Campanha eleitoral para parlamento de Macau arranca sábado, marcada pelas exclusões

A campanha eleitoral para o parlamento de Macau arranca sábado, com analistas a afirmarem à Lusa que é marcada pela frustração dos jovens com a desqualificação de 12 candidatos, que poderá afetar a abstenção.

Lusa /

A Comissão da Defesa da Segurança do Estado excluiu em julho todos os 12 candidatos de duas listas, considerando-os "não defensores da Lei Básica [a `mini-Constituição` de Macau] ou não fiéis" à região semiautónoma chinesa.

O comentador político Sonny Lo Shiu-Hing disse que "os liberais da classe média, os eleitores mais jovens (...), podem estar frustrados com a desqualificação de candidatos relativamente liberais e moderados".

A exclusão abrangeu a lista Força da Livelihood Popular em Macau, liderada pelo assistente social Alberto Wong, e a lista Poder da Sinergia, do ainda deputado Ron Lam U Tou, uma das vozes mais críticas do Governo na Assembleia Legislativa (AL).

"Nas redes sociais -- Facebook, Twitter -- muitos eleitores e jovens questionam porque foram desqualificados", sublinhou Sonny Lo.

Em julho, o presidente da Comissão de Assuntos Eleitorais da AL, Seng Ioi Man, recusou-se a revelar os factos que levaram à exclusão, defendendo que isso poderia "representar certos riscos para a segurança nacional".

A desqualificação foi "um pouco surpreendente" e criou "uma situação de incerteza", na qual "a classe média mais jovem poderá não estar disposta a votar", previu Sonny Lo.

Lou Shenghua, professor de ciências políticas na Universidade Politécnica de Macau, discorda, recordando que mais candidatos foram excluídos há quatro anos.

Em 2021, Macau registou a maior abstenção desde que foi criada a região (57,6%) e mais de 5.200 pessoas votaram em branco ou nulo, após a comissão eleitoral ter excluído cinco listas e 21 candidatos, 15 dos quais pró-democracia.

"Prevê-se que a taxa de abstenção nesta eleição para a Assembleia Legislativa não seja superior à da última eleição", disse Lou.

Sonny Lo admitiu que os jovens desiludidos pelas desqualificações possam ainda assim ir às urnas, votar na lista liderada pelo único candidato considerado crítico do Governo, o deputado português José Pereira Coutinho.

No entanto, o comentador político sublinhou que o também presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau terá de "organizar uma campanha muito eficaz nas redes sociais para alcançar os jovens".

O grupo "tradicionalmente tem atraído o apoio dos funcionários públicos" e, sendo composto por "candidatos de meia-idade", tem uma imagem à qual "falta uma imagem de juventude" para eleger um terceiro deputado, disse Sonny Lo.

Trinta e três deputados integram a AL, sendo que 14 são eleitos por sufrágio direto, 12 por sufrágio indireto, através de associações, e sete são nomeados pelo chefe do Governo local.

Após as desqualificações, permanecem seis listas pelo sufrágio direto, menos oito do que em 2021 e o número mais baixo desde 1988, altura em que havia apenas cinco deputados escolhidos por votação direta.

Lou Shenghua prevê que as listas apoiadas pelas duas principais associações tradicionais de Macau, a Federação Geral dos Operários e a União Geral das Associações dos Moradores, serão as principais vencedoras das eleições.

O académico acredita que estas duas listas, que atualmente contam com dois deputados cada um, "são as que têm a maior probabilidade de conquistar três ou mais lugares".

Sonny Lo concorda, mas acrescenta que a Associação Geral das Mulheres de Macau poderá também reforçar a presença no parlamento, caso consiga "apelar ao voto feminino".

Para Lou Shenghua, a votação de 14 de setembro, a primeira após da introdução de uma nova lei eleitoral, em 2024, vai criar um parlamento com "mais ênfase ao princípio de `Macau governado por patriotas`".

A campanha poderá ser "menos colorida e menos excitante", mas Sonny Lo não perde a esperança em ver mudanças na política de Macau, que descreve como "congelada e estagnada".

O comentador recordou que está em curso "um processo de rejuvenescimento", com a saída de alguns deputados mais velhos. "A mudança geracional vai provavelmente tornar os grupos pró-Governo mais ousados, mais inovadores", previu.

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