Capela Sistina, entre dois Testamentos e perante os olhares bíblicos

Recriações do Antigo e Novo Testamento servirão de decoração à reunião dos cardeais na Capela Sistina, encerrada ao público desde a morte do Papa para ser preparada para o Conclave que começa na segunda-feira.

Agência LUSA /

Os frescos que dominam a grandiosa Capela Sistina estão entre os mais famosos do mundo, traduzindo a riqueza artística do Renascimento italiano e decorando o que foi pensado quase como uma fortaleza.

Tanto no aspecto arquitectónico como na sua decoração, a Capela Sistina mostra-se o local ideal para um ritual como o é o Conclave, por também ela estar carregada de símbolos e significados.

Quando encomendou a construção da Capela Sistina, em 1475, o papa Xisto IV foi claro: o edifício teria que ser arquitectonicamente isolado, praticamente inacessível.

Na prática, uma quase fortaleza que, no exterior aparenta isso mesmo, um edifício reservado.

A polémica mantém-se sobre o autor do projecto, com alguns a garantirem ter sido Baccio Ponteli, mas com a documentação existente a referir também o nome de Giovanni de+ Dolci.

Inaugurada em Outubro de 1483, a capela consiste numa única nave, de dimensões idênticas às do Templo de Jerusalém, com o presbitério e o corpo principal divididos para recriar as basílicas romanas da época sem ignorar a ligação ao Catolicismo.

O contraste entre o exterior austero e o interior é evidente, um espaço visto como aquele onde a arte mais se aproxima de Deus.

A sua hoje famosa decoração só começou em 1482 quando foram contratados os melhores artistas da época, Perugino, Botticelli, Ghirlandaio e Cosimo Rosselli.

A eles coube recriar as narrativas paralelas que se olham nas paredes laterais, de um lado a Vida de Moisés, do Antigo Testamento, do outro a Vida de Cristo, do Novo Testamento.

Um contraste evidente entre a Jornada de Moisés, atribuída a Pinturicchio, e o Baptismo de Jesus, um painel que se pensa ter sido igualmente criado pelo mesmo artista italiano. Duas recriações onde são evidentes tanto o simbolismo cristão como monumentos e simbologia Romana da época.

De cada um dos lados da nave surge a obra de Boticelli, na esquerda a série bíblica que inclui a Tentação de Cristo.

Uma extensa descrição pictórica da vida bíblica, acrescentada por uma série de 12 Papas, seis em cada parede lateral, entre as janelas.

É só a partir de 1508 que Miguel Ângelo dá início aos trabalhos no famoso tecto de 800 metros quadrados (completados quatro anos depois), chocando alguns dos mais conservadores com nus, que acabariam depois por ser tapados com vestes +contratadas+ a outros pintores.

Miguel Ângelo não só teve que pintar retorcido, sobre andaimes, mas segundo vários especialistas em arte, sob ameaças constantes de que se o seu trabalho não agradasse seria substituído por Rafael.

Inicialmente projectado como uma simples representação dos 12 Apóstolos, a composição acabou por assumir proporções colossais, abrangendo uma longa ordenação teológica, com recriações do Génesis, sete profetas e vários episódios de heróis do povo de Israel.

Entretanto, só 23 anos depois - e após o período de confusão da Reforma Luterana e do saque a Roma - é que Paulo II contrata a imponente decoração que hoje domina a parede atrás do altar.

Iniciado em 1536, também por Miguel Ângelo, o "Juízo Final" - considerado por alguns especialistas como uma das obras-primas da pintura universal - ocupa um lugar de destaque, em jeito de advertência a traduzir a +fragilidade da vida e do Universo+.

Cristo é a figura central da gigantesca composição que retrata a cena celestial, onde são recriadas 300 figuras, entre Santos e Virgens, profetas e mártires, apóstolos e anjos. Uma poderosa imagem que inclui a Virgem Maria e episódios como a +Exaltação de Cristo+ e os +Instrumentos da Paixão+.

É já do século XX, entre 1980 e 1994, a mais recente polémica envolvendo a Basílica, quando foi encomendado um restauro do Juiz Final e do tecto.

O processo, que suscitou interesse de todo o mundo, devolveu ao espaço as cores ricas que hoje são evidentes e permitiu uma reavaliação de toda a obra de Miguel Ângelo e da teoria da prevalência do desenho relativamente ao uso de cor.

Nesta obra esteve envolvida uma especialista em restauro de Famalicão, Ilda Nunes, a única portuguesa e a mais jovem dos 472 profissionais de todo o mundo que trabalharam no projecto.

Desde 2002, a Capela Sistina tem também um novo órgão, doado pelo Principado do Liechtenstein.

É também na Capela que está a chaminé de onde sairá o fumo que vai anunciar ao mundo que foi eleito um novo Papa.

No decurso da II Guerra Mundial foi acrescentado à Capela Sistina um tecto falso, que não só ajuda a proteger os famosos frescos de Miguel Ângelo como é através dele que passa a chaminé, limpa e arranjada na sexta-feira, para poder cumprir devidamente a sua função.

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