Brasília lambe as feridas no regresso à normalidade possível
Brasilia, a capital brasileira, procura recuperar a normalidade possível, lambendo as feridas da destruição causada pelos manifestantes radicais que no domingo atacaram o coração do poder do Brasil.
"Ainda estamos um pouco assustados com tudo o que aconteceu, mas a vida e o trabalho não param", conta à Lusa Roberta Carvalho, uma brasiliense de raiz, de 38 anos, que trabalha na rodoviária da capital. De lá, no domingo, viu centenas de radicais a seguirem rumo à destruição e vandalismo, na busca de quebrar o espírito democrático do país.
Não conseguiram. E a cidade tenta agora, aos poucos, recuperar.
Desde a manhã seguinte aos ataques terrorista, a Esplanada dos Ministérios, que vai desde a rodoviária do Plano Piloto de Brasília até a Praça dos Três Poderes tem sido palco de uma limpeza intensa, vazia de público, num silêncio estranho, apenas interrompido com o som dos carros das forças de segurança.
Os dois quilómetros da Esplanada dos Ministérios estão totalmente vedados, assim como as suas ruas adjacentes. Chegar perto dos Três Poderes, que foram complementemos vandalizados, só com credenciais e autorizações.
Hoje, uma portaria assinada pelo ministro da Justiça, Flávio Dino ordenou a mobilização das polícias militares dos estados do Ceará, Bahia, Piauí, Alagoas, Rio Grande do Norte, Maranhão, Goiás e Rio Grande do Sul para apoiarem a Força Nacional no Distrito Federal.
"Como alguém que nasceu e se criou aqui, creio que é possível dizer que há uma enorme tristeza entre aqueles que aqui vivem com o ocorrido", diz à Lusa o historiador brasileiro Creomar de Sousa.
"Para além das eventuais falhas, omissões ou ineficácias que marcaram a tragédia ocorrida no domingo, fica em essência a perceção de que a história nacional foi vulgarizada a partir do vandalismo e da depredação ocorridas. Creio que o tempo e a eventual eficácia das apurações tende a diminuir a ferida aberta", observa o brasiliense, fundador da Consultoria de Análise de Risco Político Dharma.
Agora, do ponto de vista político, Creomar de Sousa exalta o facto de que houve a perceção no sistema político, como um todo, de que a linha foi atravessada. "As autoridades e representantes, mesmo alguns identificados com o ex-presidente, estão neste exato momento repudiando o ocorrido. Este consenso frágil em torno da negativa do ocorrido, deve guiar ações ao menos no curto prazo para lidar com as consequências do que se passou", sublinha.
No Planalto, no Congresso e do Supremo Tribunal Federal é tempo de reconstrução: o dano ao património público já chega aos três milhões de reais (540 mil euros) na Câmara dos Deputados, a quatro milhões de reais (710 mil euros) no Congresso e a pelo menos oito milhões de reais (1,43 milhões de euros) no Planalto.
No Planalto, por exemplo, os radicais danificaram um relógio de Balthazar Martinot, obras de arte de Di Cavalcanti e Bruno Giorgi, uma mesa de trabalho do ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek (1956-1961) e uma escultura de parede em madeira do artista plástico Frans Krajcberg.
De acordo com a TV Senado, as equipas do setor de conservação do Senado e da Câmara estão a fazer uma avaliação completa. Ainda não é possível ter um levantamento fechado de todos os objetos danificados, o custo e os prazos estimados para o restauro das obras de arte que compõem o acervo artístico e arquitetónico dos dois edifícios do Congresso Nacional.
Mas as obras já começaram, a limpeza também, e, mais importante, os trabalhos dos parlamentares. Hoje
À Lusa, o senador do Partido dos Trabalhadores pelo estado de Pernambuco, homem forte do núcleo duro de Lula da Silva e ex-ministro da Saúde, Humberto Costa, frisou que "é preciso mostrar que eles não conseguiram o intento deles".
"A vida que volte à normalidade para que essa normalidade seja alcançada. É preciso que haja essa recuperação, haja um processo contra esses terroristas e ao mesmo tempo que também haja a recuperação do património", sublinha.
Humberto Costa acredita ainda que é importante o trabalho legislativo não parar porque "as coisas precisam de estar funcionando para também passar essa sensação para as pessoas".
Apoiantes do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro invadiram e vandalizaram no domingo as sedes do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e do Palácio do Planalto, em Brasília, obrigando à intervenção policial para repor a ordem e suscitando a condenação da comunidade internacional.
A Polícia Militar conseguiu recuperar o controlo das sedes dos três poderes, numa operação de que resultaram cerca de 1.500 detidos.
A invasão começou depois de militantes da extrema-direita brasileira apoiantes do anterior presidente, derrotado por Lula da Silva nas eleições de outubro passado, terem convocado um protesto para a Esplanada dos Ministérios.
Entretanto, o juiz do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes afastou o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, por 90 dias, considerando que tanto o governador como o ex-secretário de Segurança e antigo ministro da Justiça de Bolsonaro Anderson Torres terão atuado com negligência e omissão.