Autoridade Palestiniana espera que EUA autorizem presença na sessão anual da ONU
A chefe da diplomacia da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) espera que os Estados Unidos não voltem a rejeitar a participação de uma delegação de Ramallah na assembleia-geral da organização, que começa em 22 de setembro em Nova Iorque.
"Até ao momento, ainda não ouvi dizer que a delegação palestiniana tenha recebido autorização", disse Varsen Aghabekian em entrevista à agência Lusa, realizada na tarde de terça-feira, durante uma visita a Lisboa, ignorando o destino da sua etapa seguinte.
Na assembleia-geral do ano passado, as autoridades de Washington negaram a concessão do visto de entrada ao Presidente da ANP, Mahmoud Abbas, apesar de a sessão de alto nível ter sido marcada pelo reconhecimento de uma dezena de países ocidentais, incluindo Portugal, do Estado Palestiniano, em plena guerra na Faixa de Gaza e aumento da violência na Cisjordânia ocupada.
"Espero que nos seja permitido estar presentes, porque somos uma parte interessada fundamental e precisamos que a nossa voz seja ouvida. Já basta que as pessoas planeiem por nós, pensem por nós e decidam por nós sem nos consultar", declarou a ministra palestiniana.
Em declarações à imprensa em Nova Iorque, Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, disse na terça-feira que a organização tem estado em contacto com as autoridades norte-americanas "a propósito das questões levantadas, principalmente pela Federação Russa, pelas delegações palestinianas e outros", sem fornecer mais detalhes.
"Este é um diálogo contínuo que mantemos com o país de acolhimento, incentivando-o a cumprir as suas obrigações", disse o porta-voz de António Guterres, apenas acrescentando: "Como sabemos, às vezes estas coisas acontecem no último minuto, e esperamos que tudo se resolva".
Na sessão de 2025, Abbas discursou remotamente por vídeoconferência e acusou Israel de executar, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, "um crime de guerra e um crime contra a humanidade que ficará nos livros de História como um dos capítulos mais horríveis da trágica história da Humanidade dos séculos XX e XXI".
A intervenção do líder da ANP ocorreu após França e Arábia terem organizado uma conferência à margem da assembleia-geral, que culminou na Declaração de Nova Iorque sobre solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniana, subscrita por 142 países.
Na entrevista à Lusa, a ministra dos Negócios Estrangeiros palestiniana recordou as obrigações dos Estados Unidos sobre a emissão de vistos na qualidade de país anfitrião da assembleia-geral e espera que, "nos próximos dias" as autorizações sejam concedidas.
"Se assim não for, será mais um erro como no ano passado. Mas, de uma forma ou de outra, tenho a certeza de que a voz palestiniana será ouvida", afirmou, mesmo que a delegação palestiniana não esteja pessoalmente na sala.
Varsen Aghabekian mantém "grandes expectativas em relação a esta reunião" e espera que os representantes palestinianos possam fazer "um balanço do que aconteceu desde o ano passado até hoje" e quais as medidas específicas a tomar sobre a solução de dois Estados.
Desde a sessão anual de 2025, Israel e o grupo islamita palestiniano Hamas acordaram um cessar-fogo na Faixa de Gaza, embora os ataques israelitas prossigam e as partes não tenham avançado para a segunda fase do acordo, e eclodiu a guerra no Golfo Pérsico.
No seguimento da ofensiva israelo-palestiniana contra o Irão, em 28 de fevereiro, numa guerra que se alastrou a outros países da região e atingiu a economia mundial, Varsen Aghabekian lamenta que o novo conflito esteja "a desviar a atenção" do problema palestiniano.
"Se olharmos para as notícias, nos primeiros meses fomos marginalizados, e com razão, porque havia uma situação mais grave que abrange vários países. Por isso, gostaríamos que essa questão [Irão] fosse resolvida, para que toda a atenção volte a centrar-se na questão palestiniana", observou.
Como reforço deste apelo, a chefe da diplomacia da ANP considera que, "independentemente do que se faça noutros locais", o conflito israelo-palestiniano é "central" para a estabilidade da região.
"Se se quer paz e segurança em Israel, na Palestina, na região e para além dela, é preciso ir ao cerne da questão, que é o problema palestiniano, ou seja, a ocupação israelita. Se resolvermos isto, os outros problemas também ficarão resolvidos", sustentou.