Brasil vive "calamidade de mortes maternas" devido à Covid-19

por Inês Moreira Santos - RTP
Reuters

Desde o início da pandemia já morreram, no Brasil, pelo menos 803 mulheres grávidas e puérperas devido à Covid-19. Mais da metade desses óbitos, cerca de 430, foram registados este ano, segundo o Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 (OOBr Covid-19). Agora o Governo brasileiro começa a apelar à população que, perante esta crise pandémica, adiem se possível, novas gravidezes.

Nas últimas semanas, a imprensa brasileira começou a relatar vários casos de mulheres jovens, grávidas ou acabadas de ser mães, que morreram devido à infeção provocada pelo novo coronavírus. A preocupação com o risco que a Covid-19 representa para mulheres grávidas e puérperas tem-se estendido por todo o mundo, incluindo no Reino Unido, onde vários médicos relataram um aumento dos internamentos de grávidas e pós-parturientes em Unidades de Cuidados Intensivos.

Mas a situação no Brasil é particularmente alarmante, avança o Guardian, e as autoridades de saúde começaram a pedir a todas as grávidas para adiarem as gravidezes, se possível, até que diminua a incidência do surto no país.

"Estamos a enfrentar uma calamidade de mortes maternas", afirmou ao jornal britânico Carla Andreucci, obstetra brasileira. "Há mulheres a morrerem porque não tem cama nos Cuidados Intensivos, nem ventilador, nem intubação. É como se estivéssemo parados a assistir ao que está a acontecer".

Em julho de 2020, a equipa de especialistas de Andreucci divulgou um estudo que revelava que 77,5 por cento das mortes maternas devido à Covid-19 ocorreram num país da América do Sul, embora países menos desenvolvidos não tenham divulgado dados sobre isso.

Um relatório do Observatório Obstétrico Brasileiro covid-19 mostrou que a média semanal de óbitos causados pela doença aumentou 62 por cento este ano na população em geral enquanto entre gestantes e puérperas o crescimento foi de 186 por cento.

"Mulheres grávidas infetadas por covid-19 têm maior risco de evoluir mal e necessitar de cuidados intensivos, intubação, o que também se torna um risco para a gravidez"
, frisou à Efe a professora e médica Rossana Pulcineli Vieira Francisco, uma das criadoras do Observatório Obstétrico Brasileiro covid-19.

A investigadora explicou que devido às mudanças fisiológicas no organismo durante a gravidez, as gestantes e puérperas estão mais expostas a riscos de infeção e a desenvolver complicações.
Variantes e colapso do sistema de saúde
Segundo os investigadores, há vários fatores que podem explicar o aumento de mortes maternas no Brasil devido à infeção. Uma das principais justificações dos especialistas é o colapso no sistema de saúde no país.

O acesso inadequado aos cuidados pré-natais e de planeamento familiar são problemas antigos do sistema de saúde pública do Brasil, que já antes da pandemia apresentava taxas de mortalidade materna três vezes superiores à média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico).

Rossana Pulcineli Vieira Francisco destacou que uma em cada cinco gestantes que desenvolveram casos graves de covid-19 não tiveram acesso à camas de tratamento intensivo nos hospitais do país, que estão a beira do colapso em razão da pandemia.

"A alta mortalidade dessa população é consequência de um colapso e da fragilidade do sistema de saúde para a atenção à saúde da gestante, que foi agravado pelo aumento da demanda causada pela covid-19", disse.

Outra das causas apontadas para o aumento de grávidas e puérperas que adoecem e morrem com Covid-19 é a existência de novas estirpes do SARS-CoV-2.

Algumas novas variantes do coronavírus, como a variante P1 ligada à Amazónia brasileira, também podem ser responsáveis
, embora ainda não haja dados suficientes que o provem.

"Não temos testes genéticos, mas acreditamos que o surto provocado pela P1 em janeiro teve um papel importante nesta catástrofe", disse Andreucci, acrescentando que o perfil das vítimas mudou nos últimos meses.

Em 2020, a maioria das mortes reportadas eram de mulheres não brancas de regiões pobres e, normalmente, com fatores de risco associados, como diabetes, obesidade e doenças cardiovasculares. Agora em 2021, a maioria deste óbitos são de mulheres brancas e sem doenças adjacentes.

Perante o alarme com o aumento de mortes maternas, o Ministério brasileiro da Saúde decidiu, na semana passada, que as grávidas e puérperas seriam incluídas no grupo prioritário para a vacinação contra a Covid-19, começando pelas grávidas com doenças e fatores de risco associados.

"O risco de não vacinar gestantes no país já justifica a inclusão desse grupo para se tornar um grupo de vacinação neste momento", informaram as autoridades.

A vacinação deve começar a partir do dia 13 de maio, segundo anunciou o Ministério em comunicado. No entanto, até agora menos de dez por cento dos brasileiros foram vacinados com as duas doses de vacina, o que significa que a maioria das mulheres grávidas terá de enfrentar uma longa fila de espera.

Entretanto, a deputada brasileira Sâmia Bomfim, grávida de sete meses do primeiro filho, propôs uma nova legislação para permitir que as gestantes trabalhem em casa durante a pandemia.

"Consigo isolar-me socialmente e trabalhar em casa, mas a maioria das grávidas no Brasil não tem esse privilégio"
, afirmou Bomfim.

Raíssa Perlingeiro, especialista em doenças infecciosas do centro de Covid no Rio de Janeiro, disse que nos últimos três meses, com a intensificação do surto no Brasil, a unidade de saúde onde trabalha esteve sempre lotada e os turnos mais exigentes. Segundo a médica, os pacientes começaram a chegar com sintomas mais graves e em condições mais debilitadas do que antes.

"É um trabalho muito difícil e é muito complicado ver as mulheres passarem por isso - principalmente porque eu mesma estou grávida de sete meses"
, disse Perlingeiro, de 32 anos, que explicou ao jornal que decidiu continuar a trabalhar depois de ser vacinada.

"Não podia estar ausente do trabalho num momento tão difícil, a equipa já é pequena", afirmou. "Eu tenho de fazer a minha parte".

Só entre janeiro e abril de 2021, 433 gestantes ou puérperas perderam a vida infetadas por covid-19, número muito elevado quando comparado aos 546 óbitos registados nestes grupos em todo o ano passado, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde brasileiro.

No meio do avanço da pandemia e com o surgimento de novas estirpes do vírus SARS-CoV-2, o Governo brasileiro recomendou recentemente que as mulheres, se possível, adiem seus planos de gravidez.

Com mais de 210 milhões de habitantes, o Brasil tem uma taxa de mortalidade materna de 55 mulheres por 100 mil nascimentos, índice muito superior ao ideal estipulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 20 óbitos por 100.000 nascimentos.
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