Ascensão dos Verdes na Alemanha. Annalena Baerbock é a primeira candidata do partido a chanceler

por Graça Andrade Ramos - RTP
Annalena Baerbock, co-líder dos Verdes alemães, foi apresentada como a primeira candidata do partido ao cargo de chanceler em abril de 2021 Reuters

A co-líder dos Verdes na Alemanha, Annalena Baerbock, de 40 anos, vai ser a candidata do partido a chanceler nas eleições federais do próximo mês de setembro, numa altura em que os ecologistas somam nas sondagens os seus melhores resultados de sempre.

Tida como tenaz, prática e com visão de detalhe, a especialista em alterações climáticas prometeu perante um pequeno grupo de apoiantes "implementar politicas para toda a sociedade" e descreveu a sua candidatura como "uma proposta, um convite para liderar todo o nosso diverso, próspero, forte país para um bom futuro".

"Queremos abrir um novo caminho, queremos convidar toda a sociedade do nosso país a abrir um novo caminho" afirmou Baerbock, deputada no parlamento alemão (Bundestag) desde 2013 e líder dos Verdes em presidência parilhada com Robert Habeck desde 2018. Nascida em 1980 em Pattersen, Baixa Saxónia, Annalena Baerbock praticou a modalidade de trampolim na juventude, na qual foi medalha de bronze nos campeonatos nacionais. Viveu um ano nos Estados Unidos aos 16 anos, e estudou depois Direito em Hanover, antes de se especializar em Direito Internacional na London School of Economics.

Em 2005, além de se inscrever nos Verdes, Annalenna estagiou no Instituto Britânico de Lei Internacional e Comparativa. Vive atualmente em Potsdam, uma cidade a sudoeste de Berlim, é casada com um conselheiro político com quem tem dois filhos. E, além de falar inglês fluentemente, a candidata a chanceler é tambem considerada uma especialista em politica externa.

É um curriculum desenhado para atrair a confiança dos alemães, ao fim de 16 anos de Angela Merkel, de alguém que emite uma imagem renovada de competência e energia. A serenidade da escolha também contrasta com a atual luta pelo poder em curso entre os conservadores.

Esta parece ser a oportunidade de ouro para os ambientalistas se afirmarem como alternativa segura, numa altura em que a pandemia revelou, aos olhos de muitos eleitores, uma Alemanha fraca e ineficaz.

Os Verdes alemães têm obtido entre 21 e 23 por cento das preferências de voto dos eleitores, seis pontos atrás apenas da CDU da atual chanceler, com boas perspetivas de formar Governo.

As previsões apontam para uma coligação com os Verdes como aliados como solução mais plausível. Mas não se descarta uma aliança tripartida liderada pelos ecologistas, apoiada por social-democratas e liberais.
Unidade e apoio mútuo
É a primeira vez que os Verdes propõem uma candidatura ao mais alto cargo executivo da Alemanha.
Foi Robert Habeck quem anunciou a iniciativa, após semanas de especulação, referindo que a escolha entre ambos se seguiu a diálogo intenso e por vezes difícil.

"Falamos muito sobre esta decisão, há muitos meses e nos últimos dias. Representamos um novo estilo de fazer política, baseado na cooperação", afirmou Habeck. "Não vamos passar rasteiras uns aos outros. Trabalhamos em equipa", acrescentou Habeck, prometendo apoiar a campanha com toda a sua energia, antes de convidar a candidata a subir ao pódio, com as palavras "Annalena, o palco é todo teu".

Baerbock agradeceu-lhe a generosidade e garantiu que o partido irá pôr o país antes das políticas.

A decisão dos ecologistas sobre a candidatura eleitoral deve ainda ser ratificada em congresso a realizar nos próximos dias 12 e 13 de junho, mas é tida como garantida.

A aparente unidade entre os dois líderes e aceitação das bases quanto à decisão, contratasta com o saco de gatos em que se tornou a luta pela candidatura a chanceler na aliança atualmente no poder, CDU-CSU, perante o país inteiro, entre o centrista Armin Laschet, líder da União Democrata Cristã (CDU) e o direitista Markus Soder da CDU-Baviera.

"Inverteram-se os papéis", ironizou o jornal Die Zeit, numa nota sobre a transformação dos tradicionalmente bom comportados e formais conservadores em rebeldes, e dos antigos agitadores em pessoas cordatas e organizadas.

Essa mudança de imagem foi alcançada precisamente com a liderança Habeck/Baerbock, os quais representam a ala mais moderada do partido, criado a partir de um movimento de protesto.
Reformas e moderação
Annalenna foi tida durante algum tempo como sombra do verdadeiro líder mas, em 2019, numa sondagem entre delegados partidários obteve 97 por cento dos apoios, sete pontos à frente de Habeck, um escritor e filósofo. Se este é tido como mais carismático, Baerbock é considerada mais competente e de resposta rápida.

A perceção positiva do partido também tem subido entre os eleitores, e os Verdes estão a surgir como profissionais, organizados e preparados para assumir o poder, em contraste com o partido dividido internamente entre uma fação mais pragmática e outra mas de esquerda, dos tempos de parceiro junior de coligação com os social-democratas de Gerhard Schröder, entre 1998 e 2005.O desafio de Baerbock será manter a boa imagem do partido nas proximas cinco semanas, durante uma terceira vaga da pandemia de Covid-19 e a paciência e a motivação escasseiam.

A reforma do sistema educacional e a modernização da máquina estatal sobretudo ao nível local - onde as máquinas de fax ainda desempenham um papel proeminente, por exemplo - são alguns dos desafios.

"A nossa sociedade é mais progressista do que os seus politicos" referiu Baerbock, para defender que "é tempo dos políticos construírem um futuro" e prometer que irá focar a sua energia em creches e escolas, nos prestadores de cuidados e na funcionalidade digital.

A especialista em alterações climáticas colocou o clima em sexto na sua lista de prioridades e referiu que é necessário incluir todos quando se fala em reformas, num reconhecimento tácito das críticas que acusam os Verdes de seguirem uma agenda ambientalista que exclui as pessoas normais, a quem pede ações irrealistas.

Para se manter dentro da sua agenda, Baerbock defendeu acelerar o fim da dependência do carvão no setor energético. Opõe-se ao aumento dos gastos com a Defesa e quer colocar o limite de 130 km/h nas autoestradas alemãs.

c/ agências
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