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Autoridades contabilizam mais de mil mortos nas enxurradas do Nepal e Tibete
No Nepal, as equipas de socorro travam uma batalha contra o tempo e enfrentam condições extremas para chegar às centenas de trabalhadores que poderão estar presos em túneis de projetos hidroelétricos atingidos pela lama e pelos escombros.
A autoridade nepalesa de gestão de desastres contabilizava, esta terça-feira, 987 mortos e cerca de 3.916 desaparecidos. Mas do lado chinês, as autoridades apontavam para 16 mortos e 546 desaparecidos. Somados, já ultrapassam os 1000 mortos e há ainda centenas de pessoas cujo destino permanece desconhecido.
Ao longo do rio Trishuli, centenas de trabalhadores de projetos hidroelétricos poderão estar presos em túneis inundados por lama e detritos.
A Reuters fala em pelo menos 639 pessoas ainda presas em várias centrais, enquanto outras fontes referem cerca de 900 trabalhadores desaparecidos em 12 projetos.
A diferença entre os números resulta das sucessivas atualizações e da dificuldade em saber ao certo quantas pessoas estavam em cada local quando a água chegou.
O resgate é particularmente difícil porque, em alguns casos, os próprios túneis desapareceram sob os escombros.
Arnold Dix, engenheiro australiano e especialista em operações subterrâneas, tem acompanhado os trabalhos à distância os trabalhos.
Ao canal público britânico, BBC, descreveu o terreno como uma "paisagem lunar": a referência dos túneis desapareceu e há blocos de pedra "maiores que casas".
Para chegar aos trabalhadores, os socorristas precisam de localizar novamente as entradas, retirar toneladas de lama e, em alguns pontos, recorrer a detonações de rocha.
As autoridades referem que há uma ironia associada aos resgates. Os mesmos túneis que agora dificultam o resgate podem também ter sido o que protegeu algumas pessoas da força da água.
Arnold Dix acredita que o ambiente subterrâneo poderá ter oferecido alguma proteção contra o dilúvio e, por isso, ainda mantém esperança de encontrar sobreviventes.
Famílias vivem entre a esperança e o relógio
"Quanto mais tempo demorar, mais a nossa esperança se esvai", disse Jiban Khadka ao jornal nepalês Kantipur, numa frase que resume o desespero de quem espera notícias. Sita Pandey, cujo marido trabalhava numa das instalações, diz manter "50% de esperança" de que ainda esteja vivo porque existe um sistema de oxigénio no interior.
E a dimensão da tragédia tornou-se ainda mais visível quando os corpos começaram a chegar a Chitwan.
Quase 300 cadáveres foram arrastados pelo sistema fluvial para as margens do distrito. Apenas uma pequena parte dos corpos recuperados tinha sido identificada. Segundo a BBC Nepali, que cita fonte do Ministério da saúde, até ao momento, apenas 4% dos 900 corpos encontrados foram identificados.
Sem espaço suficiente para acondicionar os cadáveres, as autoridades tiveram de recorrer a sepultamentos temporários enquanto as equipas médicas fazem a recolhe de amostras de ADN.
A China anunciou entretanto o envio de especialistas em identificação genética, drones e sistemas de purificação de água. O mesmo aconteceu com países como a Índia, a Coreia do Sul, a Austrália, os Estados Unidos, o Japão, Singapura, países da União Europeia e os Emirados Árabes Unidos, contribuíram com a resposta.
A ajuda estrangeira, contudo, chegou depois de o Nepal ter inicialmente recusado uma participação internacional generalizada nas operações de busca e salvamento, preferindo apoio especializado e equipamento tecnológico.
As autoridades nepalesas e chinesas apontam para a instabilidade dos glaciares e para os efeitos de longo prazo do aquecimento global.
O desastre começou depois de uma enorme massa glaciar se ter desprendido nos Himalaias, desencadeando uma onda de água, gelo, rochas e lama que desceu pelos vales.
De acordo com várias agências noticiosas, há um paradoxo evidente.
O Nepal construiu grande parte da sua estratégia energética sobre a água que desce dessas montanhas.
Desde o início do século, o país assistiu a um crescimento de projetos hidroelétrico, aproveitando os rios dos Himalaias para produzir eletricidade e vender energia à Índia. Para isso, foram construídas dezenas de projetos que dependem de extensas redes de túneis escavados nas montanhas. As autoridades estimam que mais de 11 destes projetos foram destruídos pela enxurrada.