Cabo-verdianos veem EUA mais longe após limitações a vistos de entrada
Cabo-verdianos com diferentes responsabilidades ouvidos hoje pela Lusa dizem que as limitações impostas pelos EUA a Cabo Verde para emissão de vistos vão dificultar a ligação a um dos maiores destinos da diáspora.
"Já tínhamos planos para um voo `charter` [avião fretado]" para apoiar a seleção cabo-verdiana no Mundial de futebol, nos EUA, em junho, "mas, com estas medidas, não será possível realizá-lo", disse a presidente da Associação de Agências de Viagens e Turismo, Marvela Rodrigues.
A exigência de cauções para vistos de negócios ou turismo, assim como a suspensão da emissão de vistos de emigração, entraram em vigor na quarta-feira e aquela responsável prevê um impacto negativo na circulação.
São medidas que prejudicam "quem tem o sonho americano", disse Carlos Silva, secretário executivo da Associação Cabo-verdiana de Brockton, onde vive uma grande comunidade, nos arredores de Boston.
Quem pretende visitar os Estados Unidos "fica limitado", pois poucos têm recursos para pagar uma caução que pode ir até 15.000 dólares (12.876 euros), referiu.
A associação está a orientar os conterrâneos que colocam questões e a reunir-se com outras entidades cívicas, igrejas, associações e com o consulado de Cabo Verde em Massachusetts para reunir o máximo de informação.
Carlos Silva considerou que as medidas afetam Cabo Verde em várias vertentes - económica, social e cultural - e podem provocar "uma reviravolta" em muitas vidas.
Por outro lado, e em linha com a opinião da Associação de Agências de Viagens e Turismo, a associação lamenta que as restrições surjam a par da participação do arquipélago no Mundial de futebol.
"Seria um sonho de muitos poder assistir ou participar nos jogos, mas, com estas novas regras, tudo vai mudar", disse.
"Não sabemos se haverá outras medidas. Por isso, é necessário preparar a comunidade para novos desafios e alertar todos para investirem em Cabo Verde", afirmou.
O sociólogo cabo-verdiano Henrique Varela disse à Lusa, na cidade da Praia, capital, que estas medidas podem gerar frustração em quem sempre sonhou com uma vida melhor nos EUA ou em juntar-se à família que já lá reside.
"Pode ser uma forma de os cabo-verdianos tomarem consciência de que há oportunidades noutros países com menos burocracia. Hoje em dia, o mundo apresenta várias inquietações e é natural surgirem exigências face à mobilidade", referiu.
Acrescentou ainda que o "sonho americano permanece", mas exige agora mais tempo, recursos e perseverança e que a médio prazo "poderá haver uma ligeira diminuição" na procura de vistos.
Os EUA justificam as medidas para garantir que os visitantes não permaneçam além do prazo dos vistos ou que quem emigra para o país não se torne num "encargo público".
O Governo cabo-verdiano considerou que as consequências são graves.
"Num espaço de 15 dias, a atual administração dos Estados Unidos tomou duas decisões que afetam de modo grave os cidadãos de Cabo Verde na sua expetativa de mobilidade entre os dois países", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde, José Luís Livramento, em 15 de janeiro.
O governante recordou que a legislação norte-americana já exigia aos candidatos à residência permanente provas de que não seriam um encargo, bem como a realização de exame médico por especialista, aprovado pela embaixada.
"Agora juntam-se novas exigências, políticas e regulamentos", apontou, referindo que o Governo de Cabo Verde vai trabalhar com os Estados Unidos para retomar a normalidade na mobilidade o mais rapidamente possível.