"Carbono negro" está a acelerar o degelo no Ártico

Nas últimas décadas, o aquecimento global tem contribuído para o degelo dos polos do planeta, mas agora os especialistas estão a alertar para o risco de o "carbono negro" estar a acelerar esse processo no Ártico. Com o derretimento do gelo, começam a surgir novas rotas marítimas e torna-se mais fácil a passagem para os navios, o que agrava ainda mais a situação com a emissão de gases e a poluição da região. Nos últimos cinco anos, as emissões deste agente poluente no Ártico mais que duplicaram.

Inês Moreira Santos - RTP /
Reuters

A redução do gelo polar na região do Ártico, entre 2013 e 2019, permitiu que o tráfego marítimo aumentasse 25 por cento e prevê-se que a tendência seja para aumentar ainda mais. Mas o alargamento das rotas marítimas nesta região polar não se deve apenas ao aquecimento global. E o problema é que continua a agravar-se.

Se a crise climática favorece a passagem de mais navios, o aumento de tráfego nestas águas leva ao aumento da emissão de gases de escape poluentes. De acordo com o Guardian, o aumento do tráfego na região do Ártico está a acelerar ainda mais o degelo polar devido ao complexo fenómeno do “carbono negro”.

O conhecido “black carbon” é um poluente atmosférico formado pela combustão incompleta de combustíveis fósseis, madeira (formando fuligem) ou biomassa. Segundo uma investigação do Journal of Geophysical Research: Atmospheres, o carbono negro é considerado o segundo poluente que mais contribui para o aquecimento global, sendo que o seu efeito equivale a dois terços do dano causado pelo dióxido de carbono – o que o torna mais perigoso que o metano.

À semelhança de outros agentes poluentes, quando o carbono negro ou fuligem se agrega à neve ou gelo, o processo de degelo acelera, visto que a neve poluída e mais escura absorve mais calor.

As emissões de carbono negro na região do Ártico reduzem significativamente a capacidade de o gelo marinho refletir o calor, intensificando assim o derretimento do gelo e contribuindo para o aumento do aquecimento.
Ártico está a aquecer quatro vezes mais do que o resto do planeta
Não é um aviso novo: o Ártico está a aquecer quatro vezes mais rápido do que, em média, as outras regiões da Terra. E, para agravar o cenário, as ambientalistas alertaram que, entre 2015 e 2019, a presença de “carbono negro” aumentou 85 por cento nessa zona polar, principalmente devido ao maior tráfego de petroleiros e navios de carga.

Embora este poluente se mantenha pouco tempo na atmosfera, representa mais de 20 por cento das emissões dos navios. Contudo, e contrariamente a outros setores de transporte, não existe regulamentação para estas rotas marítimas nem para manter os padrões de qualidade do ar no Ártico.

A Organização Marítima Internacional (IMO na sigla em inglês) adotou, em novembro de 2021, uma resolução temporária sobre o uso de combustíveis “mais limpos” no Ártico de forma a reduzir a poluição por “carbono negro”. Mas na semana passada, um grupo de ambientalistas alertou que esta medida temporária da IMO não é suficiente para combater a crise climática na região polar ártica.

No início do mês, os especialistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas advertiram a comunidade internacional de que “é agora ou nunca” que se tem de agir para evitar um “colapso climático”, criticando a falta de ação da IMO e de regulamentação para as rotas marítimas do Ártico.

“Estamos a atingir um ponto de inflexão sobre o clima”, afirmou ao jornal britânico Lucy Gilliam, responsável de Política Marítima na Seas at Risk. “Com o relatório do IPCC, estamos a ver novamente que precisamos de fazer algo para reduzir o carbono negro com urgência”.

De facto, segundo o relatório do IPCC, a poluição de transporte marítimo global aumentou 4,9 por cento só em 2021. E os ambientalistas esperavam que a IMO desenvolvesse uma resolução vinculativa com regulamentação obrigatória, o que não aconteceu na última reunião do Subcomité de Prevenção e Resposta à Poluição.

“A IMO falhou completamente, esta semana, ao não tomar medidas significativas ou concordar com qualquer ação que reduzisse significativas emissões de carbono negro dos transportes marítimos, assim como os impactos do aquecimento no Ártico”, afirmou Sian Prior, especialista da Clean Arctic Alliance.

Em vez de implementar medidas e regulamentos vinculativos para assegurar a utilização de combustíveis menos poluentes, a IMO decidiu apenas avançar com uma “orientação baseada em objetivos”, o que deixa a responsabilidade para cada Estado-membro.

“Os Estados-membros da IMO devem concordar com uma ação global ambiciosa e urgente para reduzir drasticamente as emissões de carbono negro de origem naval esta década, para mitigar a crise climática no Ártico”, acrescentou ainda Sian Prior. “Felizmente, a natureza de curta duração do carbono negro significa que as reduções nas emissões podem trazer benefícios climáticos imediatos e, com opções regulatórias simples, incluindo uma mudança para combustíveis mais limpos, a ação para reduzir o carbono negro de origem naval deve ser politicamente atraente”.

Segundo os especialistas, se todos os navios que atravessam as rotas marítimas do Ártico usassem “combustível mais limpo”, isso contribuía para uma redução de 44 por cento destas emissões de carbono. Além disso, se estas embarcações instalassem filtros de partículas de diesel, que reduzem as emissões e a libertação de fuligem, a quantidade de carbono negro no Ártico também diminuía em mais de 90 por cento.

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