Bebés antepassados de "Lucy" utilizavam gene símio como autoproteção

Descobertas em 1974, as ossadas fossilizadas de uma fémea australopiteco afarencis, batizada de "Lucy", com mais de 3,4 milhões de anos, são até agora a prova científica da nossa formação enquanto hominídeos. Agora os investigadores dão a conhecer um novo achado de um bebé da mesma espécie 100 mil anos mais velho.

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Batizada de Lucy, a dona do primeiro esqueleto descoberto por Donald Johanson revelava uma formação óssea singular e diferente da formação dos parentes símios da altura que, em conjunto com novos achado,s davam origem à teoria científica, ainda hoje válida, para a evolução humana.

Recentemente os novos achados levantaram algumas dúvidas à teoria apresentada por Tim D. White e Donald Johanson em 1978, isto porque um pé fossilizado de um bebé australopiteco afarencis, mais velho 100 mil anos que Lucy, ainda apresentava a formação óssea adaptada para trepar às árvores.

Um pé com ‘dedão’ ainda muito símio
Um artigo publicado na revista Science Advances, do investigador Jeremy DeSilva e colegas , da faculdade de Dartmouth, New Hampshire, Estados Unidos, revela um fóssil raro do pé de uma criança australopiteca afarencis, com uma idade estimada entre os dois e os três anos.

Os hominídeos desta classe, quando adultos, caminhavam eretos e viviam no chão. Mas aparentemente os filhos ainda se agarravam às árvores em busca de proteção - uma dedução realizada a partir de características primitivas do pé do bebé. De acordo com os investigadores, esta particularidade genética, na formação e crescimento do ser, acabaria por desaparecer quando atingisse a idade adulta.

Os fósseis de hominídeos são extraordinariamente raros. Apenas dez fósseis de “australopithecine afarensis” foram descobertos até agora, nenhum dos quais completo, refere Yoel Rak, professor na Universidade de Tel Aviv, especialista no assunto. O primeiro foi “Lucy”, o esqueleto parcial de uma fémea encontrada na Etiópia, datado de 3,2 milhões de anos atrás.

Em 2002 novos fósseis revelaram os restos mortais de uma criança de 2 a 3 anos, ainda com a boca cheia de dentes de leite. Encontrado na região de Dikika, Etiópia, o esqueleto do jovem "Selam" - como o apelidaram - foi datado de 3,3 milhões de anos. Ou seja 100 mil anos mais velho que “Lucy”.

Pode parecer lógico que em 100 mil anos, os australopitecos possam ter tido algum desenvolvimento estrutural, mas uma coisa os investigadores não colocam em causa. Selam é da mesma espécie que Lucy, explica Yoel Rak, porque os arqueólogos encontraram a mesma massa crítica nos restos mortais.

E este achado foi considerado único e valioso, pois os investigadores não encontraram ossos isolados espalhados, mas sim quase todo o esqueleto num compósito rochoso, no qual se inclui o crânio, vértebras, pés.

O professor na Universidade de Tel Aviv, especialista nesta espécie hominídea pré-histórica, lembra que os pés de Lucy não foram encontrados. Mas os pés de outros australopitecos adultos sim, possibilitando a comparação com o juvenil.

De acordo com Rak, os pés adultos são muito parecidos com os dos humanos. Os pés do bebé eram um pouco mais parecidos com macacos. Permanecendo o hálux do pé (dedão) grande e muito articulável, podendo estes agarrar galhos com os pés.

Perdemos a articulação do dedo grande do pé, porque caminhar não é agarrar
O corpo humano está em constante mutação. Muito embora não pareça, porque olhamos apenas para o formato humano dos últimos 10 mil anos, a estrutura física humanóide tem sofrido alterações.

Estas diferenças evolutivas são, nem mais, nem menos, a adaptação do nosso corpo, enquanto ferramenta, às necessidades físicas apresentadas ao longo das várias gerações.

Trata-se de um desenvolvimento que num futuro poderá transformar por completo a fisionomia humana, por exemplo com um maior desenvolvimento do crânio. Ou, se continuássemos a usar um teclado, poderiam nascer mais um ou dois dedos, ou mesmo ficar sem eles para os que escrevem apenas com um dedo de cada mão.

A imagem fornecida pela Universidade de Utah mostra um conjunto de vistas frontais e laterais de reconstruções de crânio comparando chimpanzés com quatro hominídeos: Pan troglodytes (linha superior), Australopithecus afarensis (segunda fileira de cima) Paranthropus boisei (terceira linha a partir do topo), Homo erectus (segunda fileira de inferior) e Homo sapients (linha inferior). Dois pesquisadores da Universidade de Utah propuseram que o rosto dos ancestrais dos humanos modernos evoluiu ao longo de milhões de anos de forma a limitar ferimentos causados por socos no rosto durante confrontos entre machos. Créditos: Universidade de Utah/Reuters

No caso comparativo com o do bebé australopiteco Selam, os seres humanos actuais realmente não têm o dedão do pé de Selam. Mas ainda está presente na estrutura óssea humana um osso cuneiforme do dedão do pé.  O dedão de Selam era ligeiramente mais redondo na frente do que o dos seus ascendentes.

O osso cuneiforme arredondado indica que o dedão do pé de Selam tinha capacidade manipulativa.

Fóssil das ossadas do bebé Australopitecos afarensis Selam de 3,3 milhões de anos (esquerda)- Ossos do pé de Selam sobreposta à pegada de uma criança humana moderna (direita. Créditos: Prof. Jeremy DaSilva

Por outras palavras, o bebé Australopitecos nasceu num estado primitivo e durante o crescimento, até à maturidade, os pés perderiam o estado primitivo e tornavam-se mais semelhantes a humanos.

É uma regra na biologia, diz o professor na Universidade de Tel Aviv, Yoel Rak: os bebés têm uma forma mais primitiva que o adulto. "Quanto mais novos são nossos bebés humanos, mais difícil se torna de distinguir-nos dos chimpanzés, anatomicamente falando", explica. E acrescenta: "É muito difícil distinguir entre o crânio de uma criança muito pequena e o crânio de um filhote símio muito pequeno. Torna-se mais fácil à medida que crescem".

Um trilho de pegadas com 3,6 milhões de anos
Lucy bem como os seus descendentes eram bípedes como nós. Conclusão mais do que aceite pela arqueologia baseada em múltiplas evidências, facto é que pegadas fósseis preservadas em cinzas vulcânicas, encontradas em Laetoli, na Tanzânia, e datadas de cerca de 3,6 milhões de anos, comprovam isso mesmo.

De acordo com os investigadores, estes acreditam que o trilho de 27 metros foi feito pelos primeiros australopitecos afarensis, isto porque os restos desta espécie foram encontrados na mesma camada de sedimentos, e não se conhece a existência de outra protoespécie de hominídeos naquela época.

Uma segunda evidência são os pés fósseis dos australopitecos adultos. Os pés eram como os nossos, ao contrário dos chimpanzés e outros macacos em que o dedão diverge lateralmente, o que permite uma capacidade manipuladora como por exemplo, agarrar ramos com os pés.

Os atuais seres humanos precisam de um calcâneo robusto, porque o nosso passo começa precisamente com o nosso calcanhar a bater no chão. Já na espécie símia esta carga precisa ser dissipada, porque os macacos têm ossos do calcâneo relativamente macios. Ora nesta camada de pegadas fóssil, pode-se verificar precisamente esse apoio, uma característica muito humana que Lucy compartilhou e que foi um enorme salto na evolução locomotiva humana.

Então, Lucy foi uma das nossas primeiras avós? "Isso é discutível, mas é sem dúvida uma candidata muito próxima da nossa ancestral", diz Rak. "Não temos conhecimento de outras espécies hominídeas ao redor do tempo de Lucy." Pouco depois dela, houve uma grande ramificação de hominídeos, durante mesmo período de tempo e nos mesmos lugares.

E por que o bebé de Lucy se escondia nas árvores, enquanto ela se sentava no chão? Porque ele podia. É divertido. E há mais predadores no chão.

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