Canadá. "Comboio da liberdade" contra vacinação obrigatória lança caos em Ottawa

Foi declarado, nas últimas horas, o estado de emergência em Ottawa, capital do Canadá. A obrigatoriedade da vacinação de condutores de camiões revoltou estes profissionais, que se juntaram num protesto que dura há vários dias. No fim de semana, os manifestantes fizeram um "buzinão" de horas. Os residentes reagiram com manifestações contra o "comboio da liberdade".

Carla Quirino - RTP /
Patrick Doyle - Reuters

As mais recentes medidas restritivas aplicadas pelas autoridades canadianas para a contenção da pandemia implicam vacinar todos os motoristas de transporte de mercadorias, para que possam cruzar a fronteira com os Estados Unidos.

Essa obrigatoriedade empurrou centenas de camionistas para um protesto sem precedentes, de acordo com a polícia de Ottawa. Com um alto nível organização, financiamento e objetivos, de acordo com as autoridades, este "comboio da liberdade" - como se definiram os profissionais em protesto -, está a deixar muitos residentes em lados opostos, criando uma grande tensão nas ruas da cidade.
A cidade estava "completamente fora de controlo", declarou Jim Watson, presidente do município de Ottawa.

Aos microfones da rádio canadiana CFRA, Watson falou do comportamento "insensível" dos manifestantes para com a população da cidade. "Tocam buzinas e sirenes continuamente, [disparam] fogo de artifício e transformam tudo em uma festa", descreveu.

O desafio para restabelecer a ordem na cidade tornou-se prioritário em relação à pandemia.
"Claramente, estamos em menor número e estamos a perder esta batalha", disse o presidente da câmara, para acrescentar: "Isso precisa de ser revertido - temos de recuperar nossa cidade".

Uns contra os outros
Este protesto dos camionistas atraiu simpatizantes, mas também muita oposição. Muitos moradores queixam-se de que os camiões parados obstruem a circulação da população e fomentam a violência.

Outro grupo de residentes associou-se aos motoristas levando-lhes comida, combustível e até mesmo papel higiénico. A presença de elementos de extrema–direita também se fez sentir.

No domingo, a polícia confirmou que estavam em curso mais de 60 investigações criminais associadas a alegados delitos, incluindo "prejuízos, roubos, crimes de ódio e danos à propriedade". Há testemunhos que descrevem grupos de manifestantes com simbologia nazi.

"Houve sinais racistas, muitos relatos de pessoas a serem agredidas e ameaçadas caso usassem uma máscaras", declarou à BBC Stephanie Carvon, residente em Ottawa e ex-analista de segurança nacional do Governo canadiano.

Na opinião de Carvon, alguns dos organizadores desta manifestação têm um discurso radical, mas "enquadraram as ações de protesto em nome da pandemia e defendem o levantamento das restrições, por isso conquistaram a simpatia de muitos canadianos que podem não necessariamente perceber onde isso chegou".


Ruas de Ottawa bloqueadas | Lars Hagberg - Reuters

A este "comboio da liberdade" junta-se Kimberly Ball. Esta motorista diz ter conduzido horas para se manifestar, explicando à agência AFP que "o protesto é sobre a nossa liberdade".

"Algumas pessoas que conhecemos, amigos, perderam os empregos por causa destas medidas restritivas", faz notar o camionista, acrescentando que "mantém a preocupação com a segurança e a eficácia das vacinas contra a covid".
"Comboio da liberdade" e estado de emergência
A polícia tem enfrentado a insatisfação de muitos moradores que perguntam por que razão as autoridades "não fazem mais para acabar com um protesto que está a paralisar a cidade".


Manifestação contra o "comboio" com messagens para libertar Ottawa e mandar os camionistas embora | Blair Gable - Reuters

Os manifestantes arriscam-se a um processo judicial devido ao prolongado buzinão dos camiões. Os organizadores terão dito que "tentariam limitar esse barulho apenas às horas do dia".

A declaração de estado de emergência permite às autoridades da cidade recorrerem a poderes adicionais como "acesso a equipamentos exigidos pelos polícias da linha de frente e serviços de emergência".

A polícia fez saber no domingo que tencionava "intensificar a fiscalização, incluindo fazer possíveis detenções" entre os que garantem abastecimento de bens alimentares e combustível aos manifestantes.

O movimento do "comboio da liberdade" está a alastrar a outras cidades canadianas, como Toronto ou Vancouver, alargando o escopo da manisfestação à totalidade das restrições e à oposição ao próprio Governo de Justin Trudeau.
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