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Cardeal Vegliò pede mais apoio aos refugiados
O cardeal Antonio Maria Vegliò contesta quem fala em invasão para qualificar a chegada dos refugiados de África à Europa. Em entrevista exclusiva à Antena 1 e ao site da RTP, admite que a Igreja Católica possa receber mais pessoas, considera que o Velho Continente acordou tarde para o problema, elogia a atitude de Angela Merkel e apela ao respeito mútuo entre quem recebe e quem chega.
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Antonio Maria Vegliò acusa a Europa de ter acordado tarde para o problema dos imigrantes e de "até há bem pouco tempo não ter um programa e tentar apenas solucionar as situações de emergência". Neste sentido, considera que a questão se "resolveu graças à Itália" porque "a Itália a certa altura estava sozinha e isso não era justo". Aliás lembra: "O sul da Itália não é o sul da Itália é o sul da Europa".
No entanto, entre os países europeus, o cardeal italiano elogia em particular a atitude da chanceler alemã, Ângela Merkel que considera ter sido de forma "inegável um exemplo" ao assumir a disponibilidade para receber os refugiados.
Vegliò considera que a Europa tem capacidade para receber os refugiados que chegam de África. "A Europa tem cerca de 550 milhões de habitantes que diferença faz mais 800 ou 900 mil? Só que a Europa não pensa assim. Muitos países europeus estão fechados, ergueram muros. Isto não é uma invasão como se diz. Não é uma invasão", refere o cardeal que prefere utilizar a palavra irregular para se referir aos imigrantes clandestinos. Clandestino, adianta, "tem qualquer coisa de criminoso".
Por isso, "quando acontece alguma coisa associa-se logo a um criminoso estrangeiro. Não é assim. Não é verdade. Tanto são criminosos os italianos aqui em Itália como os estrangeiros".
É considerando este tipo de atitude que a atuação da igreja se tem desenvolvido, "na sensibilização para levar as pessoas a não pensarem que são inimigos, que roubam o trabalho, porque não é assim". Acrescenta: "As pessoas frente ao problema da imigração sentem-se um pouco perturbadas. Não querem que os outros venham para o seu país. Alguém que entra na minha vida perturba-me. Esta é a natureza humana mas não é a natureza cristã".
Antonio Maria Veglió destaca de forma positiva a constituição de corredores humanitários, diz mesmo que "são uma belíssima ideia" que não resolvendo o problema tentam "aligeirá-lo". No entanto, lamenta que não se generalizem a toda a Europa. Vegliò admite que a Igreja mesmo não sendo diretamente, através da intervenção do Papa, possa vir a receber mais imigrantes e acolhê-los, nomeadamente através das congregações.
Para o cardeal, nos dias de hoje, "tornou-se quase obrigatório a um cristão fazer qualquer coisa para acolher as pessoas que chegam". Neste sentido lembra a atuação das paróquias no acolhimento de imigrantes que não tem onde dormir e no fornecimento de refeições. Um trabalho que considera "tem de continuar".
Admite que o problema da imigração tem contribuído para o crescimento de movimentos de extrema-direita na Europa. Não querendo envolver-se nas questões políticas, sempre vai adiantando que "o Brexit é uma consequência dos problemas migratórios" e que o "triunfo de Trump, uma coisa inconcebível na maneira como se apresenta, se deve ao fenómeno da imigração".
Explica que o problema é que "os imigrantes são considerados como um perigo. É um engano. Completamente. É mais aquilo que eles dão do que aquilo que custam aos países". E a este propósito refere o caso de Itália: "Os imigrantes custam dez mil milhões ao Estado nas contribuem com 12 ou 13 mil milhões".
Para que este sentimento não se generalize, Vegliò considera que é importante existir respeito parte a parte, num processo que deve ser de integração e não de assimilação. "Um muçulmano deve mandar os filhos para a escola e deve falar italiano mas se são muçulmanos não tem de ser católicos. Só pensar na assimilação já não é bom. Pensar na integração é dizer: Tu ficas tu próprio e eu fico eu próprio mas convivamos".
E acrescenta: "Eu devo acolhê-lo, é um dever meu humano e cristão mas ele também deve aceitar a minha identidade. Não pode vir à minha casa e dizer que não gosta daquele quadro que tenho na parede. Não pode vir aqui e sobretudo com o mundo muçulmano cuja integração é um pouco mais difícil e não estou a dizer nada de extraordinário, e querer impor o seu modo de vida e a sua cultura. Tu vive como um bom muçulmano mas não me podes impor a mim que te recebo, viver como tu queres. Eu tenho a minha identidade. Tu mantém a tua identidade. Eu respeito-te. Tu respeita-me".
Nova congregação em estudo
A criação de uma nova congregação que junte três conselhos pontifícios, entre os quais o dos Migrantes e Itinerantes, está em cima da mesa do Papa Francisco.
No âmbito da reforma da Cúria Romana, o Papa tem vindo a promover algumas alterações e depois de ter anunciado a criação de uma Congregação para a Família deverá promover a criação de uma outra congregação, onde vai juntar o pontifício conselho Justiça e Paz, o pontifício conselho "Cor Unum" e o pontifício conselho para as Migrações e Itinerantes.
O cardeal António Maria Vegliò considera que elevar o conselho a congregação será uma "dignidade maior" desde que o nome conste da designação a dar à nova congregação, caso contrário, dada a relevância da matéria, tantas vezes abordada pelo Papa, as pessoas ficariam no seu entender "surpreendidas" se assim não acontecesse.
Vegliò adiantou já ter manifestado esta opinião junto do Papa e aos outros cardeais da Cúria, mas lembra que a decisão final é do Papa, depois de ouvir o conselho de nove cardeais.