Atentados de Bombaim mostram graves lacunas em matéria de segurança

Nova Deli, 30 Nov (Lusa) - Os atentados acompanhados de tomadas de reféns que fizeram quase 200 mortos em Bombaim, Índia, colocaram em destaque a incapacidade do país se proteger contra actos de violência de extremistas.

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As forças de segurança indianas acabaram sábado com dois dias e meio de ataques coordenados, desencadeados por uma dúzia islamistas, que visaram numerosos alvos em Bombaim, dois dos quais hotéis de luxo, que albergam essencialmente estrangeiros, e um centro cultural judaico, onde reféns israelitas foram mortos.

"Se não nos debruçarmos sobre isto agora, não nos resta mais do que baixar a cabeça da vergonha", comentou um perito em segurança, Uday Bhaskar.

Acontecimentos anteriores a este ataque em Bombaim levantaram várias críticas face à ausência de uma estratégia coerente de luta contra o terrorismo, ao sub financiamento dos serviços de informação ou à insuficiência dos sistemas de resposta rápida a tais acontecimentos.

No entanto, as críticas traduziram-se em acções pouco concretas.

O Primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, já tinha avisado em Setembro, exactamente após os sangrentos atentados à bomba de Nova Deli (22 mortos), que o seu país não era forte "em matéria de terrorismo".

Em Setembro, o chefe do governo tinha reconhecido a existência "de várias falhas" na recolha de informações, mas jurou que iria tentar remediar a situação.

No entanto, cerca de um mês após os atentados de Nova Deli, explosões no Estado indiano de Assam (nordeste) custaram a vida a 80 pessoas.

Em Bombaim, "a escala e a planificação foram manifestamente diferentes relativamente aos atentados anteriores. É um momento decisivo nos atentados", comentou Rohan Gunaratna, outro perito.

O desafio para as autoridades indianas neste domínio é imenso, e não somente devido à dimensão do território e à complexidade da sociedade.

Há também longa a rebelião separatista muçulmana em Caxemira, região disputada com o Paquistão, as revoltas maoistas em 15 dos 31 Estados indianos e as fricções intercomunitárias que degeneram regularmente em confrontos.

A Índia dispõe de algumas forças especiais altamente treinadas e eficazes, como o destacamento de elite "Gatos Pretos" da Guarda Nacional de Segurança, que neutralizou islamistas na passada quarta-feira à noite em Bombaim.

No entanto, os Gatos Pretos "constituem a única força especializada", lamentou Arun Bhagat, antigo chefe do gabinete indiano da informação.

Para agravar a situação, um recente relatório oficial mostra que o orçamento anual consagrado ao treino das forças de polícia em certos Estados indianos é cerca de 100 rupias (dois dólares) por polícia.

"Todos os serviços encarregues da segurança estão longe de ter percebido que estamos num estado de guerra não declarada", acrescentou Bhagat.

"Devemos confiar nos muçulmanos e obter a sua ajuda" para lutar contra os autores dos ataques, sugeriu Kanwal Pal Singh Gill, ex-chefe da polícia do Estado do Pendjab, para o qual os serviços de informações deveriam recrutar membros desta vasta comunidade na Índia.

"Devemos colocar mais a tónica sobre as acções preventivas", acrescentou, lamentando a ingerência dos políticos, nomeadamente devido ao enorme intervalo de tempo que separa o momento em que as medidas de prevenção são propostas e aquele em que são adoptadas.

Para Joginder Singh, que liderou o gabinete central de inquérito, "a verdade é que não temos uma política ou uma estratégia antiterrorista clara".


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