Boris Nadezhdin vai manter linha de oposição ao Kremlin

por Lusa

O opositor russo Boris Nadezhdin atribui à propaganda do Kremlin a vitória de Vladimir Putin nas eleições russas, às quais foi impedido de se candidatar, e pretende manter a linha seguida, evitando ser detido ou considerado "agente estrangeiro".

"A maioria da população da Rússia tem já uma certa idade e votou em Putin por duas razões: porque essa camada da população vê muita televisão, que transmite propaganda bem engendrada, e porque, com a chegada de Putin ao poder, o nível de vida da população russa melhorou consideravelmente", disse à Lusa o opositor russo.

Por outro lado, adiantou, "os jovens não apoiam [Putin], porque recorrem a outros canais de informação", mas o "problema é que estes nem sempre estão dispostos a participar nos actos eleitorais".

Como esperado, e na ausência de qualquer candidato que se opusesse às políticas do Kremlin, nomeadamente a invasão da Ucrânia, Vladimir Putin ganhou as últimas eleições de forma esmagadora: obteve o seu quinto mandato com mais de 87% dos votos, um número recorde, nas eleições presidenciais, indicou a Comissão Eleitoral Central da Rússia

O Supremo Tribunal da Rússia rejeitou um recurso de Nadezhdin, que se manifestou abertamente contra a guerra na Ucrânia, após a deliberação da Comissão Eleitoral Central que recusou a sua candidatura por irregularidades processuais.

Boris Nadezhdin é quase um veterano da política russa, mas graças à sua mensagem contra Vladimir Putin e a guerra na Ucrânia a sua candidatura às eleições presidenciais russas reuniu apoios e gerou entusiasmo popular, recolhendo mais de 100 mil assinaturas, número necessário para se registar oficialmente como candidato às eleições.

À Lusa, Nadezhdin rejeita liminarmente as informações da imprensa estatal de que a sua equipa se terá esquecido de entregar à Comissão Central Eleitoral uma lista com assinaturas em seu apoio.

"Não, não é verdade o que apareceu na imprensa. E vou prová-lo através de processos judiciais, nem que tenha de ir até ao Tribunal Constitucional", garantiu o político russo.

Para Nadezhdin, a sua vitória teria mudado o país, rumo à liberdade e paz, mas o facto de continuar a poder fazer oposição, ao contrário de outros opositores, é para si uma demonstração de que o caminho seguido é o certo.

"Só lhe posso dizer que a Rússia seria um país livre e pacífico", em caso de vitória, disse à Lusa.

"Há mais de 20 anos que escolhi a minha linha política e o facto de não estar atrás das grades nem constar da lista de `agentes estrangeiros` prova que nada há a alterar, que a orientação pela qual optei é a correcta, a mais acertada neste momento. Mais tarde se verá. Tudo depende de um grande número de fatores, como deverá compreender", adiantou.

Com a morte na prisão do mais destacado opositor russo, Alexei Navalny, e o mais jovem Vladimir Kara-Murza condenado no ano passado a 25 anos de cadeia, a oposição ao Kremlin debate-se com dificuldades para encontrar uma figura de referência, papel que cabe cada vez mais a Nadezhdin.

Nadezhdin possui destacada formação académica, em áreas tão distintas como Direito, Física e Matemática. Hoje com 60 anos, era já visto como um veterano, tendo integrado o governo russo em 1997-1998: primeiro, como assistente do então vice-primeiro-ministro, Boris Nemtsov; depois, como secretário do primeiro-ministro, Serguei Kirienko, que agora é o responsável por toda a política interna do país, incluindo as eleições presidenciais de março.

Em dezembro de 1999, Nadezhdin foi eleito para a Duma Estatal pela União das Forças de Direita, uma formação em que militavam Boris Nemtsov, mais tarde assassinado perto do Kremlin.

Em 2003, não conseguiu ser reeleito para a Duma Estatal e, como ele mesmo diz, assumiu a oposição a Putin, após a prisão do oligarca Mikhail Khodorkovsky.

Nadezhdin aponta agora outro nome na oposição ao Kremlin, após a morte de Navalny, em 16 de fevereiro numa prisão no Ártico.

"É difícil dizer se [Navalny] era o principal opositor. Ele estava preso e agora há Ilia Iachine", ex-colaborador de Navalny crítico do conflito na Ucrânia e preso desde 2022 por divulgar "informação falsa sobre o Exército", sublinha Nadezhdin.

O opositor revelou ter participado do funeral de Navalny e salienta a grande mobilização da população moscovita.

"Eu fui ao funeral e calculei que pelo menos 10 mil pessoas foram despedir-se de Navalny", adiantou.

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