AstraZeneca. Cientistas dizem ter encontrado causa de tromboembolismos

Segundo avançam o Wall Street Journal e a Deutsche Welle, investigadores alemães e noruegueses afirmam ter encontrado a causa de casos raros de coagulação no sangue em pessoas que receberam a vacina da AstraZeneca. Os cientistas concluíram que a vacina pode desencadear uma resposta autoimune que leva à formação de coágulos sanguíneos. As conclusões ainda não foram revistas por cientistas independentes, mas a agência de vacinação alemã está atualmente a analisar as investigações.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Massimo Pinca - Reuters

As duas equipas descobriram, independentemente uma da outra, que a vacina em causa pode desencadear uma reação autoimune, fazendo com que o sangue coagule no cérebro, o que poderá explicar os casos de tromboembolismo relatados em vários países europeus nos últimos dias e que levaram à suspensão da vacina.

A investigação alemã partiu de cientistas do hospital universitário de Greifswald, a norte do país, que receberam amostras de seis pacientes com trombose vacinados com a AstraZeneca. Ao analisarem as amostras, os investigadores concluíram que a vacina ativa as plaquetas sanguíneas, ou trombócitos, que consistem em componentes sanguíneas cuja função é a de estancar sangramentos, aglomerando-se e formando coágulos nos vasos sanguíneos.

Tal como explica a Norddeutscher Rundfunk, um canal televisivo público alemão, em alguns pacientes, a inoculação com esta vacina pode, portanto, ativar um mecanismo que causa a formação de coágulos sanguíenos no cérebro.

Os investigadores defendem que um tratamento pode ser atribuído às pessoas que sofrerem de coagulação semelhante, usando um medicamento comum.

Os cientistas sublinham, porém, que este tratamento só será indicado a pacientes que desenvolvam coágulos sanguíneos, não funcionando, por isso, como prevenção.

As conclusões dos investigadores de Greifswald foram partilhadas com vários hospitais europeus, mas ainda não foram publicadas num jornal científico e, por isso, ainda não foram revistas por especialistas independentes. De acordo com a Deutsche Welle, o Paul Ehrlich Institute, a agência de vacinação alemã, está atualmente a analisar o trabalho destes cientistas.
EMA e OMS reiteram segurança e eficácia da vacina
Depois de terem sido reportados cerca de 30 casos de tromboembolismos alegadamente associados à vacinação com a AstraZeneca, vários países, incluindo Portugal, decidiram suspender a vacina por precaução.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Europeia do Medicamento (EMA) sempre mostraram confiança na vacina da Oxford e da AstraZeneca e defenderam que deveria continuar a ser administrada.

Na quinta-feira, a EMA divulgou a conclusão da sua investigação sobre os casos de coágulos sanguíneos e concluiu que a vacina é “segura e eficaz” e que “os seus benefícios para proteger da Covid-19, e os riscos associados em termos de mortes e hospitalizações, compensam todos os riscos".

A diretora-executiva da EMA, Emer Cooke, sublinhou que a vacina não está associada a um aumento dos casos de embolias em geral, mas que os especialistas ainda não têm certezas sobre uma possível ligação entre os coágulos sanguíneos e a administração da vacina nos casos em que isso se verificou. “Ainda não podemos afastar de forma definitiva uma ligação entre estes casos e a vacina”, declarou Cooke, garantindo que irão continuar a investigar uma possível relação causa-efeito entre a vacina da AstraZeneca e os registos de embolias.

Apesar disso, e dada a insistência na segurança e eficácia da vacina, vários países deram um passo atrás e anunciaram na quinta-feira que vão voltar a administrar a vacina da AstraZeneca. Portugal, por exemplo, vai retomar a inoculação com esta vacina já na segunda-feira e Alemanha, França e Itália já voltaram a administrá-la esta sexta-feira.

Mas em alguns países ainda persistem dúvidas sobre a segurança da vacina. A Noruega e a Suécia, que entretanto registaram mais duas mortes por coagulação de sangue, decidiram aguardar pela avaliação das agências do medicamento nacionais.

A Dinamarca, o primeiro país a suspender a vacina, anunciou que vai aguardar mais uma semana antes de tomar uma decisão e a Finlândia decidiu esta sexta-feira suspender a AstraZeneca durante uma semana, enquanto as autoridades investigam dois casos suspeitos de coágulos sanguíneos após a toma da vacina.

Numa altura em que a confiança da população em relação a esta vacina está abalada, a OMS sublinhou esta sexta-feira que os benefícios superam os riscos e apelou aos países que continuem a usar a AstraZeneca.

“Não há dúvida de que a Covid-19 é uma doença mortal e a vacina da Oxford e da AstraZeneca pode evitá-la”, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, relembrando que a própria Covid-19 pode causar coágulos e plaquetas sanguíneas baixas.
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