Caricaturas Maomé - Hamas oferece-se para acalmar os espíritos

O chefe da comissão política do movimento radical palestiniano Hamas, Khaled Mechaal, propôs-se hoje "desempenhar um papel para apaziguar" os espíritos no caso das controversas caricaturas de Maomé.

Agência LUSA /

"O movimento está disposto a desempenhar um papel para apaziguar a situação entre o mundo islâmico e os países ocidentais, desde que estes países se comprometam a pôr fim aos atentados aos sentimentos dos muçulmanos", declarou Mechaal durante uma conferência de imprensa em Doha, onde realiza uma visita.

O líder islamita tinha considerado quarta-feira no Cairo que a imprensa ocidental estava a "brincar com o fogo", ao publicar as caricaturas que provocaram a cólera no mundo islâmico.

"A imprensa ocidental brinca com o fogo ao insistir em publicar de novo" estas caricaturas, declarou, sublinhando que "o Ocidente cristão que provoca os sentimentos da nação muçulmana deve mudar de atitude".

O Hamas, movimento vencedor das legislativas palestinianas, exortou em finais de Janeiro os países árabes e muçulmanos a "tomarem medidas para punir os irresponsáveis métodos dinamarqueses".

"Apelamos também aos povos islâmicos a que boicotem os produtos dinamarqueses, porque o povo dinamarquês apoiou este odioso racismo", acrescentou o grupo.

A publicação, em 30 de Setembro, pelo diário dinamarquês Jyllands-Posten, das 12 caricaturas do profeta Maomé provocou a cólera dos muçulmanos no Mundo. Um jornal norueguês publicou as mesmas caricaturas em Janeiro, seguido por vários outros periódicos europeus.

Entretanto, na Cidade do Cabo, entre 10.000 e 15.000 membros da comunidade muçulmana da África do Sul manifestaram-se hoje pacificamente nas ruas da cidade, em protesto contra a publicação das caricaturas.

O longo cortejo de manifestantes, enquadrado pela polícia e pelos serviços de segurança do Conselho Judiciário Muçulmano (MJC), que convocou a marcha, desfilou sem qualquer incidente no centro da Cidade do Cabo.

Após a marcha, de uma hora e meia, os manifestantes, provenientes da região do Cabo, de Joanesburgo e de Durban, concentraram-se frente à sede da Câmara e entregaram um "memorando de protesto" ao embaixador da Dinamarca em Pretória, Tolben Brylle, presente no local.

Na Europa, a actual presidente do Conselho da União Europeia, a ministra dos Negócios Estrangeiros austríaca, Ursula Plassnik, e o homólogo turco, Abdullah Gul, garantiram hoje que "a liberdade de expressão e o respeito por valores que são venerados não são contraditórios, mas sim complementares".

Num comunicado conjunto divulgado em Viena, refere-se que os dois ministros falaram na quarta-feira para discutir os incidentes provocados pela publicação em periódicos europeus das caricaturas do profeta do Islão.

"Os dois ministros sublinhram que a liberdade de opinião é um direito fundamental. Ao mesmo tempo, declararam-se de acordo em que as crenças religiosas devem ser abordadas com o devido respeito", afirma o comunicado.

Plassnik e Gul sublinharam também a condenação dos actos violentos registados nos últimos dias, como a queima e apedrejamento de embaixadas europeias em diferentes países, acções que "não são toleráveis sob qualquer pretexto".

O comunicado refere que estes distúrbios demonstraram que, "lamentavelmente, existe uma falta de diálogo entre o mundo ocidental e o mundo islâmico".

Também o comissário europeu para a Justiça, Franco Frattini, lançou hoje um "apelo urgente ao relançamento do diálogo" entre as culturas, vendo na crise provocada pelas caricaturas de Maomé "uma oportunidade para o concretizar".

"Vemos a necessidade urgente de regressar a um diálogo", declarou Frattini, após um encontro, em Bruxelas, com Mohamed Sherif, presidente da World Islamic Call Society, importante associação que tem sede em Tripoli e é influente no mundo muçulmano.

"É do interesse de todos explorar esta crise para relançar o diálogo", acrescentou Frattini, apoiando a ideia do interlocutor de promover "uma conferência internacional sobre o respeito da dignidade humana".

Apesar de condenar a violência, Sherif considerou que as caricaturas representavam uma "humilhação" do profeta Maomé e tinham sido entendidas "como uma campanha de ódio".

Frattini apelou também para o "sentido da responsabilidade dos jornalistas", desmentindo contudo ter em mãos um projecto de instauração de um código de conduta da comunicação social.

"Nunca sugeri impor um código de conduta à imprensa. É aos media que compete auto-regularem-se, ou não, e é aos media que compete formular um tal código de conduta voluntário se o considerarem necessário, apropriado e útil", sublinhou.

O comissário declarou-se pronto a dialogar com os jornalistas "sobre a maneira de reconciliar a liberdade de expressão com o respeito pelas crenças de cada um".

Em Copenhaga, mais de 2.400 dinamarqueses assinaram hoje à tarde uma carta aberta na Internet, na qual se distanciam das caricaturas de Maomé e afirmam querer "viver em paz com o mundo muçulmano".

A iniciativa "Uma outra Dinamarca" apresenta-se na página www.anotherdenmark.org como um "grupo privado de cidadãos" de "concepções políticas e religiosas variadas".

Na carta, publicada em dinamarquês, inglês e árabe, os signatários afirmam: "Enquanto dinamarquês, não sou responsável pelo que um simples jornal privado dinamarquês publica".

"Contudo, distancio-me claramente da ofensa cometida pelo Jyllands-Posten aos muçulmanos de todo o mundo e compreendo a exigência (dos muçulmanos) de desculpas da parte do jornal", adianta a missiva.

O Jyllands-Posten publicou em 30 de Setembro último as 12 caricaturas de Maomé, causa imediata da ira muçulmana.

Entretanto, o New York Times refere hoje que a indignação muçulmana com as caricaturas "se cristalizou" em Meca, durante um encontro, em Dezembro, da Organização da Conferência Islâmica (OCI).

De acordo com o diário norte-americano, líderes islamitas da comunidade muçulmana da Dinamarca pressionaram os embaixadores árabes em Copenhaga, que por sua vez alertaram os respectivos Governos.

O comunicado final da cimeira da OCI constatava "a preocupação dos Estados membros face a um ódio crescente para com o Islão e os muçulmanos" e condenava "os recentes casos de profanação da imagem do santo Profeta Maomé nos órgãos de comunicação social de alguns países".

Para o diário nova-iorquino, "a cimeira da OCI em Meca e o papel dos Governos membros representaram uma reviravolta".

O jornal cita nomeadamente um especialista do Centro Ahram de Estudos Estratégicos e Políticos, no Cairo, que explicou que o caso das caricaturas "não era grande coisa, até que a Conferência Islâmica tomou uma posição".

Entretanto, o embaixador dinamarquês no Egipto, Bjarne Soerensen, citado pela agência noticiosa dinamarquesa Ritzau, revelou hoje que seis das 12 caricaturas do profeta foram publicadas pelo jornal egípcio Al Fagr em 17 de Outubro último, sem provocarem polémicas.

Os desenhos ilustravam um artigo a condenar as 12 caricaturas publicadas pelo Jyllands-Posten, mas não originaram debates nem outras reacções no Egipto.


PUB