Bispo anglicano salienta "coragem" de Bento XVI e fala de pontificado "muito equilibrado"
Porto, 11 fev (Lusa) -- O responsável máximo pela Igreja Anglicana em Portugal, o bispo José Cabral, considerou hoje "positivo" que o Bento XVI tenha tido a "coragem" de resignar perante problemas de saúde e recorda o seu pontificado como "muito equilibrado".
Em declarações à Lusa, o líder da Igreja Lusitana, ramo português do Anglicanismo, salientou o fator "surpresa", porque esta é "uma situação que já não acontecia há muito", mas considerou que o anúncio é " positivo para a Igreja Católica" e para "o todo o contexto de relação desta com todas as Igrejas".
Para o bispo José Cabral, "o Papa, ao tomar esta atitude, procura criar condições para que outros lhe possam suceder" e, estando "questões de saúde e de cansaço na base desta decisão", é "uma decisão de grande dignidade e de grande coragem".
Instado a comentar o pontificado de Bento XVI, o bispo anglicano considerou-o "muito equilibrado, um pontificado de grande sensibilidade e humanidade, de um homem que procurou efetivamente servir a Igreja e abrir a Igreja aos grandes desafios que se colocam".
Entre estes desafios, que enfrentou "com grande coragem e com grande dignidade", José Cabral salientou "a relação e o diálogo da Igreja com a Cultura atual", mas também os problemas vividos no interior da própria instituição, "nomeadamente o problema da pedofilia e problemas de escândalos financeiros".
O bispo admite mesmo que "todas essas tensões e todas essas exigências que o cargo lhe trouxe também possam estar um bocadinho na origem desta decisão que hoje nos surpreendeu a todos".
O líder do ramo português da Igreja Anglicana não deixou de salientar ainda "o diálogo sempre aberto e frutuoso que Bento XVI teve com Rowan Williams [ex-responsável máximo dos anglicanos] ao longo destes anos de pontificado, um diálogo de grande respeito entre dois teólogos e que criou pontes de aproximação entre as comunhões".
Assinalando que foi durante o pontificado de Bento XVI que se criou o "Ordinariato pessoal", destinado a colher fiéis e membros do clero anglicano que quisessem ir para a Igreja Católica, José Cabral considera que esse foi "um ponto de alguma tensão entre as duas comunhões mas contrapõe que, decerto modo, conseguiu ser enquadrado num clima de diálogo e de aproximação entre os líderes das duas confissões".
Na agenda do sucessor de Bento XVI deve continuar, na opinião do líder da Igreja Lusitana, "o desafio do diálogo ecuménico" bem como "o desafio do diálogo interreligioso, no sentido de promover a paz entre as religiões e a paz no mundo" mas também "o desafio da Cultura moderna, que Bento XVI também soube continuara e, de certo modo. desenvolver e o desafio com a Ciência".
O Papa Bento XVI anunciou hoje, durante um consistório no Vaticano, a resignação a partir dia 28 de fevereiro, devido "à idade avançada".
Um novo Papa vai ser escolhido até à Páscoa, a 31 de março, indicou o porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi.