Caracas e Quito enviam tropas, Bogotá nega escalada militar
Caracas, 03 Mar (Lusa) - A Venezuela e o Equador ordenaram o envio de tropas para as suas fronteiras com a Colômbia, em resposta à morte do "número dois" da guerrilha marxista das FARC em solo equatoriano mas Bogotá negou hoje qualquer escalada militar.
A morte de Raul Reyes e a subsequente escalada de tensão entre a Colômbia e os seus vizinhos, o Equador e a Venezuela, causaram a mais grave crise desde há uma década nesta região da América Latina.
A Colômbia respondeu hoje à decisão de Caracas e Quito com acusações de que os documentos encontrados num acampamento rebelde bombardeado ligavam o presidente venezuleano, Hugo Chavez às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC, guerrilha marxista).
O chefe da polícia colombiana, general Oscar Naranjo, disse que os documentos recuperados de um computador do líder rebelde assassinado indicam que Chavez enviou recentemente 300 milhões de dólares (197 milhões de euros) aos guerrilheiros colombianos. Adiantou que outros documentos indicam que os rebeldes enviaram dinheiro a Chavez quando ele era o líder detido de um golpe há mais de uma década.
Naranjo disse que os documentos foram recuperados de um computador portátil propriedade do líder rebelde conhecido como Raul Reyes, que foi morto sábado num ataque de um comando do exército colombiano a um campo na fronteira com o Equador.
Uma nota recuperada de Raul Reys fala de como Chavez está grato com os 100 milhões de pesos (cerca de 150.000 dólares na época) que as FARC entregaram a Chavez quando ele estava na prisão", disse Naranjo numa conferência de imprensa em Bogotá.
O vice-presidente venezuelano Ramon Carrizalez desmentiu estas acusações: "Estamos acostumados às mentiras do governo colombiano. Digam o que disserem, não tem importância. Nesta altura, podem inventar qualquer coisa para se limparem de terem violado território equatoriano".
A morte de Reys e de outros 16 rebeldes no Equador, sábado, aumentou de forma significativa as tensões entre os três vizinhos andinos.
Sábado, Chaves prometeu que a Venezuela responderá militarmente caso a Colômbia viole a sua fronteira, para onde ordenou o envio de tanques bem como milhares de soldados. Ordenou também o encerramento da Embaixada da Venezuela em Bogotá.
O presidente equatoriano Rafael Correa disse ter enviado tropas, ao mesmo tempo que retirava o seu embaixador de Bogotá e expulsava o embaixador da Colômbia.
"Não há justificação", disse Correa, domingo à noite, desdenhando um anterior anúncio da Colômbia de que iria apresentar desculpas pela incursão militar. As tropas equatorianas heli-transportadas dirigiram-se hoje para a fronteira.
Chavez qualificou a morte de Reyes e de outros rebeldes como um ataque por "um Estado terrorista", afirmando que o presidente colombiano Alvaro Uribe é um "criminoso".
"Senhor ministro da Defesa, envie-me 10 batalhões para a fronteira com a Colômbia, imediatamente. Com tanques. Envie a Força Aérea", disse Chavez durante o seu programa semanal na rádio e na televisão.
Correa disse que a Colômbia agiu deliberadamente, penetrando bem no interior do Equador para bombardear o campo rebelde. Disse que os rebeldes foram "bombardeados e massacrados quando dormiam, usando tecnologia de precisão".
Por sua vez, os militares colombianos informaram que o campo estava localizado a apenas 1,8 quilómetros da fronteira.
Há muito que as autoridades colombianas se queixam de que os rebeldes se refugiam no Equador e na Venezuela, atravessando as fronteiras.
Hoje, as tropas equatorianas estavam "em estado de alerta máximo" e efectuavam "patrulhas na fronteira com a Colômbia, declararam responsáveis do Ministério da Defesa a coberto do anonimato.
Por seu lado, o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, disse hoje que o seu governo não está a enviar quaisquer tropas e que tem a situação "sob controlo".
"Nós temos a capacidade de mobilizar as nossas tropas mas não vemos qualquer necessidade de o fazer", declarou Santos.
"Preferimos deixar o presidente Chavez fora desta discussão", disse Santos à Rádio Caracol. "Não mencionamos essa pessoas, não fazemos quaisquer comentários ao que diz, faz ou sugere".
Em Washington, um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Tom Casey, disse que os Estados Unidos apoiam o direito da Colômbia a defender-se contra as FARC e apelaram ao diálogo entre a Colômbia e o Equador.
"Da nossa perspectiva, isto é uma questão entre a Colômbia e o Equador," disse. "Não estou convencido que isto tenha a ver com a Venezuela", acrescentou.
No Chile, a presidente Michelle Bachelet ofereceu-se para mediar o conflito.
"Uma situação como esta requer uma explicação da Colômbia aos equatorianos, disse Bachelet. "Estamos muito preocupados".
Do México ao Brasil, todos ofereceram ajuda diplomática.
O governo colombiano anunciou hoje que vai enviar às Nações Unidas e à Organização dos Estados Americanos (OEA) "revelações sobre os acordos do grupo terrorista das FARC com os governos do Equador e da Venezuela".
Desde há anos que as FARC utilizam a Venezuela e o Equador como base de retaguarda para aí se refugiarem a fim de escapar às operações do exército colombiano.
Raul Reys foi morto depois da libertação unilateral pelas FARC de seis reféns desde o início do ano, graças à mediação de Hugo Chavez. A sua eliminação pode tornar mais difíceis futuras libertações.
TM.
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