"Carne para canhão". Invasão da Ucrânia expõe discriminação étnica na Rússia

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Sofiia Gatilova - Reuters

As minorias étnicas da Rússia acusam o país de estar a usar a guerra na Ucrânia como uma nova forma de explorar as suas comunidades. De acordo com vários investigadores, Moscovo está a usar desproporcionalmente soldados de minorias étnicas na guerra do país vizinho, estimando-se que estes soldados estejam a morrer em maior número em comparação com os soldados eslavos. Estes militares são como "carne para canhão" para Putin.

Os direitos das minorias e os alegados maus-tratos contra a população falante de russo na Ucrânia estão, de acordo com o Kremlin, no centro da chamada “operação militar especial” russa na Ucrânia.

Vladimir Putin tem reiterado que a “russofobia" além-fronteiras contra os falantes de russo é uma das razões que levou à invasão do país vizinho, para além do objetivo de “desnazificar” a Ucrânia.

No entanto, a discriminação contra minorias étnicas é também um problema na Rússia, que se intensificou com a guerra na Ucrânia. Os grupos minoritários acusam Moscovo de usar a guerra como outra forma de explorar as suas comunidades.

De acordo com vários investigadores e especialistas, soldados russos de grupos minoritários estão a morrer em maior número na Ucrânia em comparação com os soldados eslavos.

“Está a ficar claro que muitos dos soldados que estão a morrer são das repúblicas mais pobres de ‘minoria étnica’, como Buriácia, Calmúquia e Daguestão”, disse Pavel Luzin, especialista militar russo, ao The Guardian.

Até ao início de julho, pelo menos 4238 soldados russos terão morrido na guerra da Ucrânia, segundo número do Guardian. Destes, estima-se que 225 são da República do Daguestão, 185 da República da Buriácia e 66 da República de Tuva. Somadas, as três repúblicas representam três por cento da população russa, mas 11,3 por cento das mortes registadas desde o início da invasão. A Rússia está dividida em 85 regiões, 22 das quais são repúblicas, originalmente criadas como regiões para representar áreas de etnia não russa.

Luzin explica que os escalões mais baixos do exército russo são maioritariamente compostos por jovens destas repúblicas, que se alistam principalmente por razões financeiras. “É um bilhete de ouro para muitos jovens que não têm outras perspetivas na vida. O exército oferece um emprego, um salário decente, um futuro”, explicou o especialista ao jornal britânico.

“Essa estratificação socioeconómica tem uma tradição de longo prazo nas forças armadas russas, porque os jovens das cidades com educação relativamente boa servem noutros ramos militares, mas a infantaria é composta por soldados com pouco educação de famílias e regiões pobres”, afirmou Luzin à Al Jazeera.
Soldados das minorias são “carne para canhão” para Putin
As comunidades minoritárias têm-se manifestado contra a guerra na Ucrânia e a maioria destes soldados mostra pouca motivação para defender o país, já que se alistaram apenas por motivos económicos.

Logo após o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro, foi criada a Free Buryatia Foundation, a primeira organização pela paz dirigida por líderes de minorias étnicas.

Para além de pedir maior autonomia de Moscovo, o grupo publica vídeos anti-guerra e ajuda soldados a conseguirem escapar da linha da frente da batalha. Em julho, a organização anunciou que ajudou 150 soldados da Buriácia a recusarem participar na guerra, permitindo-lhes regressar a casa.

“Os soldados e as suas famílias estão sempre a escrever-nos, dizem que não querem lutar, mas há muitos obstáculos pelo caminho. Alguns deles estão a ser mantidos em territórios ocupados [da Ucrânia], e são pressionados, ameaçados, com medo de serem enviados para a linha da frente para serem mortos”, disse Victoria Maladaeva, da Free Buryatia Foundation, à Al Jazeera.

“Sabemos que não podemos influenciar Vladimir Putin diretamente, mas quanto menos carne para canhão ele tiver à sua disposição, mais cedo essa guerra terminará”, disse Maladaeva.
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