EM DIRETO
Guerra no Médio Oriente. Acompanhe aqui, ao minuto, a evolução do conflito

Brasil. Proibição de telemóveis deu às crianças dois meses extra de aprendizagem

Brasil. Proibição de telemóveis deu às crianças dois meses extra de aprendizagem

Os alunos da rede municipal do Rio de Janeiro, do 6.º ao 9.º ano, aprenderam 25,7% mais Matemática e 13,5% mais Língua Portuguesa num único ano letivo. O segredo? Não ter o telemóvel consigo na escola. Os dados são de um estudo inédito da Universidade de Stanford (EUA) e confirmam que a proibição não só melhorou o rendimento escolar, como melhorou a socialização e reduziu a indisciplina.

Daniel Catalão - Correspondente da RTP no Brasil /

A experiência pioneira do Rio de Janeiro começou em 2024 com um decreto local e alargou-se a todo o país através de legislação federal que começou a ser aplicada em 2025.

Para aferir se houve dividendos provenientes da proibição total dos telemóveis foi feito um estudo pela Universidade de Stanford. A investigação revela que a restrição total — dentro e fora da sala de aula — gerou um ganho médio de aprendizagem equivalente a dois meses a mais por ano letivo.
Menos ecrãs, mais aproveitamento
Sob a coordenação do investigador Guilherme Lichand, da Graduate School of Education de Stanford, a avaliação quantitativa abrangeu 919 escolas (cerca de 90% da rede municipal). A metodologia isolou o efeito da proibição de outras variáveis para garantir que a melhoria resultou, de facto, da ausência dos smartphones.

Os resultados de 2024 são esclarecedores:
• Matemática: Um salto de 25,7% na aprendizagem.
• Língua Portuguesa: Um crescimento de 13,5%.
• Consolidação: Os ganhos aumentaram bimestre após bimestre, sugerindo que quanto mais tempo o aluno passa longe do aparelho, maior é a sua capacidade de absorção de conhecimento.

“Os ganhos de aprendizagem são relevantes”, afirmou Lichand à RTP, salientando que conseguiram concluir que “o celular e a aprendizagem não andam juntos”.

A diretora do Ginásio Educacional Olímpico Martin Luther King reforça a ideia dos ganhos após a entrada em vigor da legislação. E revela que esta escola foi a primeira a implementar a medida porque já estava a tentar aplicar as restrições de forma experimental.

Assim, logo que a lei viu a luz do dia, executaram-na de imediato e arranjaram umas caixas de plástico para os alunos depositarem os telemóveis logo que chegam à escola. No início, ficavam cheias, segundo conta Fernanda Heitor, mas agora, já são muito poucos os que levam os aparelhos. No dia em que visitámos esta escola, a caixa do 9º ano, por exemplo, só tinha um telefone.

As exceções admissíveis são para fins pedagógicos quando houver autorização expressa do professor para pesquisas, leituras, acesso ao material educativo oficial ou qualquer outro conteúdo ou serviço. E para os alunos com deficiência ou com condições de saúde que necessitam destes dispositivos para monitorização da sua condição.
Do Rio para o todo o Brasil
A semente desta mudança foi lançada em 2023, após a UNESCO publicar um relatório global alertando para os prejuízos dos ecrãs na concentração. Logo em agosto desse ano, a Prefeitura do Rio baniu os telemóveis durante as aulas.

Mas a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro quis ir mais longe e fez uma consulta pública em dezembro de 2023 que mudou o jogo. Com mais de 10 mil contribuições, a esmagadora maioria da sociedade civil pediu o alargamento da proibição para os recreios e intervalos. Assim, em 2024, o Rio tornou-se a primeira capital a "desligar" as escolas durante todo o período escolar.

Este pioneirismo serviu de base para a iniciativa de Renan Ferreirinha, Secretário de Educação do Rio, que enquanto Deputado Federal foi o relator da lei nacional que hoje rege todas as escolas do Brasil.

A proibição está sustentada na ideia simples de que “regras e limites são fundamentais para uma boa educação”. Como tal, Ferreirinha afirma-se um lutador pela atenção dos alunos porque “a escola tem que fazer sentido e, para fazer sentido, o aluno tem que estar presente”.

“Sem celular, sobra tempo para conviver e estudar. São dois aspectos fundamentais do desenvolvimento de qualquer ser humano”, remata.
O Secretário de Educação do Rio de Janeiro salienta que “a escola é local da criança estar estudando, estar brincando, estar se divertindo, correndo, caindo, levantando, sendo criança. E quando ela está recebendo notificações, ela está saindo da sala de aula. Quando ela está isolada na própria tela, ela não está interagindo com os amigos”.

Os estudantes dão-lhe razão, depois de uma resistência inicial.

Théo Souza, de 10 anos, é assertivo: “O celular normalmente fica tirando a nossa atenção. E a gente precisa de atenção para estudar”.

E Kamilly Marques, 15 anos, destaca que a socialização melhorou muito porque fazem mais amigos e convivem com mais pessoas. Antes da proibição, lembra, cada um estava isolado num canto agarrado ao telemóvel, muitas vezes, a falar com outros alunos ali ao lado.

“A gente deixou de ser zumbi para virar gente. A gente age com mais humanidade. A gente aprendeu a viver com o próximo de novo. Então é muito melhor”, declara.

A diretora da escola afirma que até a forma de falar dos jovens melhorou depois de os telemóveis terem sido banidos do ambiente escolar.
Foto: Unsplach
Mais atenção, menos bullying
Para além das notas, a qualidade de vida escolar deu um salto qualitativo. Uma pesquisa da Frente Parlamentar da Educação, em conjunto com o Equidade.Info (Lemann Center/Stanford), ouviu quase três mil alunos e gestores:
• 86% dos alunos notaram uma melhoria no comportamento geral da turma.
• 83% dos estudantes admitem que prestam mais atenção ao que o professor diz.
• 77% dos gestores relataram uma queda nos episódios de bullying digital, uma vez que o palco das ofensas imediatas foi removido do ambiente escolar

Foto: Unsplach
A Nova Fronteira: Redes Sociais aos 16 Anos
O sucesso nas escolas encorajou novos passos na proteção da infância e Renan Ferreirinha já apresentou um projeto de lei para alterar o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente propondo a idade mínima de 16 anos para o uso de redes sociais de acesso aberto.

“Não é normal um criança ter crise de ansiedade e diagnóstico de depressão porque não consegue largar o celular”, avisa o secretário carioca de educação frisando que as plataformas sabem que possuem um produto “que gera vício e dependência”.

Ferreirinha defende que “não dá para esperar” que sejam essas plataformas a regular a situação pelo que é preciso “salvar a infância das nossas crianças” para garantir que os anos de infância e adolescência ocorram no “mundo real antes de um transição adequada para o mundo virtual”.

E é mais enfático quando fala dos riscos de predadores sexuais à solta nas redes, que praticam “os crimes mais absurdos possíveis, fingindo serem outras crianças e adolescentes, quando na verdade são adultos nojentos”.

A proposta prevê que plataformas educacionais e de mensagens privadas (como o WhatsApp) continuem permitidas sob supervisão parental, mas restringe o acesso a redes de algoritmos viciantes e exposição pública para menores de 16. A medida pretende alinhar o Brasil com países como Austrália, França e Espanha.
PUB