Ausência de debate e "dossier" prejudicaram Lula da Silva
A ausência no último debate televisivo e o escândalo da compra de um dossier, na recta final da campanha, evitaram a reeleição de Lula da Silva logo na primeira volta, admitiram hoje aliados do Presidente.
José Alencar, candidato a vice-Presidente ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, admitiu que a ausência no debate realizado pela Rede Globo de Televisão, na última quinta-feira, retirou ao actual chefe de Estado "votos preciosos".
"Sabíamos que a ausência teria um impacto eleitoral, mas não imaginávamos que iria influenciar tanto assim a ponto de levar a decisão para uma segunda volta", afirmou José Alencar, actual vice- Presidente da República, em declarações à imprensa brasileira.
A ausência transformou Lula da Silva no alvo dos seus adversários, durante o debate televisivo, que teve a participação dos candidatos Geraldo Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque.
"Lula tinha a obrigação de descer do trono de corrupção, de arrogância, de cobardia política e estar aqui para responder às perguntas", disse no debate Heloísa Helena, candidata pelo pequeno PSOL, de orientação marxista, uma dissidência do Partido dos Trabalhadores (PT).
O candidato derrotado do PT ao Governo de São Paulo e aliado de Lula da Silva, o senador Aloísio Mercadante, reconheceu hoje que o envolvimento de membros do partido e de auxiliares próximos de Lula da Silva no mais recente escândalo de corrupção também contribuiu para que o Presidente não fosse reeleito na primeira volta.
"O envolvimento de membros do PT no lamentável episódio da compra de um suposto dossier prejudicou muito a campanha (de Lula da Silva)", disse Mercadante, que foi derrotado por José Serra na eleição para governador de São Paulo, aliado de Geraldo Alckmin, que disputará a segunda volta com Lula da Silva.
A 15 de Setembro, a Polícia Federal brasileira deteve membros do PT com 1,7 milhões de reais (607 mil euros) que seriam utilizados para a compra de um dossier contra adversários de Lula da Silva.
A Polícia ainda não determinou a origem dos recursos apreendidos, o que levantou suspeitas dos adversários de Lula de que se trata de dinheiro de um saco azul do PT.
Pela legislação brasileira, o candidato é responsável pela origem do dinheiro utilizado na sua campanha eleitoral e pode ver o seu mandato ser anulado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) caso seja detectada alguma ilegalidade.
Lula da Silva terá que responder perante o TSE sobre os gastos efectuados na sua campanha e sobretudo sobre os recursos utilizados para a compra do dossier.
Investigações policiais indicaram também o envolvimento do segurança pessoal de Lula da Silva, Freud Godoy, e de membros do comité de campanha do Presidente à reeleição neste recente escândalo.
Na última sexta-feira, os grandes jornais brasileiros divulgaram na primeira página uma fotografia do dinheiro - reais e dólares norte-americanos - apreendido pela polícia com os membros do PT.