Bento XVI herda legado de +fazedor de paz+ entre homens e na Igreja

António Sampaio, da Agência Lusa.

Agência LUSA /

Cidade do Vaticano, 19 Abr (Lusa) - A escolha do nome de Bento XVI pelo alemão Joseph Ratzinger representa uma ligação a um importante legado de +fazedor de paz+, tanto em conflitos humanos como no seio da Igreja.

Ao mesmo tempo, e dada a história dos seus 15 antecessores em nome, a escolha acaba por contrastar com o perfile que a comunicação social mundial foi desenhando ao longo das últimas semanas: a de um homem ultra-conservador que daria continuidade ao trabalho de João Paulo II.

Nas muitas análises que já começam a fazer-se sobre a direcção que a Igreja Católica tomará sob Bento XVI, a escolha do nome assume algum significado, por ser entendida como uma indicação do tipo de pontificado que o eleito quer conduzir.

O último Bento, cujo reinado de oito anos (1914- 1922) coincidiu com o início da 1ª Guerra Mundial, surgiu em claro contraste com o seu antecessor, Pio X, responsável por um polémico ataque à modernidade que, na altura, dividiu bastante a Igreja.

Em contraste aparente com o seu antecessor, Ratzinger defendeu na sua última homilia como cardeal, na segunda-feira, a necessidade de defender a Igreja da "ditadura de relativismo" da modernidade.

Italiano, Bento XV era descrito como um homem afável e acessível, marcando o seu legado pelo esforço empenhado na busca de uma solução para o conflito mundial então em curso, chegando mesmo, em 1917, a sugerir um plano de paz, rejeitado por ambos os lados.

Durante o seu pontificado canonizou Joana d+Arc, com o que contribuiu para melhorar as relações frias que o Vaticano mantinha com a França e abrir caminho ao restabelecimento dos laços diplomáticos entre os dois estados.

Ratzinger assume o cargo depois de longos anos à frente da Congregação da Doutrina da Fé, a mais poderosa das congregações sob o pontificado de João Paulo II, responsável pela condução da doutrina da Igreja.

Também Bento XV se destacou neste cargo, com uma estratégia doutrinal activa virada em particular para as tentativas de evangelização em África.

Talvez por ser um dos nomes mais escolhidos pelos líderes da Igreja Católica, o legado deixado pelos vários Bentos acaba por traduzir variações significativas.

Variantes, por exemplo, como a do candidato compromisso que foi Bento XIV (1740-1758) - eleito depois de seis meses de Conclave - ou a do francês Bento XII (1335- 1342), que, numa das eras consideradas das mais negras para a Igreja, governou de Avignon, em vez de Roma.

Já Bento XI, num curto reinado de um ano a partir de 1303, é hoje identificado como um intelectual e um +fazedor de paz+ responsável por unir várias facções da Igreja.

Na prática, a escolha do nome é uma tradição pontifical que data de 533, quando João II optou por esse nome em vez do seu, Mercúrio, por entender que seria polémico guiar a Igreja Católica com o nome de um Deus Romano.

Na eleição, Ratzinger acaba por quebrar outra tradição, uma vez que normalmente cabe ao reitor do Colégio dos Cardeais - cargo que ocupava - perguntar ao Papa eleito, ainda no Conclave, se aceita e que nome escolhe.

No caso da eleição de hoje, essa pergunta teve de ser feita por outro dos cardeais.

ASP.

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