Camberra aumenta nível de alerta a deslocações à Indonésia
O governo da Austrália advertiu hoje para um aumento do risco na deslocação de cidadãos australianos à Indonésia, um dia após o incidente com um governante indonésio em Sidney, onde se deslocara em visita oficial.
O incidente ocorreu quarta-feira quando a polícia australiana irrompeu no quarto de um hotel onde se encontrava o governador de Jacarta, Sutiyoso, depois de uma ordem nesse sentido do tribunal que investiga a morte de cinco jornalistas em Balibó, em Outubro de 1975.
Sutiyoso, potencial candidato às presidenciais indonésias de 2009, recusou-se a deslocar ao tribunal e o incidente foi amplamente divulgado na Indonésia, após o que centenas de pessoas se juntaram defronte da embaixada da Austrália em Jacarta, onde gritaram palavras de ordem anti-australianas.
"Manifestações políticas ou de outro cariz ocorrem com frequência na Indonésia. (Os cidadãos australianos) devem evitar esses eventos, uma vez que podem degenerar, de um momento para o outro, em actos de violência", lê-se no comunicado do governo de Camberra.
O primeiro-ministro australiano, John Howard, já desdramatizou o incidente, sublinhando que as relações entre os dois países são "fortes e robustas" e que o que sucedeu em Sidney "não as porá em causa".
Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio, Hassan Wirayuda, indicou já que o seu governo está a considerar a possibilidade de "retaliar" contra a "acção inaceitável" de forçar Sutiyoso a testemunhar no tribunal, tendo já convocado ao seu gabinete o embaixador australiano, Bill Farmer, a quem entregou um protesto formal.
Segundo a imprensa australiana, Bill Farmer pediu desculpa pelo "desagradável incidente", considerando ainda que a polícia australiana teve uma conduta "inaceitável".
O incidente ocorreu no mesmo dia em que MNark Tedeschi, líder da investigação à morte dos cinco jornalistas - dois australianos, dois britânicos e um neo-zelandês -, sublinhou que as provas apresentadas no tribunal demonstraram que todos eles foram assassinados pelas tropas indonésias.
No tribunal, que investiga a morte de Brian Peters, um dos jornalistas em causa, Tedeschi explicou que os jornalistas tentaram entregar-se às tropas do capitão Yunus Yosfiah, numa praça da localidade de Balibó, próximo da fronteira com a Indonésia, a 16 de Outubro de 1975.
"Yosfiah também disparou contra os jornalistas", acrescenta Tedeschi nas suas conclusões, baseadas nas provas apresentadas pela investigação, iniciada em Fevereiro último e apresentadas ao tribunal presidido pela juíza Dorelle Pinch.
Além do jornalista português Adelino Gomes, que também se encontrava na área mas não foi apanhado pelas tropas de Jacarta, os britânicos Brian Peters e Malcolm Rennie, os australianos Greg Shackleton e Tony Stewart e o neozelandês Gary Cunningham foram os únicos profissionais da comunicação social estrangeiros que estavam em Timor-Leste no início da invasão indonésia.
Oficialmente, a Indonésia defendeu sempre que os cinco jornalistas foram apanhados no meio de fogo cruzado entre o Exército de Jacarta e dos independentistas timorenses em Balibó, onde começou a invasão.
A versão foi desmentida durante a investigação, disse Tedeschi, "graças ao testemunho de vários indonésios, timorenses e australianos".
A antiga colónia portuguesa foi formalmente anexada pela Indonésia em 1976. Em 1999, Timor-Leste levou a cabo um referendo de autodeterminação, conseguindo obter a vitória do "sim" à independência.
No entanto, Jacarta só viria a retirar-se do país após a onda de violência que se registou antes e depois do referendo, incidentes que destruíram quase todas as infra-estruturas do território, o que forçou a entrada de tropas das Nações Unidas.