Bakhmut, "triturador de carne". Kiev vincula futuro da Ucrânia à batalha a leste

O futuro da Ucrânia depende do resultado das batalhas no leste, incluindo Bakhmut e arredores, afirmou na última noite o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Kiev e Moscovo falam em fortes combates na pequena cidade mineira.

Cristina Sambado - RTP /
Tropas ucranianas em Bakhmut Alex Babenko - Reuters

A cidade de Bakhmut é nesta altura o foco da invasão russa da Ucrânia. Há vários meses que a cidade mineira é alvo de intensos combates de infantaria, já descritos como os mais sangrentos na Europa desde a II Guerra Mundial.

“A guerra está muito dura no leste”, afirmou Zelensky no seu habitual vídeo noturno.

No entanto, o presidente ucraniano mostra-se convicto da vitória: “Temos de destruir o poder militar do inimigo. E vamos destruí-lo”.

Para Zelensky, o futuro da Ucrânia depende da batalha a leste, incluindo Bakhmut e arredores.

A guerra de trincheiras em Bakhmut, na região ucraniana de Donetsk, é descrita pelos dois lados como um “triturador de carne”. Com Kiev e Moscovo a comunicar centenas de baixas nas tropas inimigas.

Esta terça-feira, o Ministério da Defesa da Ucrânia revelou que as tropas ucranianas “mataram mais de 700 soldados russos, destruíram dez tanques, 15 veículos blindados de combate, 16 peças de artilharia e 11 drones”.


Na segunda-feira, a Rússia lançou cinco ataques com mísseis, 35 ataques aéreos e 76 ataques com rockets contra infraestruturas civis nas regiões de Sumy e Donetsk.

As forças ucranianas revelaram ter repelido ataques a sete zonas na frente de Bakhmut.

Para a Rússia, conquistar Bakhmut é abrir o caminho para controlar todo o território de Donetsk, um dos objetivos centrais da guerra. Já a Ucrânia, que decidiu defender a cidade mineira em vez de se retirar, considera que desgastar os soldados russos poderá ajudar a sua contraofensiva na primavera, uma altura em que os terrenos agora enlameados estarão mais secos.
Extensão do acordo sobre cereais
Kiev e Moscovo estão em desacordo com a duração da extensão do acordo de cereais do Mar Negro. A Rússia quer prolongá-lo por 60 dias, ao passo que a Ucrânia insiste nos 120 dias de prorrogação mínima.

A agência de notícias russa Tass cita o vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros, segundo o qual o acordo, que ajuda a Ucrânia a exportar produtos agrícolas, foi prorrogado por 60 dias.

Já a Reuters cita um funcionário ucraniano que garantiu que Kiev vai cumprir os termos do acordo, mas exige a extensão por 120 dias.

Ancara confirmou esta terça-feira que as negociações sobre a extensão do acordo ainda estavam a decorrer. A Turquia e a ONU ajudaram a mediar o acordo original assinado em julho de 2022.

Na segunda-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou estar comprometido em facilitar a exportação de alimentos e fertilizantes russos, após Moscovo aceitar prolongar o acordo por apenas 60 dias. Em julho passado, as Nações Unidas e a Turquia negociaram acordos paralelos com a Ucrânia e a Rússia que permitem, respetivamente, a Kiev enviar alimentos e fertilizantes de três dos portos ucranianos no Mar Negro, e a Moscovo exportar de alimentos e fertilizantes.

O acordo de 120 dias - que ajudou a aliviar parte do impacto do aumento global dos preços dos alimentos - foi renovado em novembro passado, mas expira no próximo sábado, estando em cima da mesa das negociações uma extensão por mais quatro meses.

O acordo permitiu a exportação de 24 milhões de toneladas de cereais e mais de 1.600 viagens seguras de navios pelo Mar Negro, com 55 por cento das exportações de alimentos a serem direcionadas para países em desenvolvimento, de acordo com dados da ONU. Crimes de guerra
O Tribunal Penal Internacional vai iniciar dois processos por alegados crimes de guerra contra a Rússia emitindo várias ordens de prisão, avança esta terça-feira o jornal norte-americano The New York Times.

Segundo o jornal, os casos estão relacionados em concreto com o suposto "sequestro de crianças ucranianas" e com o "ataque deliberado contra infraestruturas civis" da Ucrânia.

O New York Times cita fontes do TPI relacionadas com "as últimas decisões". As fontes não foram identificadas por estarem impedidas de se pronunciarem publicamente sobre o assunto.

Estas são as primeiras acusações internacionais desde 24 de fevereiro de 2022 e, segundo o jornal, "são resultado" do trabalho das equipas de investigação sobre crimes de guerra. Esta terça-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a Rússia não reconhece jurisdição ao TPI.

As investigações prolongaram-se durante vários meses e concentram-se sobretudo "no sequestro de crianças e de adolescentes ucranianos" enviados para campos de "reeducação russos", além dos ataques deliberados contra equipamentos civis.

Karim Khan, procurador do TPI, deve primeiro apresentar o caso aos juízes de instrução sendo que os investigadores ainda se encontram a trabalhar na recolha de provas para depois emitir eventuais ordens de prisão.


O Kremlin nega as acusações de crimes de guerra, mas, segundo a notícia agora publicada, os investigadores internacionais e ucranianos "reuniram provas sólidas de uma série de atrocidade desde o primeiro dia da invasão", 24 de fevereiro de 2022.

c/ agências
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