"Cegueira seletiva". Europa sob crescente dependência energética dos EUA

A União Europeia tem tentado deixar gradualmente de ser depende energeticamente da Rússia, mas no último ano as aumentaram as importações de gás natural liquefeito dos Estados Unidos.

Inês Moreira Santos - RTP /
Jesse Winter - Reuters

A conclusão é de um novo relatório que alerta para o risco de custos mais elevados, num contexto de crescentes tensões.

Os dados revelam que Donald Trump exerce um controlo absoluto sobre o fornecimento de energia da União Europeia e do Reino Unido, em resultado da troca da dependência da Europa em relação à Rússia pela dependência energética aos Estados Unidos.

A Europa está a substituir rapidamente a “dependência do gás russo transportado por gasodutos pela dependência do gás natural liquefeito (GNL) norte-americano", indica o relatório realizado pelo Instituto Clingendael, em Haia, pelo Instituto Ecologic, em Berlim, e pelo Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais.

De acordo com esta avaliação, “as importações de GNL dos EUA para o Espaço Económico Europeu (EEE) aumentaram 61 por cento”, em 2025, comparativamente a 2024, e “quase seis vezes em comparação com 2019”.

“O GNL norte-americano agora representa mais de 59 por cento das importações de GNL da UE e cerca de 38 por cento do total das importações de gás de países fora do EEE”, lê-se no relatório agora divulgado.Tendência que os especialistas consideram que “expõe a Europa a pressões geopolíticas, volatilidade de preços e riscos de ativos obsoletos”.

O Parlamento Europeu aprovou recentemente uma lei que visa eliminar gradualmente as importações de gás e petróleo da Rússia, mas segundo os dados, “embora a eliminação gradual dos combustíveis fósseis russos seja estrategicamente sensata, a nova legislação da UE restringe a diversificação à mera eliminação das importações russas”.

"Diversificação não pode significar substituir um fornecedor dominante por outro. A Europa precisa de uma definição clara de diversificação e de uma estratégia que reflita as realidades geopolíticas atuais", observa Raffaele Piria, Investigador Sénior do Instituto Ecologic e idealizador do estudo.

O relatório, intitulado A Cegueira Seletiva da Europa em Relação ao Gás: GNL dos EUA e os Limites da Diversificação do Abastecimento, surge no momento em que se observam crescentes tensões nas relações transatlânticas e com os países da NATO, depois da intervenção militar na Venezuela e as ameaças de ocupação da Gronelândia.

“Historicamente, as interferências do governo dos EUA nos mercados de gás para pressionar a Europa eram consideradas impensáveis. No atual contexto geopolítico, essa suposição é questionável", acrescenta Piria, citado no documento.
Diversificação maior e segurança energética

Os autores do estudo em questão sublinham ainda que tratar a Noruega como se fosse um fornecedor externo “contraria a realidade económica e obscurece a crescente dependência da Europa em relação aos EUA, um risco para a segurança energética que os formuladores de políticas devem reconhecer”.

“A Noruega é, na prática, parte integrante do mercado comum de energia, está amplamente sujeita às mesmas regulamentações e só pode vender o seu gás para a UE ou o Reino Unido”, explica Kacper Szulecki, professor e investigador da NUPI. “É por isso que faz sentido falar da crescente dependência do Espaço Económico Europeu em relação ao gás norte-americano – as vulnerabilidades da Europa são coletivas e precisam de ser melhor compreendidas pelos formuladores de políticas e pelo público”.

Apesar de o gás natural liquefeito oferecer “um potencial de diversificação maior do que o gás de gasoduto”, explica também Hannah Lentschig, investigadora do Instituto Clingendael, “a dependência da Europa em relação ao GNL aumenta a nossa exposição a choques de preços globais através dos mercados à vista, com um forte impacto nos preços do gás e da eletricidade". Além do mais, o GNL também é mais poluente do que o gás de gasoduto” e “este não é um caminho sustentável para a segurança energética”. Nesse sentido, os autores do relatório consideram que a União Europeia deve “monitorizar as quotas de importação de todos os fornecedores, acelerar a transição energética e resistir à dependência de combustíveis fósseis a longo prazo".

“A verdadeira segurança energética exige a aceleração das energias renováveis e da eletrificação a nível nacional para eliminar gradualmente as importações de gás e petróleo, e não apenas a substituição dos fornecedores de combustíveis fósseis", escreveu Louise van Schaik, Diretora da Unidade de Assuntos Globais e da UE da Clingendael, recordando que “a curto e médio prazo, continuaremos a precisar de gás"

“Os legisladores da UE precisam de procurar uma diversificação genuína entre fornecedores e rotas, e os planos nacionais de diversificação devem refletir claramente isso".
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