Bijagós, um arquipélago na rota internacional narcotráfico

As imagens paradisíacas do arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, escondem um mundo de traficantes de droga sul-americanos, que utilizam aquele património protegido da UNESCO como ponto de apoio para introduzir cocaína na Europa.

Agência LUSA /

A existência do corredor, conhecido por Brazilian Connection (rota brasileira) que começa no Brasil, atravessa ex-colónias portuguesas em África, como a Guiné-Bissau, e termina em Portugal ou em Espanha, é admitida pelas autoridades guineenses.

As características do arquipélago dos Bijagós - um conjunto de cerca de 90 ilhas, a maior parte das quais desertas, e menos de 1.500 habitantes - e a sua localização estratégica tornaram-no no mais apetecível destino das drogas provenientes da América do Sul, onde ficam armazenadas à espera de serem enviadas para a Europa.

Mas não são só estes atractivos que contribuíram para que o arquipélago se tornasse em "placa giratório" do tráfico de droga internacional.

"A situação sócio-económica da população associada (Ó) à falta de capacidades institucionais e operacionais para combater o tráfico ilícito internacional e o crime organizado constituem factores prováveis de atracção de organizações e redes de crime organizado", refere um documento do Ministério da Justiça guineense facultado à Agência Lusa.

Mais precisamente, a "total falta de equipamentos de investigação e operacionais" tem como resultado a "quase ausência de policiamento no território nacional e nas fronteiras", facilitando qualquer tipo de actividade ilícita, precisa o documento.

A mesma posição foi defendida pelo director-geral da Polícia Judiciária guineense, Orlando Silva, que disse que o combate ao tráfico de droga é "bastante complicado, porque além da falta de material, há também falta de homens qualificados".

Por outro lado, Orlando Silva salientou que "as ilhas dos Bijagós praticamente não fazem parte da Guiné-Bissau, porque não há um controlo do Estado e os traficantes conhecem essas fraquezas e instalam-se lá a seu bel-prazer, estando neste momento a armazenar".

Esta falta de controlo do Estado também está patente, segundo o documento do Ministério da Justiça, na facilidade em adquirir um passaporte guineense e na falta de segurança no aeroporto e dos portos do país.

O documento refere mesmo o aumento de grupos nigerianos de crime organizado na Guiné-Bissau, que, por norma, utilizam pessoas com malas para o transporte de droga.

As condições sócio-económicas da população também são um atractivo para os traficantes de droga, com poder económico para subornar pessoas que na maioria dos casos estão com meses de ordenados em atraso.

"Uma pessoa que não recebe há muitos meses pode cair na tentação de deixar passar droga por algum dinheiro. Esse é outro dos problemas que estamos a enfrentar neste momento", disse o director- geral da PJ guineense.

Segundo fontes citadas pela agência noticiosa da ONU, IRIN, aquela situação está a ameaçar a estabilidade do governo, porque os traficantes de droga estão a conseguir subornar funcionários de ministérios, militares e policias.

A debilidade das autoridades guineenses, da população e das infra-estruturas do país são a principal razão para a Guiné-Bissau se ter tornado numa "placa giratória" do mercado do tráfico de cocaína.

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