Brasil. Ameaças de golpe bolsonarista preocupam a Casa Branca

por RTP
António Lacerda, EPA

Ao contrário do que tem sucedido ao longo de várias décadas, a Casa Branca tem dado recentemente vários sinais de considerar mais preocupante um golpe de Estado da direita para se manter no poder do que um regresso de Lula à presidência, após a vitória eleitoral que as sondagens amplamente anunciam.

O motivo de preocupação da Casa Branca não é tanto o de ter no Palácio do Planalto um presidente nostálgico de Donald Trump, mas principalmente o da espiral de violência que poderia desencadear-se no Brasil se Bolsonaro passasse a vias de facto as suas repetidas ameaças de não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.

Por enquanto, essa violência tem-se exercido quase exclusivamente da direita contra a esquerda e um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro calcula em 40 o número de homicídios por motivos políticos no primeiro semestre deste ano, sendo quase todas as vítimas militantes pêtistas. Mas essa violência poderia alastrar perigosamente a uma guerra civil de desfecho incerto num cenário em que Bolsonaro reiterasse o seu questionamento da validade do voto eletrónico para impugnar a vitória de Lula nas eleições de hoje, 2 de outubro, ou para impugnar a vantagem de Lula e inviabilizar assim uma segunda volta a 30 de outubro.

Antecipando esse cenário, o chefe da CIA, William Burns, deslocara-se a Brasília em meados do ano passado para significar a Bolsonaro a importância de respeitar as regras eleitorais. Entre ambos realizaram-se várias reuniões que na altura permaneceram secretas e que só em maio de 2022 vieram a ser confirmadas publicamente.

As admoestações de Burn pouco parecem ter impressionado Bolsonaro, que em julho deste ano se reuniu com quatro dezenas de embaixadores estrangeiros acreditados em Brasília e aí pôs em causa a validade do voto eletrónico, insinuando uma acusação de fraude contra qualquer vitória eleitoral de Lula, em clara imitação da táctica de impugnação levada a cabo por Trump e que conduziu à tentativa golpista, com assalto ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.

Depois do fracasso de Burns em moderar os ímpetos de Bolsonaro, a Casa Branca empurrou para a primeira linha do diálogo com o Brasil o secretário da Defesa, Lloyd Austin, que tomaria como destinatários os altos comandos das Forças Armadas e não já o intratável presidente. E, num plano mais discreto, passaram também a intervir o secretário de Estado Antony Blinken e  o presidente do Conselho Nacional de Segurança, Jake Sullivan.

A nível da opinião pública norte-americana, notou-se também alguma movimentação. Oito antigos secretários da Defesa e cinco antigos líderes militares publicaram uma carta aberta ao alto comando das Forças Armadas brasileiras, incitando-o a respeitar o resultado eleitoral. E quatro dezenas de parlamentares democratas de ambas as câmaras enviaram uma carta a Biden, pedindo-lhe que em caso de golpe isole o Brasil e lhe retire o estatuto de membro pleno da NATO, bem como o apoio norte-americano à candidatura do Brasil à OCDE.

Paralelamente, o candidato pêtista Lula da Silva teve há dez dias uma reunião com o encarregado de negócios norte-americano Douglas Koneff, da qual pouco transpirou para a imprensa, mas que não deixa de ser em si mesma um facto raro e significativo.
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