Beirute em estado de emergência com número de mortos a subir para 135

O Governo libanês decretou estado de emergência de duas semanas na cidade de Beirute, na sequência do conjunto de explosões que devastaram a cidade esta terça-feira. Os últimos dados apontam para pelo menos 135 vítimas mortais e mais de cinco mil feridos.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
A capital libanesa acordou esta quarta-feira em luto pelos cerca de 135 mortos e mais de cinco mil feridos Mohamed Azakir - Reuters

O anúncio da decisão foi feito numa conferência de imprensa pelo ministro da Informação, Manal Abdel Samad, adiantando que entrará em vigor, imediatamente, "um poder militar supremo" para garantir a segurança em Beirute.

A capital libanesa acordou esta quarta-feira em luto pelos mais de cem mortos (balanço entretanto atualizado para 135 mortos) e mais de cinco mil feridos na sequência das fortes explosões no porto de Beirute
. Há ainda dezenas de desaparecidos e a Cruz Vermelha admitiu que estes números possam ainda subir.

Uma primeira explosão ocorreu na zona portuária de Beirute por volta das 18h00 (16h00 em Lisboa) de terça-feira, seguida de um incêndio e de algumas detonações. Os vídeos de algumas pessoas que começaram a filmar nessa altura são testemunho de uma segunda explosão, muito mais forte, que causou uma nuvem de fumo em forma de cogumelo, reduzindo o porto e os edifícios vizinhos a escombros.


Esta segunda explosão originou um terramoto de magnitude 3,3 na escala de Richter que foi sentido em Chipre, a mais de 200 quilómetros de distância.

As operações de resgate continuam nos bairros à volta do porto, cujas ruas estão repletas de escombros dos edifícios que desabaram. Por toda a cidade os habitantes de Beirute sofreram ferimentos ao ser atingido pelos vidros que estilhaçaram devido à deslocação do ar provocada pela explosão.

O governador de Beirute, Marwan Abboud, calcula que até 300 mil pessoas tenham ficado sem casa, considerando que "metade [da cidade] se encontra destruída ou danificada". Os danos poderão "ascender a entre três e cinco mil milhões de dólares (2,5 a 4,2 mil milhões de euros)", acrescentou.
“Inação e negligência”
As causas das explosões ainda não foram confirmadas, mas suspeita-se que estarão relacionadas com materiais explosivos. Segundo o presidente do Líbano, Michel Aoun, durante os últimos seis anos estiveram armazenadas, sem condições de segurança, num armazém do porto, 2750 toneladas de nitrato de amónio, um químico utilizado em fertilizantes e bombas.

Uma fonte oficial revelou à Reuters que as investigações iniciais apontam para “inação” das autoridades e “negligência”, afirmando que “nada foi feito” quanto ao armazenamento deste material perigoso.

O primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, considerou "inadmissível que um carregamento de nitrato de amónio, calculado em 2.750 toneladas, esteja há seis anos num entreposto, sem medidas de precaução". "É inaceitável e não podemos ficar calados em relação à questão", adiantou Diab.

O presidente libanês já garantiu que o Governo está “determinado em investigar e expor o que aconteceu o mais rapidamente possível e encontrar o responsável”. A Reuters avança ainda que o Governo libanês ordenou que as autoridades portuárias envolvidas no armazenamento do material sejam colocadas em prisão domiciliária enquanto aguardam uma investigação.

As autoridades libanesas já vieram garantir que nada indica que as explosões tenham sido provocadas deliberadamente. No entanto, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou na terça-feira que os generais norte-americanos lhe tinham dito que as explosões pareciam ter sido causadas por "uma espécie de bomba". "Parece um ataque terrível", disse Trump.

O Pentágono, no entanto, disse à agência France-Presse "nada ter" a acrescentar, aconselhando a "contactar a Casa Branca para esclarecimentos".
Ajuda internacional
Os hospitais de Beirute não estão a conseguir dar resposta às milhares de vítimas que chegam e há inclusivamente relatos de equipas médicas que foram forçadas a tratar pacientes em parques de estacionamento. De acordo com os meios de comunicação locais, vários hospitais ficaram destruídos devido à explosão. O ministro da Saúde, Hamad Hassan, afirma que os hospitais no país possuem poucas camas e não têm equipamentos necessários para tratar os feridos e pacientes em estado crítico.

O chefe de Governo libanês afirmou que o país está a viver "uma verdadeira catástrofe" e apelou à ajuda de todos os países e amigos do Líbano.

A União Europeia já se disponibilizou a ajudar e anunciou o envio de 100 bombeiros, lamentando esta quarta-feira as fortes explosões. "A UE expressa a sua total solidariedade e apoio às famílias das vítimas, à população e às autoridades libanesas na sequência das violentas explosões que afetaram Beirute", disse o Alto Representante da UE para a Política Externa, Josep Borrell, na rede social Twitter.

Também os Estados Unidos ofereceram ajuda, com Donald Trump a enviar "as mais sentidas condolências" para com o povo libanês. "Rezamos por todas as vítimas e as suas famílias. Os EUA estão preparados para auxiliar o Líbano. Temos uma relação muito boa com o povo do Líbano e vamos ajudar", assegurou o presidente norte-americano.

Entre a lista de países que se apressaram a oferecer apoio está França, comprometendo-se a enviar ainda esta quarta-feira para o Líbano três aviões de transporte militar com equipas de resgate e material com ajuda de emergência às vítimas das explosões. O presidente francês, Emmanuel Macron, fará ainda uma vista à cidade na próxima quinta-feira.

A Rússia, o Qatar, o Irão e mesmo o vizinho inimigo Israel também ofereceram ajuda. O Reino Unido já comunicou que irá transferir até cinco milhões de libras para Beirute e está “preparada” para enviar equipas de procura e resgate e apoio médico especializado.

Da parte portuguesa, a secretária de Estado da Saúde, Jamila Madeira, anunciou durante a conferência de imprensa desta quarta-feira sobre o ponto de situação da pandemia que “Portugal fará parte desse apoio”.

Segundo adiantou a secretária de Estado, a intervenção de equipas do INEM no Líbano será definida pelo mecanismo europeu de proteção civil e deverá ser conhecida nas próximas 24 horas.

"A janela temporal para ajudar, sobretudo na localização de desaparecidos com vida nesta vastíssima destruição que o incidente provocou terá de ser acionada rapidamente", afirmou a secretária de Estado da Saúde.

Segundo Jamila Madeira, o mecanismo europeu de proteção civil deverá informar Portugal "quem e quantos serão os operacionais da saúde e das outras áreas de intervenção que irão para o Líbano".

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, diz que Portugal está atento ao que se passa no Líbano e adianta que o ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou que, até ao momento, não há registo de nenhum português entre as vítimas.
“Nenhuma palavra pode descrever o horror”
Durante uma reunião do gabinete de emergência, o presidente Aoun descreveu Beirute como uma “cidade atingida por um desastre”. “Nenhuma palavra pode descrever o horror que atingiu Beirute na noite passada”, acrescentou o presidente libanês, que declarou três dias de luto nacional e anunciou que o Governo irá disponibilizar o equivalente a 66 milhões de dólares em fundos de emergência.

“O que estamos a testemunhar é uma enorme catástrofe. Há vítimas e mortes em todo o lado”, disse George Kettaneh, responsável da Cruz Vermelha libanesa, sobre aquela que é a maior tragédia da história de Beirute.

É como um cenário de guerra. Estou sem palavras”, lamentou o presidente da Câmara de Beirute, Jamal Itani, à agência Reuters, depois de ter inspecionado esta quarta-feira os estragos causados pelo desastre, estimando que correspondam a milhares de milhões de dólares. “Esta é uma catástrofe para Beirute e para o Líbano”.

Testemunhas contam que pensavam estar no meio de um terramoto com prédios a balançar e vidros partidos. “Foi surreal. Senti que estava num pesadelo onde estava muda e não conseguia ajudar ninguém, nem eu mesma”, afirmou um libanês ao jornal The Guardian.

c/agências
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