Cardeais entregam-se ao conclave da sucessão de Bento XVI

Cento e quinze cardeais eleitores encerram-se esta terça-feira entre as históricas paredes da Capela Sistina, no Vaticano, para designarem o sucessor de Bento XVI, o primeiro Sumo Pontífice a abdicar em 700 anos. A generalidade dos vaticanistas antecipa um conclave curto. O fumo branco, estimam, poderá mesmo erguer-se nos céus de Roma dentro de dois a quatro dias. Há, desta feita, uma dezena de nomes citados como papabili. Três dos príncipes da Igreja Católica destacam-se entre os favoritos: o italiano Angelo Scola, o brasileiro Odilo Scherer e o canadiano Marc Ouellet.

RTP /
Os cardeais eleitores entram em procissão na Capela Sistina às 16h30 (15h30 em Lisboa) desta terça-feira Stefano Rellandini, Reuters

Começa agora a escolha do novo Sumo Pontífice da Igreja Católica, uma confissão religiosa que congrega 1,2 mil milhões de seguidores à escala planetária, mas que se vê atualmente imersa num contexto de profunda crise da Cúria romana. E a braços com uma acelerada laicização das sociedades do Ocidente.

A partir desta manhã e até que o sucessor de Bento XVI seja designado, os 115 cardeais eleitores habitarão a Casa de Santa Marta. Antes de se fecharem sob os frescos de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, pelas 16h30 (15h30 em Lisboa), assistiram à missa pro eligendo Pontifice, celebrada na Basílica de São Pedro pelo decano do Colégio Cardinalício, Angelo Sodano.

Sessenta europeus, 19 latino-americanos, 14 norte-americanos, 11 africanos, dez asiáticos e um cardeal da Oceânia formam o corpo que elegerá em conclave – “à porta fechada” – o 266.º titular do trono de Pedro. “Guiados pelo Espírito Santo”, estes 115 homens, todos eles nomeados cardeais pelas mãos de João Paulo II ou de Bento XVI, vão jurar “guardar segredo absoluto sobre tudo o que direta ou indiretamente diz respeito aos votos e escrutínios para a eleição” do Sumo Pontífice.



O processo foi desencadeado a 11 de fevereiro pelo surpreendente anúncio da resignação de Bento XVI. Aos 85 anos, o Papa emérito acompanhará à distância os acontecimentos na Santa Sé. Joseph Ratzinger encontra-se em retiro, desde o dia 28 do mês passado, na residência papal de Castel Gandolfo.
Papabili
Dois cardeais portugueses têm assento entre o corpo de eleitores – o Patriarca de Lisboa, José Policarpo, que votará em 32.º lugar, ao abrigo da “ordem de precedência” estabelecida para procedimentos do período de Sede vacante, e Manuel Monteiro de Castro, 104.º cardeal a votar. José Saraiva Martins, prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos, não integra o conclave por ter mais de 80 anos.

Estão previstas quatro votações diárias, duas de manhã e outras duas à tarde. Os boletins de voto, depositados pelos cardeais num cálice, serão queimados ao fim do dia.

Caso a votação seja inconclusiva, são adicionados produtos químicos à queima, para que o fumo saia negro da chaminé da Capela Sistina.

O fumo branco e o sino da Basílica de São Pedro anunciarão a eleição do novo Papa, o que só ocorrerá quando for obtida uma maioria de dois terços.
Ascendem a uma dezena os nomes dados como potencialmente elegíveis no conclave que agora tem início. Três deles parecem destacar-se: o cardeal italiano Angelo Scola, de 72 anos, o brasileiro Odilo Scherer, de 63 anos, e o canadiano Marc Ouellet, de 68, todos eles conservadores favoráveis a uma “purificação” da Igreja, embora avessos, em grande medida, a qualquer linha de vincado pendor reformista.

Nomeado em 2011 para a importante posição de arcebispo de Milão, Scola é, à semelhança de Ratzinger, um conservador de extensa cultura e firme defensor da família tradicional. Mas é também o impulsionador da revista Oásis, dedicada ao diálogo com o Mundo Islâmico.

Na mesma linha teológica está o arcebispo brasileiro Odilo Scherer, à frente da diocese de São Paulo, a maior da América Latina, desde 2012. Já Marc Ouellet, do Quebeque, é um dos nomes mais conotados com o pensamento de Ratzinger. Na Cúria romana, tornou-se em 2010 prefeito da Congregação para os Bispos. É igualmente defensor de posições marcadamente conservadoras.

Entre os demais cardeais dados como papabili nos últimos dias figuram o húngaro Peter Erdö, de 60 anos, arcebispo de Budapeste e presidente da Conselho das Conferências Episcopais da Europa, o arcebispo de Viena de Áustria Christoph Schonborn, de 68 anos, que assumiu firmes posições contra a pedofilia no seio da Igreja, e o mexicano Francesco Robles Ortega, de 64 anos, arcebispo de Guadalajara e presidente da Conferência Episcopal do México, voz da luta contra a criminalidade organizada.

Evidenciaram-se ainda o norte-americano Sean O’Malley, de 68 anos, cardeal de Boston que pugnou contra o historial de práticas pedófilas na sua diocese, Timothy Dolan, de 63 anos, o mais mediático dos cardeais dos Estados Unidos, à frente da diocese de Nova Iorque, o sul-africano Wilfrid Napier, de 71 anos, que em público diagnosticou à Igreja Católica uma “crise profunda” e a necessidade de uma “renovação espiritual”, e o filipino Luis Antonio Tagle, de 55 anos, arcebispo de Manila e figura de grande popularidade na Ásia.
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