Católicos e protestantes irlandeses separados por muros e unidos pela cerveja

Belfast, Irlanda do Norte, 07 nov (Lusa) -- A cerveja é um dos poucos elementos unificadores entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, porque em quase tudo o resto continuam de costas voltadas, mesmo depois do acordo de paz.

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"Há uma diferenciação muito definida na nossa cabeça. É uma coisa territorial e vai demorar muitos anos a mudar", disse um taxista protestante à agência Lusa em Belfast, durante uma visita pela cidade, anfitriã dos prémios europeus de música da MTV.

Belfast está dividida por bairros, grande parte entre católicos e protestantes, e depois há as zonas neutras, onde ambos coexistem, como os locais de trabalho e os bares nocturnos.

A visita incluiu passagem obrigatória pelos bairros distintos de Belfast e que contam, nas paredes, a história recente dos irlandeses.

É nas fachadas das habitações e nas cercas e muros de Belfast que os habitantes desenham os heróis e protagonistas, em particular dos atentados que varreram Belfast -- mas também toda a Irlanda do Norte -- a partir dos anos 1960 até ao cessar fogo, em 1998.

Num bairro protestante, de classe média baixa, vê-se uma fachada de um edifício coberta com um retrato de um homem ainda jovem.

"É de Stevie Topgun [Stephen McKeag], um militar que morreu em 2000. Para uns é um assassino, aqui é um herói. E vê aquele ali com o militar com a arma a apontar para nós? É como se fosse a nossa `Mona Lisa`. Está sempre a olhar para nós para onde quer que vamos", descreveu.

Próxima paragem. O impressionante muro que foi erguido em Belfast nos anos 1970 entre bairros católicos e protestantes. Tem cinco quilómetros de comprimento e, segundo o taxista, foi erguido para o bem de todos.

"Aqui eles querem que o muro exista, garante a segurança de todos", disse, enquanto aponta para uma caneta. É a indicação para que os turistas escrevam mensagens de paz na longa parede, conhecida como `Muro de Berlim de Belfast`.

Existe uns portões de passagem de um lado para o outro, mas fecham à noite. Atravessando-o, vê-se claramente a diferença -- até arquitetónica -- entre protestantes e católicos.

É no lado católico que está o mural dedicado a Bobby Sands, que integrou o Exército Republicano Irlandês (IRA), chegou a ser deputado e morreu em 1981, durante os conflitos, em greve de fome.

Os murais contam as frustrações e a raiva de uma sociedade que durante muito tempo conviveu com a morte, atentados bombistas, terrorismo, e isso está tão impregnado na cabeça dos irlandeses que vão demorar gerações a mudar, garantiu o taxista.

"Eu vi pessoas a levarem tiros na cabeça, eu vi pessoas a perderem os braços e as pernas em ataques bombistas, a polícia a vasculhar as casas à procurar de culpados, de bombas e armamento. Isto não se esquece. Só que nos controlamos. Até ao dia em que...", disse o taxista.

Só no final da visita é que o taxista lá responde que também ele foi por duas vezes condenado. Porquê? "Estava no lugar errado há hora errada", disse, evasivo.

Cauteloso, apenas desvendou que tem 47 anos, dois filhos. E é protestante.

"Nunca mais voltei a ver atentados, a cidade está a crescer, a modernizar-se, mas não quer dizer que eles não voltem a acontecer", disse, na despedida.

 

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