Mundo
Ativista chinês Liu Xiaobo em estado crítico
O ativista chinês laureado com o Nobel da Paz em 2010 foi recentemente transferido da prisão para um hospital de Shenyang, em Liaoning, depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro no fígado em fase terminal. A União Europeia, o Reino Unido e os Estados Unidos pedem à China a libertação efetiva do ativista, que já demonstrou vontade de “morrer no Ocidente”.
Com um estado de saúde cada vez mais debilitado, cresce a pressão internacional sobre Pequim para a libertação total do ativista Liu Xiaobo, de 61 anos, galardoado com o Nobel da Paz em 2010.
Em comunicado, o hospital de Shenyang informava esta segunda-feira sobre o “estado crítico” do ativista, com destaque para a deterioração do estado do estômago, a crescente obstrução intestinal e a queda de pressão arterial, fatores que elevam os riscos para o transporte de Liu em segurança.
No domingo, dois médicos de nacionalidade alemã e norte-americana confirmavam que o estado de saúde do ativista lhe permitia viajar para o estrangeiro para receber tratamentos, vontade expressa por Liu e familiares durante o último mês, em que o estado de saúde se agravou.
Os dois especialistas, autorizados por Pequim a analisar o estado de saúde de Liu, sublinhavam no entanto que a viagem teria de acontecer “o mais rápido possível”.
Contudo, o comunicado emitido esta manhã pelo hospital situado na província de Liaoning refere ainda que Liu está com complicações renais na sequência do cancro no fígado, o que o impede de receber tratamentos com radioterapia disponibilizados no estrangeiro, como haviam aconselhado os dois médicos estrangeiros.
Na passada sexta-feira, o hospital onde está internado o ativista informou ter suspendido o uso de medicamentos para o tratamento do cancro de que padece Liu, no sentido de evitar sobrecarregar o fígado já muito debilitado.
Ocidente pressiona China
Antes de ser conhecida a atualização do estado de saúde de Liu esta manhã, o Reino Unido e União Europeia apelavam ao levantamento completo das restrições aplicadas a Liu e à mulher.
O jornal britânico The Guardian cita um porta-voz da Embaixada britânica em Pequim que sublinha as “preocupações sérias com o tratamento de Liu Xiaobo pelas autoridades chinesas”.
“Continuamos a apelar às autoridades chinesas que garantam a Liu Xiaobo o acesso aos tratamentos médicos escolhidos por si, num local à sua escolha, e o levantamento de todas as restrições que o limitam a ele e à esposa, Liu Xia”, refere ainda o porta-voz.
Antes, Federica Mogherini, Alta Representante da União Europeia para a Política Externa, emitiu um comunicado onde afirmava esperar que a China removesse “todas as limitações de movimento impostas à mulher e à família de Liu”. Liu Xia está encontra-se em prisão domiciliária, à semelhança de outros membros da família do ativista.
O mesmo comunicado pede que as autoridades do país que olhem às razões humanitárias e “que conceda imediatamente a Liu a possibilidade de receber assistência médica num local escolhido por si, seja na China ou no exterior”.
Médicos aprovam transferência
Os apelos às autoridades chinesas chegaram um dia depois da visita autorizada de dois médicos estrangeiros ao hospital. Markus Buechler e Joseph Herman, dois oncologistas oriundos da Alemanha e dos Estados Unidos, analisaram o estado de saúde de Liu Xiaobo e concluíram que o ativista estaria apto a viajar para o estrangeiro.
“Apesar de existir sempre riscos na deslocação de qualquer paciente, os dois médicos acreditam que Liu pode ser transportado de forma segura, com cuidados e evacuação médica apropriados. No entanto, esta deslocação teria de acontecer o mais rápido possível”, referia o comunicado de domingo.
Os dois médicos assinalaram ainda que o ativista tem recebido cuidados médicos de qualidade e confirmam o diagnóstico dos peritos chineses.
Ressalvam, no entanto, a importância dos cuidados paliativos e que outras opções como a radioterapia poderiam ser usadas para melhorar a qualidade de vida de Liu na fase terminal da doença, uma opção entretanto colocada de parte pelo hospital.
“Prefere morrer no Ocidente”
No final de junho, o Nobel da Paz fez saber através de amigos e família que pretendia ser tratado no estrangeiro durante a fase terminal da doença, fazendo-se acompanhar pela mulher.
“Liu Xiaobo e a mulher querem desesperadamente abandonar a China para receber tratamento médico noutro país. Xiaobo já disse que prefere morrer num país ocidental”, garantia Liao Yiwu, um ativista chinês exilado na Alemanha. Na sequência deste pedido, os Estados Unidos apelaram ao presidente Xi Jinping a libertação de Liu e dos familiares.
Jared Genser, um advogado norte-americano que representa o ativista chinês, confirma que este demonstrou vontade de ser transferido para os Estados Unidos ou para a Alemanha, onde vários hospitais já garantiram estar disponíveis para acolher o Nobel da Paz. Segundo o advogado, os tratamentos disponíveis nestes países poderiam dar mais semanas de vida ao ativista.
Na altura, o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros avisou os países ocidentais para que não usassem um caso individual como o de Liu de forma a “interferir nos assuntos internos da China”.
“Incitamento à subversão”
Liu Xiaobo tornou-se ativista pró-democracia em 1989, marcado pelo levantamento e sucessivo massacre na praça de Tiananmen. Antigo professor universitário, vivia nos Estados Unidos na altura dos protestos, mas voltou para a China a fim de participar no levantamento contra o regime comunista.
Esteve preso em várias ocasiões e foi enviado para um campo de trabalho durante três anos. Desde os anos 90 que ficou impedido de dar aulas na universidade e as autoridades chinesas proíbem desde então a venda dos seus livros onde as críticas a Pequim são frequentes.
Em 2008, Liu Xiaobo integrou um grupo de 300 ativistas e intelectuais, que redigiu a Carta 08, publicada a 10 de dezembro de 2008, no 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Foi um dos principais intervenientes na elaboração deste documento, que pedia na altura reformas democráticas, incluindo a adoção de uma nova Constituição e do sistema de multipartidarismo.
Dois dias depois de este manifesto ter sido publicado na internet, Liu Xiaobo foi encontrado em casa pela polícia chinesa e imediatamente detido. Um ano mais tarde, em 2009, Liu foi condenado a 11 anos de prisão por “incitamento à subversão do poder”.
Em outubro de 2010, meses depois de conhecer a pesada sentença, o ativista chinês foi laureado com o Nobel da Paz, uma distinção que enfureceu as autoridades chinesas e esfriou as relações entre a China e a Noruega, país que é a sede para a atribuição da distinção.

Informado pelos guardas prisionais que recebera o Nobel da Paz, Liu Xiaobo dedicou o prémio “às vítimas do massacre de Tiananmen”. Foi impedido de participar na cerimónia de entrega do Nobel, Liu foi representado por uma cadeira vazia, mais um gesto visto como uma afronta ao Governo chinês.
Em comunicado, o hospital de Shenyang informava esta segunda-feira sobre o “estado crítico” do ativista, com destaque para a deterioração do estado do estômago, a crescente obstrução intestinal e a queda de pressão arterial, fatores que elevam os riscos para o transporte de Liu em segurança.
No domingo, dois médicos de nacionalidade alemã e norte-americana confirmavam que o estado de saúde do ativista lhe permitia viajar para o estrangeiro para receber tratamentos, vontade expressa por Liu e familiares durante o último mês, em que o estado de saúde se agravou.
Os dois especialistas, autorizados por Pequim a analisar o estado de saúde de Liu, sublinhavam no entanto que a viagem teria de acontecer “o mais rápido possível”.
Contudo, o comunicado emitido esta manhã pelo hospital situado na província de Liaoning refere ainda que Liu está com complicações renais na sequência do cancro no fígado, o que o impede de receber tratamentos com radioterapia disponibilizados no estrangeiro, como haviam aconselhado os dois médicos estrangeiros.
Na passada sexta-feira, o hospital onde está internado o ativista informou ter suspendido o uso de medicamentos para o tratamento do cancro de que padece Liu, no sentido de evitar sobrecarregar o fígado já muito debilitado.
Ocidente pressiona China
Antes de ser conhecida a atualização do estado de saúde de Liu esta manhã, o Reino Unido e União Europeia apelavam ao levantamento completo das restrições aplicadas a Liu e à mulher.
O jornal britânico The Guardian cita um porta-voz da Embaixada britânica em Pequim que sublinha as “preocupações sérias com o tratamento de Liu Xiaobo pelas autoridades chinesas”.
“Continuamos a apelar às autoridades chinesas que garantam a Liu Xiaobo o acesso aos tratamentos médicos escolhidos por si, num local à sua escolha, e o levantamento de todas as restrições que o limitam a ele e à esposa, Liu Xia”, refere ainda o porta-voz.
Antes, Federica Mogherini, Alta Representante da União Europeia para a Política Externa, emitiu um comunicado onde afirmava esperar que a China removesse “todas as limitações de movimento impostas à mulher e à família de Liu”. Liu Xia está encontra-se em prisão domiciliária, à semelhança de outros membros da família do ativista.
O mesmo comunicado pede que as autoridades do país que olhem às razões humanitárias e “que conceda imediatamente a Liu a possibilidade de receber assistência médica num local escolhido por si, seja na China ou no exterior”.
Médicos aprovam transferência
Os apelos às autoridades chinesas chegaram um dia depois da visita autorizada de dois médicos estrangeiros ao hospital. Markus Buechler e Joseph Herman, dois oncologistas oriundos da Alemanha e dos Estados Unidos, analisaram o estado de saúde de Liu Xiaobo e concluíram que o ativista estaria apto a viajar para o estrangeiro.
“Apesar de existir sempre riscos na deslocação de qualquer paciente, os dois médicos acreditam que Liu pode ser transportado de forma segura, com cuidados e evacuação médica apropriados. No entanto, esta deslocação teria de acontecer o mais rápido possível”, referia o comunicado de domingo.
Os dois médicos assinalaram ainda que o ativista tem recebido cuidados médicos de qualidade e confirmam o diagnóstico dos peritos chineses.
Ressalvam, no entanto, a importância dos cuidados paliativos e que outras opções como a radioterapia poderiam ser usadas para melhorar a qualidade de vida de Liu na fase terminal da doença, uma opção entretanto colocada de parte pelo hospital.
“Prefere morrer no Ocidente”
No final de junho, o Nobel da Paz fez saber através de amigos e família que pretendia ser tratado no estrangeiro durante a fase terminal da doença, fazendo-se acompanhar pela mulher.
“Liu Xiaobo e a mulher querem desesperadamente abandonar a China para receber tratamento médico noutro país. Xiaobo já disse que prefere morrer num país ocidental”, garantia Liao Yiwu, um ativista chinês exilado na Alemanha. Na sequência deste pedido, os Estados Unidos apelaram ao presidente Xi Jinping a libertação de Liu e dos familiares.
Jared Genser, um advogado norte-americano que representa o ativista chinês, confirma que este demonstrou vontade de ser transferido para os Estados Unidos ou para a Alemanha, onde vários hospitais já garantiram estar disponíveis para acolher o Nobel da Paz. Segundo o advogado, os tratamentos disponíveis nestes países poderiam dar mais semanas de vida ao ativista.
Na altura, o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros avisou os países ocidentais para que não usassem um caso individual como o de Liu de forma a “interferir nos assuntos internos da China”.
“Incitamento à subversão”
Liu Xiaobo tornou-se ativista pró-democracia em 1989, marcado pelo levantamento e sucessivo massacre na praça de Tiananmen. Antigo professor universitário, vivia nos Estados Unidos na altura dos protestos, mas voltou para a China a fim de participar no levantamento contra o regime comunista.
Esteve preso em várias ocasiões e foi enviado para um campo de trabalho durante três anos. Desde os anos 90 que ficou impedido de dar aulas na universidade e as autoridades chinesas proíbem desde então a venda dos seus livros onde as críticas a Pequim são frequentes.
Em 2008, Liu Xiaobo integrou um grupo de 300 ativistas e intelectuais, que redigiu a Carta 08, publicada a 10 de dezembro de 2008, no 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Foi um dos principais intervenientes na elaboração deste documento, que pedia na altura reformas democráticas, incluindo a adoção de uma nova Constituição e do sistema de multipartidarismo.
Dois dias depois de este manifesto ter sido publicado na internet, Liu Xiaobo foi encontrado em casa pela polícia chinesa e imediatamente detido. Um ano mais tarde, em 2009, Liu foi condenado a 11 anos de prisão por “incitamento à subversão do poder”.
Em outubro de 2010, meses depois de conhecer a pesada sentença, o ativista chinês foi laureado com o Nobel da Paz, uma distinção que enfureceu as autoridades chinesas e esfriou as relações entre a China e a Noruega, país que é a sede para a atribuição da distinção.
Informado pelos guardas prisionais que recebera o Nobel da Paz, Liu Xiaobo dedicou o prémio “às vítimas do massacre de Tiananmen”. Foi impedido de participar na cerimónia de entrega do Nobel, Liu foi representado por uma cadeira vazia, mais um gesto visto como uma afronta ao Governo chinês.