Carlos Brito realça "cooperação exemplar" com PCP em Lisboa e enquanto Presidente
O histórico dirigente comunista Carlos Brito expressou hoje um "profundíssimo desgosto" pela morte do antigo Presidente Jorge Sampaio, recordando a "cooperação exemplar" com o PCP na Câmara de Lisboa e o apoio dado pelo partido à candidatura presidencial.
Contactado pela agência Lusa, Carlos Brito disse que recebeu com "profundíssimo desgosto" a notícia da morte do antigo chefe de Estado, uma figura cujo desaparecimento "deixa um grande vazio na vida política portuguesa".
"Foi uma das maiores figuras da nossa democracia, acho que teve um desempenho exemplar nos cargos que exerceu, nomeadamente, dirigente do PS, presidente da Câmara de Lisboa, Presidente da República, e já antes do 25 de Abril se tinha destacado como um ativíssimo resistente", sustentou.
O histórico dirigente do PCP recordou a coligação `Por Lisboa` entre socialistas e comunistas: "O PCP nessa altura tinha mais votos em Lisboa do que o PS, mas constantemente fazia propostas de unidade com o PS, que foram sendo rejeitadas por parte do PS. Ora, um belo dia, Jorge Sampaio comunica que se vai candidatar à Câmara de Lisboa e que quer fazer um acordo com o PCP. Foi uma grande surpresa".
Sampaio, prosseguiu Carlos Brito, "aplanou as dificuldades, o PCP fez as suas exigências, como é natural, também interveio com algum preconceito, mas tudo isso foi sendo aplanado e foi possível criar aquela frente que venceu as eleições".
Da conquista do município da capital ficou também a recordação da "cooperação exemplar" nos encontros entre Jorge Sampaio e os dirigentes comunistas, que se repercutiu, anos mais tarde, na candidatura à Presidência da República.
"Ele convidou-me para um jantar em sua casa e nesse jantar comunicou-me a certa altura: `Vou-me candidatar à Presidência da República`", explicou, acrescentando que Sampaio disse ao "amigo" para dar à informação "o uso que lhe parecer mais importante".
Carlos Brito encarou o anúncio como uma maneira de "ouvir o PCP sobre a candidatura que ia formalizar" e quando encontrou Álvaro Cunhal na sede do partido deu-lhe a notícia com uma nota de Sampaio: "Fazia gosto que eu te comunicasse".
Foi aí que Cunhal disse a célebre frase "não pode haver um Presidente mais à esquerda no nosso país, vamos dar-lhe todo o nosso apoio".
Em ambos os casos, explicou, a "ausência de qualquer espécie de sectarismo" permitiu que a esquerda "desempenhasse um papel muito importante" em Portugal, acrescentando que as lições do passado, apesar das semelhanças, contrastam com as atuais.
"Acho que é um exemplo, tanto da parte da iniciativa que ele tomou nos dois casos, como depois na continuação das formas de cooperação que foram encontradas. No caso da `geringonça` houve iniciativa, houve passos positivos, mas depois não foi assegurada a continuidade daquela cooperação, nos termos em que foi lançada em 2015. Continua, mas muito pontualmente. Deixou de ter a estabilidade que tinha", sustentou.
O antigo Presidente da República Jorge Sampaio morreu hoje aos 81 anos, no hospital de Santa Cruz, em Lisboa.
Antes do 25 de Abril de 1974, foi um dos protagonistas da crise académica do princípio dos anos 60, que gerou um longo e generalizado movimento de contestação estudantil ao Estado Novo, tendo, como advogado, defendido presos políticos durante a ditadura.
Jorge Sampaio foi secretário-geral do PS (1989-1992), presidente da Câmara Municipal de Lisboa (1990-1995) e Presidente da República (1996 e 2006).
Após a passagem pela Presidência da República, foi nomeado em 2006 pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas enviado especial para a Luta contra a Tuberculose e, entre 2007 e 2013, foi alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações.
Atualmente presidia à Plataforma Global para os Estudantes Sírios, fundada por si em 2013 com o objetivo de contribuir para dar resposta à emergência académica que o conflito na Síria criara, deixando milhares de jovens sem acesso à educação.