendo um contraponto com as "guerras ideológicas" do século XX.

A Humanidade, acrescentou o músico, só consegue "ir gerindo a situação [do desiquilíbro na distribuição de recursos alimentares] através dos combustíveis fósseis".

Só que essa solução não é sustentável, considerou o activista, para quem "a definição de desenvolvimento sustentável" é relativamente simples.

"Não temos desenvolvimento sustentável quando usamos uma porção dos recursos da Natureza mais rapidamente do que a Natureza consegue, naturalmente, regenerar-se", disse o activista irlandês, que discursou mais de vinte minutos de improviso a seguir às intervenções do presidente da Impresa, Francisco Pinto Balsemão, e do presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado.

A solução duradoura, disse Geldof, "está na acção de cada uma das pessoas", já que "os políticos não vão fazer mudanças sem serem empurrados pelos eleitores".

"Cada acto individual é um acto político. Se hoje todos dissermos ´não vou de carro para o trabalho, vou de bicicleta` podemos mudar a política de um país no espaço de um ano", afirmou o músico antes de dar um nome a este tipo de iniciativa: "liderança pessoal", que no entender de Geldof é igual a "responsabilidade individual".

Bob Geldof recordou igualmente o momento em que decidiu iniciar o seu próprio "acto individual".

"Descobri isto em 1984. Numa tarde de Outubro eu estava em Londres com a minha mulher e a minha filha. Na televisão passava uma notícia da BBC", no "Six O´Clock News".

"Treze milhões de pessoas estavam a morrer de fome [na Etiópia]. O jornalista escolhia as palavras com cuidado - via-se que estava enojado - e as suas palavras [para mim] foram perfeitas", lembrou o activista.

"Estes milhares de pessoas - na sua maioria crianças, muitos miúdos de cinco anos, com miúdos de três anos ao colo porque os pais lhes tinham dado a última comida antes de eles próprios morrerem - sentaram-se num canto da Etiópia e esperaram que o Mundo os ajudasse".

"Aquele noticiário foi como um olho de Cíclope [sempre aberto], forçou-nos a ver a mão vazia da Humanidade", afirmou o músico.

"Percebi que era preciso algo mais do que uma moedinha na caridade, era preciso um acto individual. Escrevi uma canção, peguei nos meus amigos e fiz deles meus "parceiros". Eles eram meus rivais no mundo da música [todos a querer sucesso com os seus discos] mas fiz deles sócios", contou.

O resultado ficou para a história. "Fizemos 200 milhões de dólares", conta Bob Geldof antes de reconhecer que o Live Aid lidou só com "os sintomas da pobreza".

"As verdadeiras causas são políticas e económicas. Por isso também as soluções são políticas e económicas", explicou.

"[Na Europa] pagamos impostos para produzir, pagamos impostos para armazenar e pagamos impostos vergonhosos, imorais, abjectos para destruir comida em excesso".

"E assim estou aqui diante de vós. 25 anos depois. É irónico que ainda tenha de dizer ´Feed the World` (Alimentem o Mundo). Nunca pensei que fosse preciso fazê-lo depois deste tempo todo".

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