Ativista de Hong Kong condenada por vigília de Tiananmen promete continuar luta na prisão
Uma ativista condenada na semana passada em Hong Kong por ter organizado vigílias anuais em memória de Tiananmen garantiu hoje perante um tribunal que continuará a sua luta na prisão.
No dia 21 de agosto, Chow Hang-tung, advogada de 41 anos, foi condenada ao lado de Lee Cheuk-yan, de 69 anos, por "incitamento à subversão".
Os dois dirigiam a Aliança de Hong Kong, um grupo já dissolvido que organizava todos os anos vigílias no Parque Victoria, no coração do centro financeiro do território, para recordar publicamente a repressão pelo exército chinês em Pequim dos protestos de junho de 1989.
Hong Kong e Macau foram durante muito tempo os únicos locais em território chinês onde a vigília era possível.
Os juízes declararam-nos culpados de ter "incitado outras pessoas a organizar, planear, cometer ou participar em ações por meios ilegais com vista a derrubar o poder do Estado", segundo um comunicado de imprensa.
A ONU, organizações de defesa dos direitos humanos e vários Estados denunciaram este veredicto como um atentado à liberdade de expressão.
Três juízes aprovados pelo governo decidiram que o trio incentivou intencionalmente os apoiantes da Aliança a esperar pelo momento certo para concretizar o "fim da ditadura de partido único" --- uma das principais reivindicações do grupo --- por meios ilegais.
Os juízes disseram que o apelo continha a noção de derrubar ou minar a liderança do Partido Comunista, acrescentando que os arguidos mantêm inimizade contra o partido e não acreditavam genuinamente que as suas palavras e ações não violariam a lei de segurança.
Erik Shum, advogado que representa Lee e Ho, disse aos juízes hoje que o sistema fundamental da China não mudou devido ao trabalho de divulgação dos membros da Aliança, que o Partido Comunista permanece estável e cumpre as suas funções, e que o trabalho dos arguidos não envolveu violência.
Hoje, durante uma audiência de atenuação de pena, Chow Hang-tung, que assumiu a sua própria defesa, declarou ao tribunal que rejeitava a condenação e que tencionava continuar a lutar para obter reparação pela repressão de Tiananmen.
"Se isso significa que continuarei a ser considerada uma criminosa aos olhos da lei (...) então prefiro ser uma criminosa do que uma hipócrita", declarou, e "mesmo que o tribunal nos possa prender (...), não pode prender os apelos à democracia".
"As altas muralhas da prisão apenas servirão como um megafone ainda mais potente" para transmitir a sua mensagem, acrescentou, considerando que este julgamento contribuiu para divulgar a mensagem do seu grupo pelo mundo inteiro.
"Nesse caso, não deveria agradecer-nos?", indicou num tom seco o juiz Alex Lee.
"Sim, muito obrigada ao tribunal", retorquiu ela, provocando alguns risos na sala de audiências.
O advogado de Lee Cheuk-yan, Erik Shum, pediu por sua vez uma pena situada no limite mínimo, ou seja, cinco anos ou menos, explicando que a Aliança recorria a "meios pacíficos e não violentos".
Um terceiro arguido, Albert Ho, de 74 anos, tinha-se declarado culpado em janeiro, o que geralmente abre caminho a uma redução de pena, e compareceu hoje perante o tribunal.
As penas serão conhecidas "dentro de duas semanas", declarou Alex Lee.
Em 04 de junho de 1989, tanques militares avançaram para a Praça de Tiananmen, no centro de Pequim, e as tropas abriram fogo para acabar com protestos pró-democracia liderados por estudantes.
O evento tornou-se um tabu político na China continental, mas as vigílias em Hong Kong e Macau ajudaram a manter as memórias vivas sob a maior liberdade concedida pelo princípio de governação "um país, dois sistemas".
A vigília organizada pela Aliança foi proibida em 2020, durante a pandemia de covid-19. Após o levantamento das restrições, o antigo local da vigília passou a ser ocupado por um arraial patriótico todos os anos.