Atribuição do Prémio Sakharov a dissidente chinês dificulta agenda de Bruxelas

O presidente da Comissão Europeia lançou esta quinta-feira, em Pequim, o mote do Encontro Ásia-Europa (ASEM), exortando o poder político chinês e demais governos da região a tomarem lugar na frente do combate à crise financeira. Mas a agenda de Durão Barroso está em risco de esbarrar no mal-estar experimentado por Pequim após a atribuição do Prémio Sakharov ao dissidente chinês Hu Jia.

Carlos Santos Neves, RTP /
“A ideia é muito simples: vamos ao fundo juntos ou nadamos juntos” Christophe Karaba, EPA

Na véspera da sétima cimeira ASEM, que juntará em Pequim 43 chefes de Estado e de governo dos dois continentes, o presidente do Executivo comunitário retomou a ideia da criação de uma “nova ordem financeira internacional”. Desta feita, adicionou à fórmula um apelo direccionado aos governos asiáticos, com a China à cabeça.

“Precisamos da Ásia e, particularmente, de países como a China, a Índia e o Japão”, lançou Durão Barroso durante uma conferência de imprensa em Pequim.

“Ninguém na Europa ou na Ásia pode pensar, seriamente, que está protegido. Vivemos momentos sem precedentes e precisamos de uma coordenação global sem precedentes”, insistiu.

A estratégia do presidente da Comissão Europeia para lidar com o regime chinês passa por defender a viva voz a ampliação do papel a desempenhar por Pequim nos fóruns financeiros internacionais e, em simultâneo, exigir mais empenho no esforço “coordenado” da resposta ao abalo global.

“A ideia é muito simples: vamos ao fundo juntos ou nadamos juntos”, sintetizou Durão.

China chamada a mostrar “sentido de responsabilidade”

Pequim conseguiu alargar, este ano, a sua capacidade de voto no Fundo Monetário Internacional. Contudo, as autoridades do país continuam a queixar-se da discrepância entre o estatuto de quarta maior economia do Mundo e o peso efectivo que é atribuído ao país na arena internacional.

Na antecâmara da cimeira ASEM, Durão Barroso ofereceu o apoio de Bruxelas às aspirações globais do gigante asiático: “Pensamos que a China poderia e deveria ter mais voz nas instituições financeiras internacionais”.

“Espero que a China dê um contributo importante para a solução desta crise financeira. Penso que a China tem uma grande oportunidade de mostrar um sentido de responsabilidade”, acrescentou.

China pondera participação na cimeira do G20

A Administração Bush marcou para 15 de Novembro, em Washington, uma cimeira do G20 devotada à discussão de soluções de reforma dos sistemas financeiros internacionais. Entre as duas dezenas de países industrializados estão economias emergentes como Índia e Brasil. Mas é sobre o colosso chinês que recaem as maiores atenções.

Pequim já veio saudar a ideia da cimeira, mas ainda não confirmou a sua participação.

“A China considera que a comunidade internacional deve aumentar a sua cooperação através de consultas para enfrentar, em conjunto, a actual crise financeira e salvaguardar a estabilidade do sistema económico e financeiro mundial”, declarou o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Qin Gang.

“A China atribui importância à proposta da cimeira financeira internacional e vai estudá-la favoravelmente”, acrescentou o porta-voz.

Direitos Humanos

Lançado há 12 anos, o Encontro Ásia Europa realiza-se a cada dois anos e reúne os líderes dos 27 países-membros da União Europeia, dos dez países-membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e de outros seis países asiáticos, entre os quais a China, a Índia e o Japão.

Um dos objectivos fundadores da cimeira é a promoção dos laços diplomáticos entre os dois continentes, responsáveis por dois terços das trocas comerciais e 60 por cento da produção industrial no plano internacional.

É precisamente sobre esse objectivo que impende a sombra do mais importante prémio de Direitos Humanos do Parlamento Europeu. O Prémio Sakharov distingue este ano o dissidente chinês Hu Jia.

Hu Jia foi condenado a três anos e meio de prisão depois de ter participado via teleconferência, em Novembro de 2007, numa reunião do Parlamento Europeu sobre Direitos Humanos. A sentença, que pune o delito de “tentativa de subversão”, foi-lhe atribuída em Abril deste ano ao cabo de uma única sessão de julgamento.

“Ao atribuir o Prémio Sakharov a Hu Jia, o Parlamento Europeu está a enviar um sinal de claro apoio a todos aqueles que defendem os Direitos Humanos na China”, afirmou em Estrasburgo o presidente do órgão, Hans-Gert Pöttering.

Pouco antes do anúncio do Parlamento Europeu, o Governo chinês antecipava os seus protestos com uma condenação da “interferência nos assuntos internos e na soberania judicial da China”.

Os avisos de Pequim contra a distinção de Hu Jia remontam, de resto, a 16 de Outubro. Numa carta ao presidente do Parlamento Europeu, revelada pela agência France Presse, o embaixador da China na União Europeia advertia que a atribuição do Prémio Sakharov ao dissidente iria “deteriorar seriamente as relações entre a China e a UE”.
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