Casal de quebra-ossos regressa aos Picos da Europa após 80 anos
Oviedo, 17 fev (Lusa) -- Um casal de quebra-ossos, uma espécie de abutre, instalou-se nos Picos da Europa (Astúrias, Espanha), ao fim de 80 anos, e já demonstra comportamentos pré-reprodutores, segundo os técnicos de programa de reintrodução.
Trata-se de um casal formado pela fêmea Deva -- cedida pelo governo de Aragão e libertada em 2010 no âmbito do programa de recuperação de quebra-ossos nos Picos da Europa -- e um exemplar adulto procedente dos Pirenéus, segundo a Fundação para a Conservação do Quebra-Ossos.
O lugar escolhido pelos exemplares para se instalarem caracteriza-se pela existência de grandes desníveis, que criam um habitat extremamente favorável para os quebra-ossos, e pela abundância de ungulados (mamíferos) domésticos e selvagens - incluindo o cavalo, o gado ou o porco -, que garantem a provisão de recursos alimentares.
O local situa-se a menos de três quilómetros do último ninho conhecido que era usado pela espécie, que data de 1956, e próximo dos iscos colocados em 2003 com a colaboração do grupo de resgate e intervenção de montanha da Guarda Civil.
Deva, a fêmea reintroduzida, está atualmente no seu quarto ano de vida e apesar de, fisiologicamente, ser cedo para iniciar a reprodução, já demonstra atitudes territoriais defendendo a zona contra abutres e outras aves de rapina.
Pelo seu lado, o macho permanece na zona desde o princípio do verão passado e percorreu os três maciços dos Picos da Europa até se instalar no espaço ocupado por Deva, atraído pela possibilidade de reprodução.
Os técnicos observaram atitudes pré-reprodutoras significativas, como o comportamento nupcial com várias cópulas e o transporte de material de construção do ninho até três locais diferentes localizados em grutas.
Segundo os investigadores, estes comportamentos são os mesmos observados em casais silvestres nos Pirenéus, que por esta altura se encontram em plena atividade reprodutora, e são o primeiro indício, em décadas, da aceitação de uma fêmea para a aproximação de outro exemplar com estes objetivos, nos Picos da Europa.
O quebra-ossos, que se alimenta principalmente de ossos de ungulados silvestres e domésticos, esteve presente na maioria das regiões montanhosas da Europa, Ásia e África, apesar de no último século estas populações terem sofrido um drástico processo de regressão que conduziu ao seu declive e extinção em grande parte dessas zonas.
A espécie surge entre as mais ameaçadas da fauna espanhola, bem como o lince-ibérico, a águia-imperial, o abutre-preto, o urso pardo, o tetraz e a doninha.
Durante os últimos anos, o quebra-ossos tem sido objeto de planos de conservações em diferentes países europeus, entre os quais Espanha, onde se estima que existam 129 unidades reprodutoras, que atualmente habitam na vertente espanhola dos Pirenéus, de 166 presentes em toda a cordilheira, incluindo a vertente francesa.