Catástrofe na Líbia. Autoridades dificultam ajuda humanitária e perseguem jornalistas

A Amnistia Internacional denunciou, esta segunda-feira, a repressão levada a cabo pelas Forças Armadas Árabes da Líbia (LAAF) em Derna, cidade no leste do país, com o objetivo de “silenciar as críticas da sociedade civil e de fugir às responsabilidades”. Jornalistas, funcionários humanitários e médicos relatam a dificuldade de acesso às comunidades atingidas pela Tempestade Daniel e consequente colapso de duas barragens, no passado dia 11 de setembro.

Rachel Mestre Mesquita - RTP /
IAE via Reuters

"A perda de vidas e a devastação em Derna e na Líbia são uma tragédia inimaginável. No entanto, em vez de facilitar o acesso humanitário às comunidades afetadas, a LAAF está a silenciar as críticas, reprimir a sociedade civil e fugir às responsabilidades”, condenou Diana Eltahawy, diretora regional adjunta da Amnistia Internacional para o Médio Oriente e Norte de África.

Em comunicado divulgado esta segunda-feira, a Amnistia Internacional (AI) apelou para que as autoridades locais em controlo de facto do leste da Líbia garantissem a defesa dos Direitos Humanos e levantassem de imediato todas as restrições indevidas impostas aos meios de comunicação social que estão no terreno a tentar proceder à facilitação de ajuda humanitária a todas as comunidades afetadas.

“Em tempos de crise, uma sociedade civil vibrante e meios de comunicação independentes são vitais para garantir os direitos dos sobreviventes à vida, à habitação segura, à alimentação, à saúde e ao acesso à informação", defendeu Diana Eltahawy.

No entanto, na cidade de Derna, devastada pelas inundações catastróficas que causaram a morte de dezenas de milhares de pessoas e deixaram milhares de pessoas desaparecidas, são vários os relatos de residentes, jornalistas e trabalhadores humanitários que expõem os constrangimentos na prestação de auxílio.

Segundo a Amnistia Internacional, a multiplicidade de postos de controlo terrestres impostos pelas autoridades do leste da líbia – com a necessidade de autorizações de segurança - tem causado atrasos na chegada da ajuda humanitária a algumas zonas afetadas e dificultado o trabalho de jornalistas na região. A 19 de setembro, um porta-voz da ONU contou à comunicação social que uma equipa das Nações Unidas “não estava autorizada a deslocar-se” a Derna.Desde o início da crise que vários profissionais de comunicação no terreno têm sido alvo de repressão. Jornalistas alegam ter sido sistematicamente seguidos por agentes militares da LAAF e intérpretes forçados a não traduzir conteúdos que questionassem ou criticassem a ação das autoridades líbias.


Na semana passada, a 18 de setembro, após as manifestações na cidade afetada de Derna, as Forças Armadas Árabes da Líbia (LAAF) ordenaram aos jornalistas que abandonassem a cidade, tendo mais tarde voltado atrás na sua decisão e proibido que os jornalistas se aproximassem das equipas de salvamento.
No rescaldo das inundações, quando ainda continuam milhares de pessoas desaparecidas, a Amnistia Internacional apela à responsabilidade das autoridades políticas e militares líbias, através da realização de inquérito independente, para avaliar “a má governação e má gestão por parte de governos rivais e a livre atuação de milícias e grupos armados que dão prioridade aos seus interesses próprios em detrimento da vida e do bem-estar dos civis na Líbia”, declaram.

Diana Eltahawy considera que há uma necessidade urgente de apurar os factos e circunstâncias sobre o colapso das duas barragens que levaram à perda de milhares de vidas humanas. ”O objetivo é verificar se as autoridades líbias e os responsáveis pelo controlo de facto das zonas afetadas não protegeram os direitos da população à vida, à saúde e outros direitos humanos", conclui.
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