Avião da Air France levou quase quatro minutos a cair

O avião da Air France que se despenhou, há dois anos, no oceano Atlântico, perdeu a sustentação aerodinâmica e entrou numa espiral de queda tendo demorado três minutos e meio a atingir o mar. A conclusão está num relatório preliminar hoje divulgado pelo órgão que investiga o acidente. Os dados das caixas negras do aparelho indicam também que o painel de controlo mostrou duas velocidades contraditórias.

RTP /
Os dados das duas caixas negras permitem reconstituir os últimos minutos do voo 447 da Air France Emma Foster,EPA

O Gabinete de Investigação e Análises (BEA) diz que decidiu tornar público este balanço provisório das investigações, uma vez que a imprensa estava a publicar informações, nem sempre corretas, sobre o conteúdo das caixas negras. O documento agora divulgado apenas estabelece as circunstâncias e não as causas do acidente do Airbus A330 que provocou a morte às 228 pessoas que seguiam a bordo.

Os dados demonstram que, pouco antes do desastre, a tripulação sabia que ia entrar numa zona de turbulência atmosférica e que os pilotos tinham avisado os restantes tripulantes para estarem preparados.

Tanto o piloto automático como a aceleração automática se desligaram depois de o aparelho encontrar turbulência e o avião perdeu velocidade. Com o controle manual, a aeronave ainda subiu a 38.000 pés, (9.100 metros) mas, o alarme de perda de aerodinâmica (stall) soou por duas vezes distintas e o avião começou a perder altitude.

Comandante estava a descansarNo momento em que o avião começou a dar problemas, apenas dois copilotos, Pierre-Cedric Bonin e David Robert, estavam na cabine do Airbus -- o comandante do voo, Marc Dubois, tinha-se retirado para um período de repouso de rotina e voltou à cabine depois de ser chamado, cerca de um minuto e 30 segundos após se ter desligado o piloto automático, mas não chegou a retomar os comandos.

Aos comandos do aparelho estava Pierre-Cedric, identificado no relatório com as iniciais PF, que respondeu à situação de perda de sustentação com uma tentativa de elevar o nariz do aparelho. À sua esquerda, o segundo-co-piloto David Robert, identificado como PNF.

Leituras inconsistentesDado crucial, a análise das duas caixas negras do avião mostra que, durante pelo menos um minuto, o painel dos instrumentos de voo deu duas leituras inconsistentes entre si sobre a velocidade, o que privou os pilotos de informação fundamental deixando-os praticamente cegos quanto a verdadeira situação do aparelho.

De acordo com o relatório do BEA, a queda em espiral da aeronave Airbus A330 demorou uns agonizantes três minutos e 30 segundos, oscilando violentamente de um lado para o outro a uma velocidade de 3.300 metros por minuto, enquanto os pilotos, sem acesso às leituras dos instrumentos tentavam desesperadamente estabilizar o aparelho.

Motores estavam em funcionamentoO relatório do BEA esclarece ainda que os motores estavam em funcionamento e responderam durante todo o tempo aos comandos da tripulação até que o aparelho se despenhou no mar.

Os últimos valores registados pela caixa negra são de 16,2 graus de elevação do nariz do avião, inclinação de 5,3 graus à esquerda e velocidade vertical de -10.912 pés por minuto (200km por hora).

Apesar de o relatório preliminar não analisar os dados nem apontar culpas, o facto de os instrumentos de bordo darem duas leituras incompatíveis parece apoiar uma das principais hipóteses que tinham sido avançadas para explicar o desastre.

Segundo essa teoria, os sensores de velocidade externos do Airbus A-330, conhecidos por sondas pitot, estariam a funcionar mal, devido provavelmente à acumulação de gelo, e terão induzido em erro os pilotos quando à velocidade real a que se deslocava o avião. Desde o desastre, a Air France já substituiu as sondas pitot da sua frota de Airbus por um modelo mais avançado. Até agora, nenhuma das sondas do malogrado voo 447 foi recuperada do leito marinho.

Também erro humano?
Segundo alguns especialistas, o relatório levanta também a questão de saber porque é que a tripulação respondeu à situação de perda de sustentação com a tentativa de elevar o nariz do aparelho em vez de o baixar para tentar recuperar. Uma opção que, segundo estes peritos, poderá ter contribuído para piorar as coisas.

Há também quem se interrogue se a ausência do comandante no início da crise terá feito alguma diferença. No entanto, o relatório estabelece que a composição da tripulação estava, naquele momento, em conformidade com os procedimentos do operador.

As informações agora divulgadas pela BEA tiveram por base as duas caixas negras, encontradas no Atlântico no início deste mês, após terem sido reiniciadas as buscas por parte das autoridades francesas.

Na terça-feira, as autoridades francesas informaram as famílias das vítimas que 29 corpos foram resgatados desde o reinício das operações de resgate, a 21 de maio.

Mais de 30 diferentes nacionalidades seguiam a bordo do malogrado voo, mas a maioria dos passageiros e tripulantes eram de nacionalidade francesa, brasileira e alemã.
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