Atentados fazem mais de 40 mortos na cidade paquistanesa de Lahore

Uma sucessão de explosões provocadas por bombistas suicidas fez 45 mortos e mais de uma centena de feridos em Lahore, no Leste do Paquistão. As suspeitas das autoridades recaem sobre os taliban paquistaneses, que no início da semana ameaçaram disseminar até três mil “mártires” pelo território do país em resposta às operações do Exército nas regiões tribais.

RTP /
Efectivos do Exército e da polícia inspeccionam um veículo militar atingido por uma das explosões em Lahore Rahat Dar, EPA

Quinze a 20 segundos. Foi este o intervalo de tempo que mediou entre as primeiras duas explosões ocorridas esta sexta-feira num dos bairros militares de Lahore, a capital da província do Punjab e centro cultural e político do Paquistão. Dois militantes suicidas accionaram as cargas explosivas que transportavam à passagem de veículos do Exército. Nove das 45 vítimas mortais eram soldados. 

Pouco depois dos ataques, unidades do Exército montavam um cordão de segurança em torno da zona, vedando todos os acessos. Enquanto as tropas ocupavam posições nos telhados dos edifícios adjacentes, um helicóptero de combate sobrevoava o local. Ao início da noite (hora local), uma terceira explosão atingia uma esquadra da polícia na segunda maior cidade do país. Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas.  Cronologia de atentados em Lahore

3 de Março de 2009: uma emboscada à equipa de críquete do Sri Lanka causa seis mortes.

30 de Março de 2009: um grupo de homens armados ataca uma academia da polícia paquistanesa; a acção faz oito vítimas mortais.

27 de Maio de 2009: a explosão de viaturas armadilhadas nas imediações de edifícios da polícia mata pelo menos 23 pessoas.

15 de Outubro de 2009: quarenta pessoas morrem numa vaga de ataques contra as forças de segurança.

7 de Dezembro de 2009: a explosão de uma bomba num mercado de Lahore provoca 48 mortos.

8 de Março de 2010: treze pessoas morrem durante um ataque da guerrilha taliban contra um edifício utilizado pelos serviços secretos do Paquistão.

12 de Março de 2010: uma sequência de atentados suicidas em bairros militares da capital do Punjab mata pelo menos 45 pessoas.

Mohammad Nadeem, uma testemunha citada pela agência France Presse, descreveu a devastação causada pelos primeiros ataques: "A segunda explosão teve lugar muito perto de um veículo militar. Senti um perigo real e comecei a correr. Havia cenas de destruição em lojas e restaurantes próximos. Havia cadeiras partidas, mesas e outros objectos espalhados pelo chão".

Três mil bombistas suicidas

A última vaga de acções terroristas em Lahore atribuídas à guerrilha taliban começou na segunda-feira com uma ataque a um edifício utilizado pelos serviços secretos paquistaneses. Morreram 13 pessoas. Após o atentado, os rebeldes islamistas ameaçaram responder com três mil acções suicidas às operações do Exército e aos bombardeamentos de aviões não tripulados dos Estados Unidos em regiões tribais encostadas à fronteira com o Afeganistão.

As tropas paquistanesas reforçaram nas últimas semanas as operações contra as chefias da guerrilha islamista. As movimentações do Exército levaram à captura de vários líderes dos rebeldes, entre os quais Abdul Ghani Baradar, apontado como comandante militar dos taliban afegãos - o mullah procurava refúgio em Carachi, no Sul do Paquistão.

A sequência de atentados cometidos em Lahore coincide com um novo período de agitação nos corredores do poder em Islamabad. A braços com um dos mais baixos índices de popularidade na história política do país, o Presidente Asif Ali Zardari, viúvo da antiga primeira-ministra Benazir Bhutto, assassinada em Dezembro de 2007, tem vindo a resistir aos apelos da Oposição no sentido de uma entrega ao Governo dos poderes mais importantes do Chefe de Estado.

Valor estratégico

O Paquistão tem a capital em Islamabad, mas é em Lahore, 260 quilómetros a sudeste, que se situa o núcleo nevrálgico da vida política do país. Na Assembleia Nacional, 183 dos 342 deputados são eleitos pelo Punjab. O Governo provincial é partilhado pelo Partido do Povo do Paquistão (PPP), de Asif Ali Zardari, e pela Liga Muçulmana do Paquistão - Nawaz (PML-N), do antigo primeiro-ministro Nawaz Sharif. Algo que não acontece no plano federal. PPP e PML-N propõem-se desde já travar um aceso duelo nas próximas eleições gerais, marcadas para 2013. O derrube da administração de Zardari é um objectivo declarado dos grupos islamistas.

Por outro lado, o Presidente paquistanês continua a ser objecto de uma forte pressão de Washington para a abertura de novas frentes de combate sobre a linha de fronteira com o vizinho Afeganistão, o que não deixará de desgastar ainda mais as Forças Armadas de Islamabad. As ofensivas do Exército produziram resultados em bastiões da guerrilha na província do Waziristão do Sul. Contudo, os rebeldes têm conseguido reagrupar-se.

"A rede de militantes não está substancial ou razoavelmente danificada e eles continuam a ser capazes de atacar", assinala o analista Khadim Hussain, citado pela agência Reuters.

 

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