Caso de Ébola em Dallas abala sistema de controlo de doenças dos EUA

Antes de desembarcar nos Estados Unidos, o homem internado terça-feira num hospital do Texas com sintomas de Ébola, fez escala em Bruxelas, vindo da Libéria, revelou o ministério liberiano da Informação. Contudo não deverá ter contagiado ninguém, acreditam os especialistas. Nos Estados Unidos, o caso está a colocar em causa o sistema de saúde norte-americano e a resposta das urgências, já que os sintomas que o paciente apresentava não foram reconhecidos como Ébola e ele foi enviado para casa quando se apresentou inicialmente nas urgências.

Graça Andrade Ramos, RTP /
O primeiro paciente com Ébola internado após chegar aos EUA foi internado e isolado após dia 26 de setembro, apesar de ter ido à urgências hospitalares com queixas no dia 24 de setembro. Reuters

O paciente está agora em estado grave, isolado e o seu prognóstico é reservado. Até agora não foi desenvolvida nenhuma vacina contra o Ébola, embora seja esperada a primeira produção em meados de 2015.

Para já e apesar desta circunstância, o risco da epidemia de Ébola se estender ao Texas, ou a outras partes do mundo, está a ser considerado diminuto, o que não impede as companhias aéreas americanas, o Banco Mundial e a OMS de estarem preocupadas.Diversas empresas, em particular as de aviação, estão já a estudar uma resposta para conter possíveis prejuízos provocados pelo receio da epidemia. As ações de diversas companhias aéreas norte-americanas reagiram negativamente à notícia do primeiro doente com Ébola nos EUA, com os investidores a reagirem preocupados a possibilidade de diminuição de tráfego por causa do vírus. As ações da JetBlues caíram 2,7% e as das American Airlines e Delta Air Lines, caíram cada uma 3.1%.

O ministério liberiano da Informação divulgou a rota seguida pelo homem, cuja identidade e nacionalidade não foram reveladas. O doente esteve na Libéria, um dos países mais afetados pela epidemia, antes de partir dia 19 de setembro para o Texas, onde chegou dia 20, via Bruxelas.

Em nenhuma ocasião apresentou sintomas da doença, o que diminui hipóteses de contágio, já que o vírus do Ébola só se transmite após o aparecimento dos primeiros sintomas, afirmam especialistas.
Risco reduzido de epidemia
O período de incubação do Ébola oscila entre dois e 21 dias e uma pessoa infetada só se torna contagiosa quando apresenta os primeiros sintomas, como febre, enxaquecas e vómitos.

Tom Frieden, diretor dos CDC, sublinhou o risco reduzido de se declarar para já uma epidemia nos Estados Unidos ou noutros locais. Serão necessárias apesar disso algumas medidas de contenção.




No caso deste homem, os primeiros sintomas surgiram apenas dia 24 de setembro, quando ele já se encontrava nos EUA. Começou a sentir-se mal e dirigiu-se aos serviços de urgência do Hospital Presbiteriano de Dallas a 26 de setembro, para receber tratamento mas foi enviado para casa.

Os médicos que o atenderam estão debaixo de fogo por não terem indagado sobre as suas viagens recentes.

Sede do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, CDC (Foto: Reuters)

"Se o médico de serviço de urgência tivesse perguntado a esta pessoa sobre os seus antecedentes de viagem e se este lhe tivesse dito ter vindo recentemente da África Ocidental, isso faria soar os sinais de alarme para toda a gente, pois fala-se muito de Ébola nos Estados Unidos" considerou Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas.

Em vez disso, o paciente só foi internado dia 26 de setembro.

"É realmente importante garantir que os médicos estejam bem conscientes de que temos um problema, que há uma epidemia em África e que as pessoas podem viajar para os Estados Unidos sem nenhum sintoma" acrescentou Fauci, sublinhando que este caso "pode repetir-se".

O responsável acredita contudo na capacidade de resposta do sistema de saúde americano, capaz de descobrir as pessoas que tenham tido contacto com um doente e segui-las medicamente, como a família e quem habitualmente contacta com o paciente.

Thomas Frieden, diretor do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (foto: Reuters)

Sob vigilância
O responsável pelos CDC afirma que estes já estão em campo para descobrir com quem o doente esteve em contacto, de forma a seguir estas pessoas e detetar qualquer sintoma de Ébola. Podem estar já infetadas e "desenvolverem Ébola nas próximas semanas" reconhece. O período de vigilância irá durar até 21 dias.

Tanto Fauci como Frieden garantem que os Estados Unidos estão em condições de prevenir uma epidemia de Ébola no país, mesmo que surjam casos isolados. Por outro lado consideram que este caso está dentro das probabilidades esperadas.

"Era inevitável depois da explosão das infeções na África Ocidental", considerou o virólogo Thomas Geibert à Agência France Press. Professor na Universidade do Texas e especialista em Ébola, Geisbert diz que "só se se encerrarem os aeroportos e se proibirem as pessoas de viajar e de abandonar a Africa Ocidental é que será possível impedir alguém infetado de embarcar num avião."

A actual epidemia de Ébola é a mais grave desde a identificação do vírus em 1976, tendo feito já mais de 3.000 mortos entre 6.500 infetados, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
Vacina só em 2015
A OMS advertiu que a epidemia está a crescer de forma "explosiva" e que poderá, sem um reforço importante dos meios de combate, contaminar 20.000 pessoas até novembro.

Centro de operações da OMS nos EUA com quadro da epidemia de Ébola (foto: Reuters)

Até agora não existe vacina, devido à pouca expressão do vírus e ao facto de as epidemias serem tradicionalmente localizadas em países com pouco peso económico, o que torna o investimento em investigação pouco atrativo para as farmacêuticas .

A dimensão da ameaça levou tanto a GlaxoSmithKline como a NewLink, já detentoras de linhas de investigação em fase experimental, a investir na sua capacidade de produção de vacinas, estando já a efetuar testes de nível 1 em 10 locais, de África, Europa e América do Norte, afirmou a OMS após dois dias de reunião com 70 especialistas.

A OMS anunciou ainda que deverá registar-se "um aumento muito significativo na escala de produção de vacinas na primeira metade de 2015. Mesmo no melhor caso, em que as vacinas passem os testes de segurança e de eficácia, uma produção significativa de doses só estará disponível no final do segundo trimestre de 2015", acrescentou a organização da ONU.
Críticas do Banco Mundial
A lentidão da resposta da comunidade internacional à ameaça tem recebido criticas de diversos quadrantes. A mais recente veio do presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, que apontou o dedo aos desequilíbrios entre o norte e o sul.

"A batalha contra a infeção é um combate em múltiplas frentes, antes de tudo pelas vidas humanas e pela saúde. Mas é também uma luta contra a desigualdade", declarou Kim em Washington, denunciando a "lotaria" que dita a morte de quem nasceu nos países afetados pelo Ébola , sem acesso às "estruturas e experiência" de tratamento existentes nos países desenvolvidos.

"É doloroso ver repetidos os mesmos erros já cometidos em epidemias precedentes" criticou Jim Yong Kim, lembrando que, na epidemia de Sida muitos responsáveis consideraram "difícil e demasiado dispendioso" o combate ao HIV.

Enterro de vitima de Ebola em Freetown a 28 de set 2014 (foto: Reuters)

"A infraestrutura necessária de que necessitamos (contra o Ébola) não é complicada de estabelecer e nós sabemos como limitar a propagação do vírus", afirmou Kim, notando que o custo da inação poderá vir a cifrar-se em "dezenas de milhões de dólares".

O Banco Mundial já mobilizou 400 milhões de dólares para travar a epidemia. "Se não detivermos o Ébola, a infeção vai continuar a espalhar-se a outros países e talvez a outros continentes" garantiu Kim.
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