Câmaras indiscretas. Tesla em silêncio sobre alegada violação de privacidade através de veículos

A Tesla continua sem reagir, quatro dias depois, a denúncias sobre a partilha de imagens da vida de clientes, por parte de funcionários que a elas tinham acesso e à revelia de todas as garantias de respeito pela privacidade dadas pela construtora automóvel.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Câmara num veículo Tesla exposto em Xangai, China, em abril de 2021 Reuters

As imagens foram captadas sem aparente conhecimento dos visados, através das oito câmaras de assistência à condução instaladas nos veículos.

Na sua página da rede Twitter, a Tesla ignorava completamente o problema até esta segunda-feira. E não foi publicado qualquer comunicado oficial ou dada resposta às inquirições da agência de notícias Reuters, que divulgou a informação, confirmada por nove antigos funcionários.

A notícia revelou que grupos de funcionários da Tesla publicavam entre si imagens e vídeos tão diversos como um homem completamente nu a aproximar-se do seu carro até um acidente a alta velocidade entre o condutor e uma criança na sua bicicleta, numa zona residencial, em 2021.

"A criança foi para um lado, a bicicleta para outro", referiu a agência de notícias no artigo publicado a seis de abril. O vídeo do acidente espalhou-se "como fogo" nos escritórios da Tesla em San Mateo, Califórnia, através da rede privada de mensagens dos funcionários, afirmou uma das fontes citadas pela Reuters.

A maioria das imagens, publicadas apenas na rede interna da Tesla, a Mattermost, era contudo inócua, como cães, pessoas a cair ou curiosidades captadas pelas câmaras.

As partilhas, muitas vezes sob a forma de memes, visavam sobretudo o divertimento interno de pessoas contratadas para analisar os vídeos e classificar o que estes mostravam, por forma a educar o programa de condução autónoma da Tesla.

A empresa garante aos milhões de donos dos seus veículos elétricos que a sua privacidade "é e será sempre da maior importância para nós". As câmaras que instala nos carros para assistir a condução, refere, são "desenhadas desde o início para proteger a sua privacidade".

Garantias violadas pelos empregados da empresa, pelo menos entre 2019 e 2022, de acordo com a Reuters.


Algumas publicações eram partilhadas apenas entre dois funcionários mas outras, como a do acidente com a criança, podiam chegar a dezenas deles, referiram vários dos ex-empregados da Tesla à Reuters.
Câmaras indiscretas
Pelo menos um habitante de São Francisco interpôs já uma ação judicial contra a companhia, por "violação de privacidade da família".

Henry Yeh possui um Modelo Y da Tesla e alegou na ação, interposta sexta-feira passada, que os funcionários da empresa puderam aceder a imagens e vídeos para seu "entretenimento" e para "humilhação daqueles gravados sem o seu conhecimento".

O seu advogado, Jack Fitzgerald, lembrou que a Constituição da Califórnia protege “escrupulosamente” a privacidade da família. "Yeh ficou indignado com a ideia que as câmaras da Tesla poderiam ser utilizadas para a violar", afirmou à Reuters.

Esta não é a primeira vez que as câmaras instaladas nos Tesla causam problemas quanto à recolha de informações.

Nos Países Baixos, a Agência de Proteção de Dados questionou o programa Sentry Mode, usado para vigiar o ambiente e alertar o proprietário de um Tesla para eventuais roubos, colocando em questão a possibilidade de transeuntes insuspeitos ou de pessoas dentro de suas casas poderem ser filmados, quando os veículos estivessem estacionados.

A Agência decidiu contudo que seriam os condutores e não a Tesla, a serem responsabilizados legalmente por tais gravações.

na China, os Tesla foram banidos em algumas áreas governamentais e residenciais, por receios de espionagem.

A denúncia da Reuters pode atingir as vendas da Tesla numa altura em que a companhia tem estado a baixar os preços de alguns dos seus veículos nos Estados Unidos, devido à anunciada revisão em baixa dos subsídios à compra de carros elétricos.

Desde janeiro foram anunciadas cinco reduções, entre dois e seis por cento no total, de mil dólares nos Model 3 sedan e Model Y crossover e de 5.000 dólares nos mais dispendiosos Model S e Model X. Alguns analistas afirmam que estas baixas de preço poderão atingir negativamente a rentabilidade destes modelos.
Educar o Autopilot
Apesar da partilha interna, não é claro até que ponto ou de que forma a Tesla poderá vir a ser legalmente responsabilizada por violação de privacidade, uma vez que nenhum dos vídeos ou imagens referidos no artigo da Reuters foi divulgado ao grande público e a própria agência noticiosa não teve acesso a qualquer deles.

A empresa avisa quem compra um dos seus produtos que, se o consentir, o seu veículo poderá "coligir dados", incluindo "pequenos vídeos", que serão fornecidos "para análise" por parte da Tesla, sem qualquer ligação pessoal ao proprietário ou à identificação do veículo. Não é óbvio de que forma a Tesla garante o respeito pela cláusula de consentimento ou se os proprietários têm consciência da extensão dos dados recolhidos.

A questão é mais um problema de como a tecnologia atual pode ser utilizada sem qualquer controlo quanto à forma como os dados são recolhidos e utilizados.

Devido à falta de reação ou de resposta da Tesla ao artigo da Reuters, é impossível para já saber que medidas, se algumas, tomou a empresa para evitar as partilhas indevidas referenciadas.

A Tesla afirma recolher e estudar milhões de dados obtidos pelos veículos através de sensores, de sonar e de radar, para auxiliar o seu projeto de condução autónoma, intitulado Autopilot, cuja afinação tem sido complicada, tendo resultado em diversos acidentes.

Depois de uma tentativa de outsourcing em África, a Tesla optou por treinar um milhar de pessoas na classificação dos conteúdos das imagens, para educar o Autopilot nalgumas situações, como estacionamento, esperando que este venha a, eventualmente, poder substituir os condutores humanos.

Em 2016, a empresa passou a disponibilizar para esse fim igualmente as imagens captadas pelas câmaras dos veículos.

A certa altura, Teslas em Autopilot tiveram problemas em sair de garagens e ficavam confusos por sombras ou objetos como mangueiras. Foi então pedido a alguns classificadores de dados que identificassem objetos dentro das garagens. O problema acabou por ficar resolvido.

"Vi às vezes coisas escandalosas, vi cenas íntimas mas não nudez", afirmou à Reuters um ex-funcionário. "E havia muitas coisas que eu não quereria que ninguém soubesse sobre a minha vida", como objetos "embaraçosos", roupa íntima, e "cenas de vida privada a que tínhamos acesso porque o carro estava a carregar".

"Às vezes pensava se as pessoas sabiam que nós estávamos a vê-las", acrescentou.
Partilha em roda livre
Nos escritórios da Tesla em San Mateo, onde parte desta análise decorre, a maioria dos funcionários tem entre 20 e 30 anos e partilha uma cultura de memes divertidos e conteúdos virais, refere a agência noticiosa.

Ex-empregados testemunharam à Reuters a existência de uma atmosfera de diversão sem controlo nas salas de chat, com os funcionários a partilhar piadas sobre as imagens que estavam a ver enquanto as classificavam.

Entre si, "para quebrar a monotonia", isolavam imagens e marcavam-nas com emojis ou expressões, para atrair a atenção dos colegas ou dos supervisores. "Se se visse algo fixe, publicava-se e depois, num intervalo, alguém se aproximava e dizia Oh vi o que publicaste, era divertido", explicou à Reuters um destes antigos funcionários.

"As pessoas que eram promovidas a posições de chefia partilhavam muitos destes conteúdos e chamavam a atenção por serem divertidos", acrescentou.

Nem sempre as imagens eram normais. Havia pessoas arrastadas contra vontade para dentro de veículos, acidentes, colisões, má condução. Alguns dos funcionários abrandavam o ritmo dos vídeos para verem bem toda a ocorrência.

A empresa também não era indiferente a esta cultura e por várias vezes tentou pôr-lhe freio citando a política de privacidade, reconheceram as fontes à Reuters, mas as imagens de computador e os memes continuavam a circular pelo menos em meados de 2022.
O caso Wet Nellie
“Podíamos ver o que as pessoas tinham nas suas garagens e propriedades privadas”, referiu um ex-funcionário, e “se fosse diferente, as pessoas publicavam-no”.

Uma dessas curiosidades foi um veículo submersível único, estacionado dentro de uma garagem, um Lotus Esprit branco batizado Wet Nellie usado em 1977 no filme de James Bond 007 Agente Irresistível (The Spy who Loved Me).

O dono do Wet Nellie é o próprio Elon Musk, fundador e presidente executivo da Tesla, que o adquiriu num leilão em 2013, por 968 mil dólares. A Reuters referiu ignorar se o próprio Musk sabe que as imagens da sua garagem foram captadas e partilhadas.

A Tesla garante também que "as gravações das câmaras se mantêm anónimas e não são ligadas a si ou ao seu veículo", mas sete dos ex-funcionários afirmaram também à Reuters que o programa de computador que usavam habitualmente podia revelar a localização das gravações e, potencialmente, a morada do proprietário de um Tesla através do Google Maps.

Nem Elon Musk nem a Tesla responderam a pedidos de reação da Reuters.

A agência contactou mais de 300 ex-funcionários da Tesla que trabalharam para a empresa nos últimos nove anos no setor de desenvolvimento do Autopliot. Cerca de uma dúzia aceitou responder, sob anonimato. Alguns referiram que apenas partilharam imagens legitimamente, para pedir ajuda a colegas ou a supervisores.

A Reuters não conseguiu obter quaisquer conteúdos partilhados, que as suas fontes não guardaram. E ignora se a prática, registada até ao ano transato, se mantém dentro da empresa e até que ponto.
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