Balcãs divididos face ao legado de Madeleine Albright

A morte na quarta-feira da ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, suscitou reações díspares nos Balcãs, devido à função decisiva que desempenhou durante as guerras que assolaram esta região da Europa da década de 1990.

Lusa /

Após a sua morte aos 84 anos, a forma como o seu legado é visto depende da forma como a sua função decisiva foi encarada na tentativa de terminar com os conflitos ou agravá-los nos territórios da antiga Jugoslávia.

Albright depressa foi conotada com a chefe dos "falcões" da administração do ex-Presidente democrata Bill Clinton, após assumir o cargo em 1997. Defendeu de forma intransigente uma intervenção do ocidente no Kosovo, com os seus críticos a definirem o conflito de 1998-1999 como "a guerra de Madeleine".

Assim, foi uma entusiasta defensora da campanha de bombardeamentos à Jugoslávia (Sérvia e Montenegro), que hoje completou 23 anos, e justificada pela repressão das forças de Belgrado contra os albaneses do Kosovo, maioritários nesta antiga província sérvia.

Antes, quando assumia as funções de embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas durante o primeiro mandato de Bill Clinton, pugnou por uma resposta internacional contra o cerco e bombardeamento das forças sérvias bósnias a Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina.

Albright também se empenhou em fazer comparecer perante a justiça internacional quem era apontado por crimes de guerra nos Balcãs, incluindo o antigo Presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic, e o ex-líder político dos sérvios bósnios, Radovan Karadzic.

Pelas suas posições, tornou-se numa figura odiada na Sérvia - com o seu nome atribuído a uma cobra - e uma heroína no Kosovo - onde lhe foi erguida uma estátua - e Bósnia-Herzegovina.

"Na Sérvia será recordada como uma mulher impiedosa, uma das maiores defensoras do bombardeamento da Jugoslávia e da independência do Kosovo", indicou hoje o diário pró-governamental sérvio Vecernje Novosti.

Os responsáveis oficiais sérvios permaneceram silenciosos perante a morte de Albright, e sem apresentar condolências. Hoje, algumas dezenas de pessoas manifestaram-se em Belgrado, como sucede em cada aniversário do início dos bombardeamentos da NATO, com alguns a exibirem cartazes com a frase "Adeus, Madeleine".

Em Kosovo, a reação foi a oposta.

"É muito raro encontrar a combinação perfeita entre política, diplomacia e história como sucedia com a figura única da senhora secretária Madeleine Albright", considerou o primeiro-ministro do Kosovo Albin Kurti, enquanto prestava homenagem junto ao monumento em bronze na capital Pristina.

"A intervenção da NATO no Kosovo travou o genocídio sérvio na primavera de 1999 teve definitivamente o selo de Albright, e estaremos sempre reconhecidos e agradecidos à sua pessoa", disse Kurti em declarações à agência noticiosa Associated Press (AP).

Na Bósnia-Herzegovina, Albright também é recordada quando o embaixador dos EUA apresentou no verão de 1995 no Conselho de Segurança da ONU provas de atrocidades cometidas na cidade de Srebrenica (leste), nos meses finais da sangrenta guerra civil entre 1992 e 1995.

Durante dez dias de combates, cerca de 7.000 homens e rapazes muçulmanos em idade de combater foram mortos no decurso do assalto dos sérvios bósnios a esta "zona de segurança" da ONU com a presença de capacetes azuis holandeses, quando tentavam sair da região em direção outras zonas sob controlo muçulmano. Muitos foram depois executados sumariamente.

"Devido à sua experiência, foi uma verdadeira campeã da justiça, não suportava injustiças", indicou o antigo primeiro-ministro bosníaco (muçulmano) Haris Silajdzic numa referência a Albright, que nasceu na Chescolováquia em 1937 com o nome de Marie Jana Korbelova.

A sua família emigrou para os Estados Unidos em 1948 e Albright tornou-se cidadã norte-americana em 1957.

Quando visitou Sarajevo durante a guerra, evocou o discurso do ex-Presidente dos EUA John F. Keneddy em 1963 em Berlim, ao indicar perante várias centenas de pessoas "Ja sam Sarajevka" (Eu sou de Sarajevo).

A sua memória também foi recordada na sua República Checa natal, com a representante checa no Parlamento Europeu a referir-se a "uma grande perda".

Os laços de Albright com a antiga Jugoslávia remontam à sua infância. Pouco após o seu nascimento em Praga os pais mudaram-se para Belgrado, então capital da Jugoslávia, e onde o seu pai ocupou temporariamente o posto de conselheiro de imprensa na embaixada da Checoslováquia. Na sequência da ocupação nazi da Checoslováquia, a família terá optado por se fixar de início no Reino Unido.

Albright recordava-se com frequência dos seus dias em Belgrado, incluindo quando se dirigiu aos sérvios dois dias após o início da intervenção da NATO, há 23 anos, justificada pela guerra no Kosovo.

"Os americanos não odeiam os sérvios", garantiu Albright na sua intervenção, e então disponibilizada na página digital do Departamento de Estado. "Tal como eu, lembram-se que fomos aliados contra o fascismo", disse. "Tal como vós, os americanos querem viver em paz com os seus vizinhos e por todo o mundo".

O discurso não foi transmitido pelos `media` estatais sérvios, e enquanto decorriam os bombardeamentos da NATO. Pelo contrário, o Jardim zoológico de Belgrado atribuiu o seu nome a uma das suas pitões, num sinal de protesto pelo seu envolvimento na intervenção liderada pelos Estados Unidos e que provocou visíveis discordâncias entre diversos aliados europeus.

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