Carla del Ponte com o dedo nas armas químicas sírias
Novos jogadores estão a ensaiar a entrada no xadrez da guerra síria, com o tema do jogo a voltar-se para o armamento químico. A última intervenção partiu de Carla del Ponte. A antiga procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional, agora à frente da Comissão Independente da ONU para a Síria, assinala fortes possibilidades de utilização de gás sarin pelos rebeldes daquele país, mas não descarta que também as tropas do Presidente Bashar al-Assad tenham recorrido a armas químicas. A confirmarem-se estes dados, teria sido ultrapassada a “linha vermelha” que poderia determinar uma intervenção mais concreta dos Estados Unidos. “Linha vermelha” que Israel considera há muito ultrapassada, com alegadas transferências de armamento no triângulo Síria-Irão-Hezbollah.
Os novos andamentos no tabuleiro sírio estão a ser catalisados pelos mais recentes raides aéreos da aviação israelita em solo sírio. O primeiro, na noite de quinta-feira, quando um ataque visou um carregamento de mísseis terra-terra no armazém de um aeroporto de Damasco, capital da Síria. Tratava-se, de acordo com fontes israelitas, de uma bateria de Fateh-110, um míssil móvel, altamente precisos e capazes de atingir os principais centros populacionais israelitas a partir do sul do Líbano (onde estão baseados os xiitas do Hezbollah de Hassan Nasrallah).
O segundo ataque teve lugar às primeiras horas deste domingo, visando um alvo nas cercanias de Damasco. O regime de Assad denunciava horas depois que tinham sido destruídas infraestruturas do centro de pesquisa de Jamraya, para acrescentar depois instalações em Maysaloun, perto da fronteira com o Líbano, e um aeroporto militar em Dimass à lista dos alvos atingidos. Os representantes do governo acusaram aos israelitas de serem responsáveis por baixas civis nas zonas dos bombardeamentos, ao que acrescentaram a morte de dúzias de tropas de elite enquanto negavam a existência de uma caravana para transferir mísseis para as bases do Hezbollah.
Ninguém sai de mãos limpas
Numa entrevista a uma televisão suíça, del Ponte acrescentaria que o uso de armas químicas poderá não ser um exclusivo dos rebeldes, cenário que carece também ele de confirmação. O sarin é um gás sem cor e sem cheiro que pode causar paragem respiratória e morte.
De acordo com a observadora das Nações Unidas também as tropas governamentais de Assad estão sob suspeita, mas, uma vez mais, trata-se de uma acusação que não tem ainda pés para ser formalizada.
Sem adiantar dados quanto à possível data da utilização de armamento químico, Carla del Ponte faz depender qualquer acusação de novos inquéritos e investigações mais aprofundadas.
Para já, sabe-se que outras certezas poderão ser apresentadas pela observadora internacional em Junho, altura em que comissão que lidera, deverá levar um relatório ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.
As “linhas vermelhas” do tabuleiro regional
A apresentação de uma prova irrefutável da utilização de armamento químico por parte das forças do Presidente Bashar al-Assad não será uma mera acusação formal de violação dos tratados internacionais. Na realidade, parece ser a desculpa esperada por Washington para pôr um pé no conflito. Obama pede uma “investigação vigorosa”. Para o Presidente americano, o uso de armamento químico representaria “uma mudança de jogo” para Washington.
O Presidente Barack Obama já deixou o aviso e membros da sua equipa mencionaram a possibilidade de equipar de forma aberta os rebeldes no terreno, com todos os perigos que uma decisão dessas poderá representar no futuro.
Mais certa é a mão de Israel. Os ataques da última semana não foram os únicos. A razão mantém-se a mesma. Já em janeiro a aviação havia lançado um raide para neutralizar o que acusavam ser uma caravana militar que transportava SA-17, mísseis avançados terra-ar que teriam como destino o Hezbollah.
A “linha vermelha” traçada por Telavive aponta esse limite: o reforço balístico do grupo xiita de Hassan Nasrallah. Israel quer evitar que a Síria seja um entreposto do Irão no fornecimento de armas de longo alcance para o Hezbollah, que são também fortes aliados de Assad e, alegadamente, forneceram operacionais para auxiliar o regime de Damasco nos combates contra os rebeldes.
Israel tem levado a cabo estes ataques aéreos não apenas com sentido prático, mas igualmente como um sinal para Bashar al-Assad: o princípio de que Israel não abdica, defender-se por todos os meios e destruir, se possível de forma preventiva, as ameaças ao Estado Hebraico.
Por outro lado, tanto Israel como a Síria ou o Hezbollah, os jogadores mexem-se com cautela em volta de um tabuleiro que, mexidas as peças erradas, pode resultar num conflito regional do qual ninguém sairia vencedor.
Netanyahu de visita oficial à China
Entretanto, um velho protagonista reentrou no jogo: aproveitando a visita do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu ao país, o MNE da China sublinhou esta manhã a oposição ao uso da força e à violação da soberania.
Numa crítica velada a Israel, sem nunca citar o país nesta declaração, Hua Chunying assinalou que a China “se opões ao uso de força militar e acredita que a soberania de um país deve ser respeitada. A China apela ainda á partes envolvidas para terem em atenção a necessidade de salvaguardar a paz regional e a estabilidade e evitarem ações que possam desencadear uma escalada das tensões [no Médio Oriente]”.
Pequim não tem por hábito intervir nos assuntos daquela região, mas tem-se mantido do lado do regime de Assad, vetando sucessivamente resoluções do Conselho de Segurança que visem o atual poder em Damasco.