Autoridades contabilizam mais de mil mortos nas enxurradas do Nepal e Tibete

Autoridades contabilizam mais de mil mortos nas enxurradas do Nepal e Tibete

No Nepal, as equipas de socorro travam uma batalha contra o tempo e enfrentam condições extremas para chegar às centenas de trabalhadores que poderão estar presos em túneis de projetos hidroelétricos atingidos pela lama e pelos escombros.

Filipe Alexandre Gonçalves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Sem espaço nos congeladores, as autoridades nepalesas estão a proceder a enterros coletivos das vítimas, na floresta de Devghat, distrito de Chitwan, no Nepal. Narendra Shrestha Via EPA

A autoridade nepalesa de gestão de desastres contabilizava, esta terça-feira, 987 mortos e cerca de 3.916 desaparecidos. Mas do lado chinês, as autoridades apontavam para 16 mortos e 546 desaparecidos. Somados, já ultrapassam os 1000 mortos e há ainda centenas de pessoas cujo destino permanece desconhecido.

Ao longo do rio Trishuli, centenas de trabalhadores de projetos hidroelétricos poderão estar presos em túneis inundados por lama e detritos.

A Reuters fala em pelo menos 639 pessoas ainda presas em várias centrais, enquanto outras fontes referem cerca de 900 trabalhadores desaparecidos em 12 projetos.

A diferença entre os números resulta das sucessivas atualizações e da dificuldade em saber ao certo quantas pessoas estavam em cada local quando a água chegou.

O resgate é particularmente difícil porque, em alguns casos, os próprios túneis desapareceram sob os escombros.

Arnold Dix, engenheiro australiano e especialista em operações subterrâneas, tem acompanhado os trabalhos à distância os trabalhos. 

Ao canal público britânico, BBC, descreveu o terreno como uma "paisagem lunar": a referência dos túneis desapareceu e há blocos de pedra "maiores que casas"

Para chegar aos trabalhadores, os socorristas precisam de localizar novamente as entradas, retirar toneladas de lama e, em alguns pontos, recorrer a detonações de rocha.

As autoridades referem que há uma ironia associada aos resgates. Os mesmos túneis que agora dificultam o resgate podem também ter sido o que protegeu algumas pessoas da força da água.

Arnold Dix acredita que o ambiente subterrâneo poderá ter oferecido alguma proteção contra o dilúvio e, por isso, ainda mantém esperança de encontrar sobreviventes.
Famílias vivem entre a esperança e o relógio
"Quanto mais tempo demorar, mais a nossa esperança se esvai", disse Jiban Khadka ao jornal nepalês Kantipur, numa frase que resume o desespero de quem espera notícias. Sita Pandey, cujo marido trabalhava numa das instalações, diz manter "50% de esperança" de que ainda esteja vivo porque existe um sistema de oxigénio no interior.

E a dimensão da tragédia tornou-se ainda mais visível quando os corpos começaram a chegar a Chitwan. 

Quase 300 cadáveres foram arrastados pelo sistema fluvial para as margens do distrito. Apenas uma pequena parte dos corpos recuperados tinha sido identificada. Segundo a BBC Nepali, que cita fonte do Ministério da saúde, até ao momento, apenas 4% dos 900 corpos encontrados foram identificados.

Sem espaço suficiente para acondicionar os cadáveres, as autoridades tiveram de recorrer a sepultamentos temporários enquanto as equipas médicas fazem a recolhe de amostras de ADN.

A China anunciou entretanto o envio de especialistas em identificação genética, drones e sistemas de purificação de água. O mesmo aconteceu com países como a Índia, a Coreia do Sul, a Austrália, os Estados Unidos, o Japão, Singapura, países da União Europeia e os Emirados Árabes Unidos, contribuíram com a resposta.

A ajuda estrangeira, contudo, chegou depois de o Nepal ter inicialmente recusado uma participação internacional generalizada nas operações de busca e salvamento, preferindo apoio especializado e equipamento tecnológico.

Montanhas dos Himalaias geram preocupam
As autoridades nepalesas e chinesas apontam para a instabilidade dos glaciares e para os efeitos de longo prazo do aquecimento global. 

O desastre começou depois de uma enorme massa glaciar se ter desprendido nos Himalaias, desencadeando uma onda de água, gelo, rochas e lama que desceu pelos vales.

De acordo com várias agências noticiosas, há um paradoxo evidente. 

O Nepal construiu grande parte da sua estratégia energética sobre a água que desce dessas montanhas. 

Desde o início do século, o país assistiu a um crescimento de projetos hidroelétrico, aproveitando os rios dos Himalaias para produzir eletricidade e vender energia à Índia. Para isso, foram construídas dezenas de projetos que dependem de extensas redes de túneis escavados nas montanhas. As autoridades estimam que mais de 11 destes projetos foram destruídos pela enxurrada.

No Nepal, a corrida contra o tempo continua. Lá em baixo, entre lama, rocha e escuridão, cada metro escavado pode significar apenas mais detritos, ou a descoberta de alguém que ainda espera por ser resgatado.
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