Baltasar Garzón e Roberto Saviano condenam forma como Ocidente lidou com Estado Islâmico

Lisboa, 02 out (Lusa) - O juiz espanhol Baltasar Garzón e o escritor italiano Roberto Saviano condenaram hoje em Lisboa a forma como o Ocidente lidou com o avanço do grupo extremista sunita Estado Islâmico (EI) na Síria e no norte do Iraque.

Lusa /

Saviano e Garzón - que se tornaram figuras públicas devido à denúncia que fizeram de crimes violentos, da Camorra, da máfia napolitana e do regime do ditador chileno Augusto Pinochet, respetivamente -- referiam-se ao facto de uma coligação internacional liderada pelos Estados Unidos estar a tentar deter, por meio de ataques aéreos, a expansão da esfera de influência do EI em território sírio e iraquiano.

"Como sempre, é mais fácil bombardear um país, ou uma zona de um país, do que analisar as causas de um determinado conflito e tentar solucioná-lo através do direito ou da diplomacia", observou o magistrado espanhol, acrescentando que mesmo o Conselho de Segurança da ONU ainda não conseguiu, desde 1999, pôr-se de acordo sobre a própria definição de `terrorismo`.

Garzón e Saviano falavam numa conferência de imprensa por ocasião do lançamento mundial do último e inacabado romance do prémio Nobel da Literatura português, José Saramago, intitulado "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas" (Porto Editora) e cujo ponto de partida é a história de um homem que, trabalhando numa fábrica portuguesa fornecedora de armamento às tropas de Franco durante a Guerra Civil de Espanha, escolhe, em vez de pólvora, pôr dentro de um morteiro um papel em que escreveu `Esta bomba não rebentará`.

Segundo Baltasar Garzón, "existe atualmente uma obsessão militarista" e, embora a assinatura de "um tratado mundial contra a indústria armamentista seja pura utopia", tal não significa que se desista de lutar civicamente.

Embora concordando com o juiz espanhol que em 1998 emitiu um mandado de captura para Pinochet, o jornalista e escritor italiano que se celebrizou ao publicar, em 2006, o polémico livro "Gomorra" e que ainda hoje tem a cabeça a prémio, deslocando-se sempre acompanhado de guarda-costas, classificou o que está a acontecer na Síria e no norte do Iraque como "uma tragédia".

"Agora, é demasiado tarde para a diplomacia. Na Síria, por exemplo, deixaram aniquilar a oposição laica -- ora, quem nos podia dizer o que fazer nesta zona do globo eram, precisamente, os dissidentes laicos. E até o papa disse que existe uma violência legítima", comentou.

"A tarefa do intelectual, hoje em dia, é perguntar-se como é que chegámos aqui e porquê", defendeu Saviano, citando, a propósito, um documentário intitulado "Everyday Revolution", da autoria de dois irmãos iranianos, que defende a tese de que "como se trata de movimentos sem líderes, o Ocidente não percebeu com quem haveria de falar, achou que não tinha interlocutor".

Por sua vez, Garzón chamou a atenção para a ingrata situação dos curdos: "A principal linha de resistência ao Estado Islâmico é o povo curdo, mas quando acabar este combate, vamos confrontar-nos com um povo ao qual cinco países negam a existência enquanto nação, o Curdistão".

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