Casa Branca continua sem publicar imagens da operação

Mantém-se o suspense sobre a publicação de imagens, tanto do cadáver de Bin Laden como da operação que lhe ocasionou a morte. A pergunta pode ter várias respostas, mas é uma só: porque adia a Casa Branca uma publicação que cortaria cerce as especulações e as teorias da conspiração?

RTP /

A resposta oficial da Casa Branca foi dada pelo seu porta-voz, Jay Carney, citado no site de Al Jazeera: as fotografias poderiam inflamar, mais ainda, os ânimos, ao mostrarem um cadáver desfeito de forma "terrível". Bin Laden teria sido atingido por um tiro no peito e outro sobre o o olho esquerdo e a sua cabeça teria "explodido".

Um escrúpulo insólito

Mas os antecedentes, em casos semelhantes, não registam esse tipo de escrúpulo a lidar com imagens de adversários mortos ou vivos. Pelo contrário, a exibição de troféus tem sido sempre uma forma de selar a vitória: em 2003, as autoridades norte-americanas exibiram as fotografias dos filhos mortos de Saddam Hussein, Udai e Kusai; em 2006, exibiram abundantemente fotografias do cadáver do chefe da Al Qaeda no Iraque, Abu Mussab al-Sarkawi; depois, mostraram imagens de Saddam Hussein ao ser capturado e até ao ser submetido a exame médico.

Poderá a actual discrição resultar de uma mudança ocorrida, ao menos neste aspecto, entre a Administração Bush e a Administração Obama. No entanto, esta mudança cria problemas a um presidente que está precisamente empenhado em tirar o maior partido dum êxito sobre o qual não lhe convém deixar dúvidas.

Prova de que a invocação das amostras de ADN não tem sido suficiente para dissipar as dúvidas sobre a morte de Bin Laden está nas declarações do ainda chefe da CIA, Leon Panetta, também citadas em Al Jazeera: "O Governo obviamente tem estado a discutir isto, mas não acho que exista alguma dúvida de que em última análise uma fotografia será apresentada ao público". Com menos clareza, também o conselheiro de Segurança Interna, John Brennan, tinha insinuado a inevitabilidade duma tal publicação.

Cadáver sem hipóteses de exumação

A pressão sobre a Casa Branca encontra-se incrementada pelo facto de o cadáver ter desaparecido imediatamente após a operação. Aparentemente, ele foi transportado para um porta-aviões e lançado ao mar no Golfo de Oman. A explicação oficial para este procedimento é a de se querer dar um destino ao corpo nas 24 horas imediatamente a seguir à morte, por forma a respeitar a tradição muçulmana e a de não se poder, nesse curto período, encontrar um país que aceitasse o corpo para ser enterrado, com o risco de se transformar depois num local de peregrinação, homenagens e manifestações.

Mesmo que a explicação seja certa, ela não refere porquê, em alternativa, não se optou pelo enterro em local secreto (como se fez em 1967 com o "Che" Guevara), e antes se preferiu fazer desaparecer o corpo de forma definitiva, no mar, impedindo qualquer futura exumação que o identificasse sem margem para dúvidas.

Imagens sobre a operação tão-pouco aparecem

Para além das dúvidas suscitadas pela ausência de um cadáver ou de fotografias desse cadáver, existem muitas outras suscitadas pela ausência de imagens, em certo sentido bem mais reveladoras, sobre a própria operação. De elas terem sido captadas, não restam dúvidas, porque o presidente Barack Obama e a sua equipa seguiram em tempo real todos os passos dos "Navy Seals", desde a entrada no complexo residencial que albergava Bin Laden até à sua partida.

Mas a sua não-revelação poderá estar relacionada com várias contradições que entretanto têm surgido na história apresentada ao público. A primeira tem que ver com os objectivos da operação: oficialmente, tratava-se de matar Bin Laden se ele resistisse, mas de capturá-lo se fosse possível. Como, alegadamente, resistiu teve de ser morto. De um ponto de vista jurídico, esta versão "apenas" deixa por explicar a violação da soberania paquistanesa, mas não o facto de Bin Laden ter sido abatido.

Ora, esta versão caiu por terra a partir do momento em que se reconheceu que o chefe da Al Qaeda estava desarmado no momento de os operacionais norte-americanos entrarem no seu quarto. Houve, efectivamente, disparos, mas foram feitos antes por guarda-costas seus, que impediram os helicópteros de pousar no terraço do complexo habitacional e os forçaram a uma aterragem no terreno anexo.

Depois de admitir que Bin Laden estava desarmado, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, insistiu na versão de que ele teria resistido. Não explicou contudo que tipo de resistência uma pessoa desarmada podia opor à força de elite norte-americana. A mulher que se encontrava com Bin Laden, também desarmada, terá reagido violentamente, sendo ferida a tiro numa perna.

A não-divulgação de imagens da operação também poderá estar relacionada com o destino dos ocupantes do complexo habitacional: a versão oficial norte-americana sustenta que os "Navy Seals" apenas levaram consigo o cadáver de Bin Laden, mas nada se sabe sobre o cadáver de três outros homens mortos no tiroteio nem sobre o destino de um homem alegadamente sobrevivente e, segundo declarações de um oficial paquistanês à BBC, raptado pela força atacante. O mesmo oficial supunha tratar-se de um filho de Bin Laden.

Segundo a Casa Branca, viviam 36 pessoas na casa - quatro homens (Bin Laden, um filho seu, um correio e o irmão deste), nove mulheres e 23 crianças (nenhuma das quais filha de Bin Laden). No balanço final da operação, terão morrido todos os homens e uma das mulheres. Um oficial dos serviços secretos paquistaneses (ISI), citado por Spiegel on-line, afirma que os sobreviventes estão sob protecção do mesmo ISI e em breve serão libertados e repatriados.


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