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Canal de diálogo entre Rússia e Estados Unidos em suporte vital

Canal de diálogo entre Rússia e Estados Unidos em suporte vital

As vias de comunicação entre russos e norte-americanos vivem um capítulo de “baixo nível de confiança”. E “as duas maiores potências nucleares não podem ter este tipo de relação”. O secretário de Estado norte-americano resumiu assim o tom das conversações que manteve esta quarta-feira em Moscovo com o homólogo russo, Sergei Lavrov, e o Presidente Vladimir Putin. Do Kremlin para a Casa Branca, Rex Tillerson leva uma mensagem: é preciso resolver “questões bomba-relógio” que perduram desde os anos de Obama, mas Bashar al-Assad não pode cair na Síria.

Carlos Santos Neves - RTP /
“Há um baixo nível de confiança entre os nossos dois países”, sintetizou em Moscovo o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson Sergei Karpukhin - Reuters

Ao cabo de cerca de duas horas de conversações com o ministro dos Negócios Estrangeiros e o Presidente da Rússia, o eleito de Donald Trump para a liderança da diplomacia norte-americana quis afiançar que subsiste uma “base comum” de diálogo sobre a intervenção internacional em território sírio. Mas as divergências entre Rússia e Estados Unidos são “alargadas”.Análises conduzidas separadamente por turcos e britânicos apontam para a utilização de gás sarin no ataque a Khan Sheikhoun, atribuído pelo Ocidente ao regime de Assad. Uma acusação repetidamente negada por Damasco, com o apoio ativo de Moscovo.


A tensão entre as duas potências agudizou-se para proporções históricas depois do ataque químico a Khan Sheikhoun, na província síria de Idlib, que causou pelo menos 89 mortes, e o subsequente bombardeamento norte-americano de uma base das forças leais a Bashar al-Assad com 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk.

“Expressei o ponto de vista de que o atual estado das relações entre Estados Unidos e Rússia estão num ponto baixo. Há um baixo nível de confiança entre os nossos dois países”, admitiu Rex Tillerson.

“Temos de tentar pôr fim a esta degradação continuada, que não está a contribuir para restaurar a confiança entre os nossos dois países, ou para fazer progressos nas questões de maior importância para ambos”, acrescentou o governante norte-americano.

Ao que o homólogo russo replicou com um recuo aos anos da anterior Presidência democrata. Nas palavras de Sergei Lavrov, será preciso remover os pontos “irritantes que se acumularam durante a Administração Obama”.
Unir o que se afasta

Na longa conferência de imprensa que se seguiu ao encontro de Tillerson com o Presidente russo, a par de Lavrov, ambas as partes disseram-se preparadas para colaborar tendo em vista a estabilização e a reunificação da Síria e o combate ao autoproclamado Estado Islâmico e demais grupos extremistas.Também esta quarta-feira a Rússia vetou em Nova Iorque uma resolução da ONU que reclamava uma investigação internacional na Síria. O texto submetido por Reino Unido, França e Estados Unidos condenava o ataque da semana passada e reclamava rápido acesso ao local. A China absteve-se.


E os responsáveis pelas diplomacias russa e norte-americana fizeram também uma aproximação pública à ideia de uma investigação de escopo internacional ao ataque com agentes químicos perpetrado sobre Idlib. Todavia, no essencial, Moscovo e Washington aparentam continuar inamovíveis.

Rex Tillerson martelou a posição de que são cada vez mais as provas de que o recente ataque químico foi “planeado, dirigido e executado pelas forças do regime sírio”. Insistiu também na urgência de fazer cair Bashar al-Assad. Sustentou mesmo que a descrição do Presidente sírio como “um animal”, cunhada por Donald Trump, foi algo que o próprio Assad provocou.

Por seu turno, Sergei Lavrov recusou a existência de dados factuais que apontem para uma responsabilidade do regime sírio no ataque de Khan Sheikhoun, evocando também a desestabilização experimentada por outros países – numa clara alusão ao Iraque – quando as respetivas lideranças foram decapitadas por intervenções externas.

A antecipar o veto a uma nova resolução do Conselho de Segurança da ONU a enquadrar uma investigação ao uso de armamento químico na Síria, o ministro russo argumentou que seria “contraproducente” viabilizar um texto que “legitimaria as acusações contra Damasco”.
“Animal”
Na antecâmara destas declarações em Moscovo, os próprios presidentes dos Estados Unidos e da Rússia haviam já tratado de atiçar a fogueira entre as potências nucleares.

Em entrevista à norte-americana Fox Business Network, Donald Trump afirmou: “Francamente, Putin está a apoiar uma pessoa que é verdadeiramente uma pessoa má. Se a Rússia não tivesse avançado e apoiado este animal, não teríamos um problema neste momento”.

Na estação televisiva russa Mir, Vladimir Putin tornou a rejeitar todas as alegações contra Bashar al-Assad, asseverando que o regime sírio abriu mão dos seus arsenais químicos.



“Onde está a prova de que as tropas sírias usaram armas químicas? Não há nenhuma”, frisou o Presidente russo, para voltar à carga com a acusação de “uma violação do Direito Internacional” cometida pela máquina de guerra norte-americana, ao bombardear a Síria: “Isto é um facto óbvio”.
“Carniceiro”
Entretanto, em Washington, Donald Trump protagonizou outra aparente inversão de marcha, ao declarar que a NATO, um dos alvos da sua campanha para a eleição presidencial, “já não é obsoleta”. Isto depois de receber na Casa Branca o secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg.

“Eu disse que era obsoleta. Já não é obsoleta”, lançou o Presidente norte-americano, depois de agradecer o apoio dos aliados à decisão de bombardear uma base aérea síria.

Donald Trump, que acrescentou um epíteto a Assad - “carniceiro” - estimou que “seria maravilhoso” se a NATO, a Rússia e os Estados Unidos se entendessem. Ao mesmo tempo considerou “possível” que Moscovo estivesse ao corrente da preparação de um ataque químico na Síria.

O Presidente dos Estados Unidos mostrar-se-ia, desta feita, poupado em palavras sobre o futuro da sua relação com Vladimir Putin. Mas sempre foi dizendo que a visita de Rex Tillerson a Moscovo correu melhor do que o esperado.

Stoltenberg sustentou, por sua vez, que ainda é na NATO que Trump pode encontrar "os seus melhores aliados".
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